Ler, escrever, compreender e se comunicar são habilidades fundamentais para a vida em sociedade e para o exercício da cidadania. A importância desses conhecimentos é reforçada pelo Dia da Língua Portuguesa, celebrado nesta quinta-feira (5), em homenagem ao nascimento do escritor Ruy Barbosa. A data destaca o papel do ensino do idioma no cotidiano dos brasileiros e a valorização das variações linguísticas presentes no país. No Instituto Federal do Pará (IFPA), em Belém, um professor e alunos do curso de Letras apresentam as nuances da língua que acompanha os brasileiros em todas as fases da vida.
Segundo Márcio Pina, professor do curso de Letras Português do Instituto Federal do Pará (IFPA) e doutorando em linguística, é comum pensar que o contato com a língua surge no processo de educação básica, com a alfabetização. Porém, segundo ele, a língua nasce bem antes desse momento.
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“A língua portuguesa está presente desde o momento que nós estamos no ventre da nossa mãe e ela começa a ter contato com a gente. E ela [a língua portuguesa] vai até o último momento da nossa vida. Ela é parte do nosso dia a dia, quando nós falamos, quando nós escrevemos, quando nós nos comunicamos com qualquer tipo de pessoa que esteja ao nosso redor”, afirma Márcio.

Para o professor, uma das principais mudanças no ensino da língua portuguesa foi a associação entre teoria e prática desde a graduação, para que os futuros professores, ao chegarem em uma sala de aula, consigam mediar o conhecimento de forma tranquila e eficaz.
“Aqui no IFPA, ao mesmo tempo que nós temos a graduação, nós também estamos na educação básica, então estamos sempre trabalhando, com os nossos alunos, a questão da teoria e da prática. A minha formação, por exemplo, no ensino superior, foi muito trabalhada a questão da teoria. E quando eu cheguei na sala de aula, não sabia trabalhar com os meus alunos”, diz.
Desde então, o professor passou a trabalhar nas duas frentes com os alunos de Letras dentro da sala de aula. “Quando eles chegarem na sala de aula e se depararem com alunos do sexto ano ao ensino médio, como é que eles vão lidar com esses alunos? Eles vão utilizar a teoria e também vão utilizar a prática que foi ensinada aqui na sala de aula. Essa foi a maior evolução que teve dentro da academia”, pontua.
Características da língua
Para o estudante João Belo, de 21 anos, a língua portuguesa é uma ferramenta de decodificação e leitura do mundo, que está intrínseca ao cotidiano. Ele compara a língua à figura materna, que possui várias faces e é acolhedora. “Uma das coisas mais bonitas para mim, referente à língua no dia a dia, é ver como as pessoas são criativas para articular essa língua. Como elas formam novas palavras, elas usam para dialogar com uma pessoa, com a outra. Essa interação, para mim, é uma das coisas mais bonitas da área”, enfatiza.

Dentro do ensino básico, é comum que estudantes sintam dificuldades com alguns aspectos do ensino de língua portuguesa, como a gramática. João Belo destaca que a música e a literatura ajudam a compreender as dimensões gramaticais de forma facilitada, desmistificando a complexidade do aprendizado.
“Existe uma questão: o aluno chega com ódio de duas matérias dentro de sala de aula, matemática e língua portuguesa. Quando fui aluno do ensino médio, tinha essa visão também. Quando eu comecei a observar melhor essas articulações da gramática dentro, por exemplo, de uma música que eu gosto ou de um livro, comecei a perceber que a língua é uma ferramenta maravilhosa”, relembra.
O Brasil, extenso em território e culturas, conta com diversas formas de falar, que também são parte da língua portuguesa. “Infelizmente, muitos professores ainda utilizam a única forma da língua portuguesa que é a gramática normativa. E nós precisamos mostrar que existem outras formas de falar. Outras formas de utilizar a língua portuguesa, e são essas formas que quebram o preconceito linguístico, e nós mostrarmos que a forma com que o nosso aluno traz para a sala de aula é também língua portuguesa, e que não está errada, que precisa também ser refletida”, diz o professor Márcio Pina.
Perspectivas
Maria Luiza Assunção, 21 anos, estudante do curso de Letras do IFPA, diz que a alfabetização não é restrita à pedagogia. A psicolinguística é uma disciplina do curso que aborda o processo de alfabetização e guia as formas de atuação dos docentes na área. A ideia é entrar no cotidiano de estudantes que ainda não compreendem a leitura, e não conseguem escrever, por exemplo, e trabalhar formas construir as habilidades.

Apaixonada por literatura, Maria Luiza destaca que a área é essencial para o processo de alfabetização. No curso, os alunos estudam os princípios e as escolas literárias, que possibilitam a atuação em sala de aula. “Tudo é literatura. É uma arte da linguagem, através de músicas, nós podemos encontrar a literatura. Temos várias músicas paraenses que a gente encontra literatura nelas e que podem ser trazidas também para sala de aula com os alunos, para que a gente possa trabalhar”, diz.
O interesse por línguas e aprendizado de outros idiomas motivou a aluna Marina Almeida, de 21 anos, a ingressar na área para se tornar docente de português para estrangeiros. “Gosto da forma como as coisas se encaixam, de como ela funciona, como elas são montadas, as palavras, as frases. Eu acho muito interessante, mistura assim coisas da história”, destaca Marina.

No ensino da língua nativa, a estudante pretende passar aos alunos a forma como o português brasileiro funciona de forma diferente de outras línguas. “A gente pega palavras de outras línguas e “abrasileira” elas. Sempre encontramos uma forma de conectar com o outro no português, é uma língua talvez pessoal, que a gente utiliza para se conectar com muita facilidade”, finaliza.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades