SAB · 31 OUT 2026Assine

ASSOMBRAÇÕES

Cortejo Visagento leva defesa do rio Tucunduba às ruas do Guamá

Manifestação cultural saiu do Cemitério Santa Izabel e percorreu vias do bairro com mensagens de conscientização ambiental e social

Gabriel da Mota

31 de outubro de 2026 às 20:19

Oitava edição do Cortejo Visagento reuniu personagens do imaginário amazônico no bairro do Guamá, em Belém, neste sábado (31)

Oitava edição do Cortejo Visagento reuniu personagens do imaginário amazônico no bairro do Guamá, em Belém, neste sábado (31) ( Foto: Igor Mota / O Liberal )

Visagens, assombrações e personagens do imaginário amazônico tomaram as ruas do bairro do Guamá, em Belém, na noite deste sábado (31), durante o VIII Cortejo Visagento. Com fantasias criativas e mensagens de conscientização ambiental e social, a manifestação cultural transformou o folclore em instrumento de defesa do rio Tucunduba, cuja história está diretamente ligada à formação do bairro. A concentração começou às 18h, em frente ao Cemitério Santa Izabel. Com expectativa de reunir 2 mil pessoas, o cortejo percorreu a avenida José Bonifácio, a passagem Santa Fé, a passagem Joana D’Arc e a travessa Liberato de Castro, até chegar à praça Benedito Monteiro.

Com o tema Quem tem medo do Rio Tucunduba?, a edição deste ano propôs uma inversão de perspectiva: em vez de apresentar o rio como uma ameaça à cidade, chamou a atenção para os impactos da ocupação urbana sobre suas águas. A proposta também buscou resgatar a memória de um curso d'água que já serviu ao transporte de pessoas e mercadorias, mas passou a ser associado principalmente a alagamentos e à poluição.

Cortejo Visagento 2026
Igor Mota / O Liberal
Igor Mota / O Liberal

Para o professor Raimundo Oliveira, presidente do Espaço Cultural Nossa Biblioteca e um dos fundadores do cortejo, a manifestação também funciona como um alerta sobre as desigualdades sociais diante dos problemas ambientais. Ele destacou que a falta de arborização nas áreas residenciais contrasta com a presença de árvores em espaços como o próprio cemitério e a universidade.

"As pessoas mais pobres estão hoje sujeitas aos efeitos da crise climática. Nós sentimos primeiro todas essas coisas", afirma Raimundo.

O educador defende que a recuperação do Tucunduba precisa considerar sua importância ambiental, histórica e social. Segundo ele, o rio faz parte das origens do Guamá, mas perdeu espaço na relação cotidiana dos moradores com o território.

"O cortejo traz o rio para dizer que nós estamos envenenando a água de que necessitamos. Estamos destruindo uma coisa que traz muitos benefícios para nós, moradores, no sentido do lazer, da alimentação e de uma vida mais equilibrada para todos", explica Raimundo.

A escolha do Cemitério Santa Izabel como ponto de partida também integra a proposta cultural. Para o professor, o espaço reúne elementos da história e do imaginário popular que podem ser redescobertos pela comunidade, deixando de ser associado exclusivamente à morte e ao medo.

Boitatá transforma fantasia em alerta contra a destruição ambiental

Entre as personagens que participaram do cortejo estava a turismóloga e artesã Patrícia Eleres, de 54 anos. Em sua quarta participação no evento, ela escolheu representar uma vítima do Boitatá, a lendária cobra de fogo que protege as florestas.

Vestida com estampas de chamas e enrolada por uma grande serpente cenográfica, Patrícia carregava uma placa de papelão com a mensagem Boitatá me puniu por destruir a natureza. A caracterização também foi preparada para o concurso de fantasias do evento.

"Estou sendo punida porque destruí a natureza. Agora ela está me punindo, me enrolou em corda de fogo e estou aqui pagando por isso", brinca Patrícia.

A artesã, que já havia participado de outra edição caracterizada como Matinta Pereira, encontrou na nova fantasia uma maneira de relacionar a tradição popular aos problemas ambientais enfrentados pela cidade.

"É um chamamento para as pessoas olharem com mais carinho para a natureza. Até para a cobra, de que as pessoas têm medo. Ela é a guardiã da nossa floresta. A gente tem que dar esse puxãozinho de orelha", explica Patrícia.

Matinta Pereira vestida de branco surpreende com mensagem de paz

Outra caracterização que chamou a atenção foi a da atriz e arte-educadora Maria Borges, de 67 anos. Conhecida por interpretar a Matinta Pereira há três décadas, ela apareceu inteiramente vestida de branco, inspirada na suindara, coruja associada a uma das versões da lenda amazônica.

"Hoje estou de branco porque o branco também representa a paz. A Matinta Pereira tem várias versões, entre elas a Rasga-Mortalha, aquela coruja que aparece toda de branco e dá aquele grito. Mas, para mim, ela representa a paz, e não a morte", explica Maria.

A atriz conta que procura apresentar diferentes caracterizações da personagem a cada participação. Em outras edições, já apareceu com figurinos coloridos e inteiramente pretos. Além das apresentações, desenvolve trabalhos de contação de histórias e criou uma versão própria da figura folclórica, chamada Matinta Encantada, para aproximar a lenda do público infantil.

"Eu criei uma personagem, a Matinta Encantada, para tirar aquela imagem macabra que a Matinta Pereira passava para as crianças", conta a atriz.

Moradora do Guamá, Maria também considera o cortejo uma oportunidade de combater os estigmas associados ao bairro e valorizar as manifestações culturais produzidas pela própria comunidade.

"O cortejo foi criado para dar visibilidade à nossa cultura do bairro, às nossas histórias que já estavam se perdendo, e dizer que o bairro do Guamá não é só violência, não é só morte. Aqui tem cultura, aqui tem história, aqui tem trabalho", destaca Maria.

Aos 67 anos, Maria Borges apresentou uma versão da Matinta Pereira inspirada na coruja suindara, com figurino branco associado à paz
Aos 67 anos, Maria Borges apresentou uma versão da Matinta Pereira inspirada na coruja suindara, com figurino branco associado à paz (Igor Mota / O Liberal)

A valorização dessas histórias também está presente no trabalho do Espaço Cultural Nossa Biblioteca, localizado no Guamá, que promoveu oficinas de máscaras e figurinos ao longo da semana para a edição deste ano. As atividades estimularam a criação de personagens e o reaproveitamento de materiais, aproximando os participantes da construção coletiva do evento.