Emprego, saneamento, saúde, paz, prosperidade e solidariedade: no Dia de Reis, celebrado pela Igreja Católica nesta segunda-feira (6), os pedidos feitos em ruas ou vielas sem calçamento de comunidades várias de Belém do Pará sugerem reflexões sobre como a data do calendário atravessa a realidade vivida por milhares de pessoas que, diariamente, convivem com as desigualdades sociais na capital paraense - muitas delas resultantes justamente da ausência dos ensinamentos cristãos mais básicos, como o amor ao próximo, a partilha e a compaixão.
"Não posso perder o bom humor. Quem perde é aquela pessoa que não gosta de trabalhar", diz José Laureano da Silva Oliveira, 63 anos. Passava das dez da manhã quando as batidas metálicas do velho carrinho de mão guiado por ele denunciavam, aos solavancos, a esburacada condição da passagem Marçal, no bairro Curió-Utinga, em Belém. "Gosto de trabalhar e ganhar meu trocado, mas sem mexer em nada de ninguém. Meu jeito é esse", arremata em tom maroto e sereno.
A manhã que celebra o encontro dos três Reis Magos com o menino Jesus é apenas mais uma, entre tantas de labuta na vida de "Lourico", como também é conhecido seu Laureano. E se na história os presentes (o ouro, a mirra e o incenso) eram cheios de significados, sobre o chão batido do Utinga é preciso recolher latinhas para conseguir o que for possível de sustento. E quando isso não basta, Lourico também faz outros pequenos serviços.
Em um dia bom a gente consegue ganhar até R$ 60. "Mas, hoje está devagar. Por enquanto, só ganhei R$ 15", pondera, esperançoso. "Vou tentar pra ver se consigo pelo menos mais R$ 15".
"Hoje está devagar. Por enquanto, só ganhei R$ 15. Vou tentar pra ver se consigo pelo menos mais R$ 15. Não é o caso de não ter força para trabalhar. Eu tenho força, mas ninguém quer dar (emprego) pra gente com essa idade", diz José Laureano
As palavras são ditas por José Laureano saem sem raiva ou rancor. Ao contrário, o otimismo sorridente e bem humorado de "Lourico" contrasta com o cenário desolador a sua volta. Naquele espaço de segundos, soam como uma fortaleza erguida contra a completa falta de estrutura com a qual parece estar acostumado a conviver. Ou como um oasis particular, nas longas travessias pelos desertos da humanidade.
José Laureano confirma que por causa de sua idade, não consegue mais um emprego formal. "Não é o caso de não ter força para trabalhar. Eu tenho força, mas não dão (emprego) pra gente com essa idade", diz. Na sua opinião, as autoridades ditas competentes deveriam direcionar as políticas públicas para as populações que, de fato, são mais vulneráveis socialmente.
"Espero que nossos governantes olhem pra gente, vejam que somos pobres. A gente espera, espera e nada acontece", protesta. Aliás, diz ele, os políticos aparecem, sim, mas só na época da eleição. Aí, eles vêm atrás de voto. Mas eu vou votar nesse ano...", comenta, dando a entender que, na urna, vai se lembrar de quem, realmente, ajudou os mais pobres.
Garças suavizam precariedade do canal
Mais adiante, também no Curió-Utinga, o canal do Marte, conta mais do mesmo. Sujo e em estado precário, o curso d'água só ganha um pouco mais de leveza pela presença constante das garças. João Farias, 65 anos, mora há 25 na passagem São Francisco, bem em frente ao canal. As ruas da área precisam de melhorias há tempos. "Em primeiro lugar, a gente queria saneamento básico, que a prefeitura ajeitasse esse canal e as ruas no entorno", diz seu Farias.
A situação só não é pior porque, argumenta o morador, os próprios vizinhos colocam aterro nas ruas, para melhorar o deslocamento das pessoas. A água que chega às residências também não é de qualidade. "A gente mandar buscar água na bica (uma área que fica no bairro)". Quem vai buscar a água recebe R$ 3 por esse serviço.
Mesmo diante dessa realidade, João diz que nunca pensou em mudar de endereço. E tem uma razão sentimental: "Nasci e me criei no Curió".
Ouvida pela redação integrada de O Liberal, a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), da Prefeitura de Belém, informou que trabalha diariamente com ações de dragagem no canal do Marte, com o objetivo de melhorar o escoamento da água no bairro do Curió-Utinga. Segundo diz a prefeitura, no mês passado o bairro teria recebido ações emergenciais que incluíram serviços de limpeza e recuperação asfáltica. "Para janeiro, está previsto o processo de licitação para contratação de empresa responsável para obras de drenagem que visam diminuir o problema de alagamentos na área", diz a Sesan.

Dia de Reis: festa tradicional dos católicos
Na tradição cristã, o Dia de Reis foi aquele em que os três reis magos levaram presentes ao menino Jesus Cristo. Cada um deles saiu de uma região para homenagear o Deus menino. Baltazar veio da África, levando mirra, um arbusto originário desse país, do qual é extraída uma resina para preparação de medicamentos. Normalmente era um presente ofertado aos profetas. O presente do rei Gaspar, que partiu da Índia, foi o incenso, como alusão à sua divindade. Os incensos são queimados há milhões de anos para aromatizar os ambientes, espantando insetos e energias negativas, além de evocar a fé, a espiritualidade. Melchior, ou Belchior, partiu da Europa, levando ao Messias o ouro, que simbolizava a nobreza e era oferecido apenas aos deuses.
Em homenagem aos reis magos, os católicos promovem a folia de reis, que se inicia em 24 de dezembro, véspera do nascimento de Jesus, e se estende até o dia 6 de janeiro, dia em que encontraram o menino predestinado a ser o salvador. A folia de reis é de origem portuguesa e foi trazida ao Brasil por esses povos à época da colonização. Durante os festejos, os grupos saem caminhando pelas ruas das cidades, levando as bênçãos do menino Jesus para as pessoas que os recebem. É tradição que as famílias ofereçam comidas aos integrantes do "reizado", para que possam levar as bênçãos por todo o trajeto.
O Dia de Reis é considerado uma das festas tradicionais mais singelas celebradas em todo o mundo católico. E o termo "mago" tem a ver com as origens persas. Os magos eram reis porque esse é um dos sinônimos da palavra também usada para nomear os sábios discípulos de uma seita que cultuava um só Deus. Portanto, não estavam associadas a termos como astrólogo ou bruxo.
A Bíblia diz que os magos chegaram à casa e viram o menino com sua mãe. Isso porque José já tinha providenciado uma moradia muito pobre, porém mais apropriada, do que a gruta de Belém onde Jesus nascera. Ali, os reis magos, depois de adorar o Messias, entregaram os presentes: ouro, incenso e mirra.
Prestada a homenagem, eles voltaram para suas nações, evitando novo contato com Herodes, como lhes indicou o anjo do Senhor. A tradição dos primeiros séculos, seguindo a verdade da fé, evidenciou quem eram três os reis magos: Melquior, Gaspar e Baltazar. Até o ano 474, seus restos estiveram sepultados em Constantinopla, a capital cristã mais importante do oriente. Depois, eles teriam sido trasladados para a catedral de Milão, na Itália. Em 1164, foram finalmente transferidos para a cidade de Colônia, na Alemanha, onde foi erguida a belíssima Catedral dos Reis Magos, que os guarda até hoje.

