Aos 22 anos, Raissa Souza da Rocha acaba de concluir uma etapa importante da vida acadêmica. Em maio deste ano, ela se formou em Dança pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Mas, para chegar até a universidade e concluir o curso, a jovem conta que teve ao lado uma pessoa que nunca deixou de acreditar em seus estudos: a mãe, Vanessa de Souza, de 45 anos, que trabalha como feirante há 15 anos na feira da Terra Firme, em Belém.
A história entre mãe e filha ganhou repercussão nas redes sociais depois que Raissa publicou um vídeo feito na barraca onde Vanessa trabalha. Vestida com a beca da formatura, ela voltou ao local para mostrar à mãe o resultado de anos de dedicação. O momento emocionou mãe e se transformou em uma homenagem à mulher que, segundo Raissa, sempre fez o possível para que ela e a irmã pudessem estudar.

A relação da jovem com a feira começou ainda durante a infância. Foi naquele ambiente que ela acompanhou de perto a rotina de trabalho da mãe e percebeu os esforços feitos para manter as duas filhas nos estudos. “Todo o esforço que a minha mãe vem cultivando na feira a vida inteira dela, resultou na minha formatura. E eu me formo com muita luta, por conta dessa base de apoio que eu recebi em casa. Desde a feira do Ver-o-Peso que ela trabalhou lá, até ela vir para cá, para a feira da Terra Firme, foi sempre para o nosso estudo. Era uma coisa que ela não teve na vida dela, e queria que a gente tivesse pro nosso futuro”, conta Raissa.
Vanessa começou a trabalhar como feirante ainda criança. Ao longo dos anos, precisou enfrentar dificuldades financeiras e mudanças na rotina de trabalho. Mesmo com as incertezas sobre as vendas do dia, ela conta que sempre colocou os estudos das filhas como uma prioridade. “A gente vem para cá pra feira vender e não sabe se vai vender ou não, se vai ganhar alguma coisa. E inclusive ela queria parar de estudar para trabalhar e eu disse que não. E com toda a dificuldade, eu ia fazer o possível para que ela focasse só no estudo, que era o sonho dela”, lembra Vanessa.
Em determinado momento, a situação financeira ficou ainda mais difícil e a mãe precisou mudar de feira e se adaptar a uma nova rotina de trabalho. Para ela, o esforço fazia parte de um objetivo maior. “Quando eu saí do ver-o-peso, a dificuldade apertou muito. Mas mesmo com muita dificuldade eu tive que me adaptar em outra feira, outro estilo de trabalho, mas eu disse para ela: vamos com calma, mas a gente vai chegar lá”, afirma.
Raissa Souza, formada em Dança pela UFPA, e a mãe Vanessa Souza, Feirante da feira da Terra Firme. (Thiago Gomes | O Liberal)
Para Raissa, o apoio da mãe fez diferença não apenas financeiramente, mas também na decisão de seguir uma carreira ligada à arte. Quando foi aprovada em diferentes cursos, ela chegou a pensar em escolher Matemática. Foi Vanessa quem incentivou a filha a seguir aquilo de que realmente gostava. “Quando eu fui aprovada, eu fui aprovada em Matemática na UEPA e Dança na UFPA. E eu queria fazer Matemática, só que aí a minha mãe disse: ‘Segue o que você quer fazer, o que você gosta de fazer’, até porque a gente já vinha investindo há muito tempo nos meus estudos”, relata.
Durante a graduação em Dança, Raissa percebeu que queria ampliar o acesso à arte. A jovem se aproximou da dança inclusiva e passou a pesquisar formas de ensinar balé para pessoas surdas. “Eu escolhi Letras Libras porque no meio do curso da Dança eu me encontrei na dança inclusiva. Então, eu como bailarina, eu não quero me formar só para mim. Eu gosto de expandir todo o meu conhecimento”, explica.
Além da graduação em Dança, Raissa iniciou uma segunda formação, em Letras Libras, também com o objetivo de aprofundar os estudos voltados à inclusão. A intenção é continuar desenvolvendo a pesquisa iniciada durante a graduação e ampliar as possibilidades de ensino da dança para pessoas surdas. “Eu uso a minha profissão, minha pesquisa de TCC, para disseminar o balé para as pessoas surdas. Por isso, eu comecei a estudar Letras Libras para continuar a minha pesquisa com o ensino da pessoa surda, de várias metodologias, expandir a metodologia que eu criei, do balé para a inclusão dessas pessoas”, conta.
A mãe de Raissa lembra com carinho o dia que viu a filha vestida para a formatura. O registro que inicialmente era apenas uma lembrança familiar, acabou sendo publicado nas redes sociais e ganhou repercussão. Para Raissa, mostrar aquele momento também foi uma forma de falar sobre a importância do apoio familiar para estudantes que enfrentam dificuldades para permanecer na universidade. “Eu fiz esse vídeo com o intuito de mostrar para as pessoas o que é que uma base forte pode fazer na nossa vida de estudante, que as pessoas muitas das vezes querem parar o futuro dela por não ter apoio familiar”, afirma.
Raissa Souza, formada em Dança pela UFPA, e a mãe Vanessa Souza, Feirante da feira da Terra Firme. (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)
A jovem também destaca que, durante a graduação, percebeu que nem todos os colegas tinham o mesmo apoio familiar que ela recebeu. Por isso, considera a trajetória da mãe parte importante da própria formação. “Dentro da minha turma da licenciatura, muita gente não tinha apoio da família e eu me sentia privilegiada de certa forma, porque era um caso à parte. Poucas pessoas tinham apoio da família para continuar na arte. E eu sou muito grata a ela”, diz.
Para Vanessa, ver a filha chegar à universidade e concluir a graduação representa a realização de um sonho construído ao longo de anos. A emoção esteve presente tanto na formatura quanto no momento em que Raissa voltou à barraca da mãe na feira para fazer a homenagem. “Eu me sinto muito grata e com a missão de dever cumprido. E não é fácil tudo que passamos para a realização desse sonho”, afirma a mãe.
