Visagens, assombrações e personagens do imaginário amazônico tomaram as ruas do bairro do Guamá, em Belém, na noite deste sábado (31), durante o VIII Cortejo Visagento. Com fantasias criativas e mensagens de conscientização ambiental e social, a manifestação cultural transformou o folclore em instrumento de defesa do rio Tucunduba, cuja história está diretamente ligada à formação do bairro. A concentração começou às 18h, em frente ao Cemitério Santa Izabel. Com expectativa de reunir 2 mil pessoas, o cortejo percorreu a avenida José Bonifácio, a passagem Santa Fé, a passagem Joana D’Arc e a travessa Liberato de Castro, até chegar à praça Benedito Monteiro.
Com o tema Quem tem medo do Rio Tucunduba?, a edição deste ano propôs uma inversão de perspectiva: em vez de apresentar o rio como uma ameaça à cidade, chamou a atenção para os impactos da ocupação urbana sobre suas águas. A proposta também buscou resgatar a memória de um curso d'água que já serviu ao transporte de pessoas e mercadorias, mas passou a ser associado principalmente a alagamentos e à poluição.
.jpeg?$p=a4e01cb)
Para o professor Raimundo Oliveira, presidente do Espaço Cultural Nossa Biblioteca e um dos fundadores do cortejo, a manifestação também funciona como um alerta sobre as desigualdades sociais diante dos problemas ambientais. Ele destacou que a falta de arborização nas áreas residenciais contrasta com a presença de árvores em espaços como o próprio cemitério e a universidade.
"As pessoas mais pobres estão hoje sujeitas aos efeitos da crise climática. Nós sentimos primeiro todas essas coisas", afirma Raimundo.
O educador defende que a recuperação do Tucunduba precisa considerar sua importância ambiental, histórica e social. Segundo ele, o rio faz parte das origens do Guamá, mas perdeu espaço na relação cotidiana dos moradores com o território.
"O cortejo traz o rio para dizer que nós estamos envenenando a água de que necessitamos. Estamos destruindo uma coisa que traz muitos benefícios para nós, moradores, no sentido do lazer, da alimentação e de uma vida mais equilibrada para todos", explica Raimundo.
A escolha do Cemitério Santa Izabel como ponto de partida também integra a proposta cultural. Para o professor, o espaço reúne elementos da história e do imaginário popular que podem ser redescobertos pela comunidade, deixando de ser associado exclusivamente à morte e ao medo.
Boitatá transforma fantasia em alerta contra a destruição ambiental
Entre as personagens que participaram do cortejo estava a turismóloga e artesã Patrícia Eleres, de 54 anos. Em sua quarta participação no evento, ela escolheu representar uma vítima do Boitatá, a lendária cobra de fogo que protege as florestas.
Vestida com estampas de chamas e enrolada por uma grande serpente cenográfica, Patrícia carregava uma placa de papelão com a mensagem Boitatá me puniu por destruir a natureza. A caracterização também foi preparada para o concurso de fantasias do evento.
"Estou sendo punida porque destruí a natureza. Agora ela está me punindo, me enrolou em corda de fogo e estou aqui pagando por isso", brinca Patrícia.
A artesã, que já havia participado de outra edição caracterizada como Matinta Pereira, encontrou na nova fantasia uma maneira de relacionar a tradição popular aos problemas ambientais enfrentados pela cidade.
"É um chamamento para as pessoas olharem com mais carinho para a natureza. Até para a cobra, de que as pessoas têm medo. Ela é a guardiã da nossa floresta. A gente tem que dar esse puxãozinho de orelha", explica Patrícia.
Matinta Pereira vestida de branco surpreende com mensagem de paz
Outra caracterização que chamou a atenção foi a da atriz e arte-educadora Maria Borges, de 67 anos. Conhecida por interpretar a Matinta Pereira há três décadas, ela apareceu inteiramente vestida de branco, inspirada na suindara, coruja associada a uma das versões da lenda amazônica.
"Hoje estou de branco porque o branco também representa a paz. A Matinta Pereira tem várias versões, entre elas a Rasga-Mortalha, aquela coruja que aparece toda de branco e dá aquele grito. Mas, para mim, ela representa a paz, e não a morte", explica Maria.
A atriz conta que procura apresentar diferentes caracterizações da personagem a cada participação. Em outras edições, já apareceu com figurinos coloridos e inteiramente pretos. Além das apresentações, desenvolve trabalhos de contação de histórias e criou uma versão própria da figura folclórica, chamada Matinta Encantada, para aproximar a lenda do público infantil.
"Eu criei uma personagem, a Matinta Encantada, para tirar aquela imagem macabra que a Matinta Pereira passava para as crianças", conta a atriz.
Moradora do Guamá, Maria também considera o cortejo uma oportunidade de combater os estigmas associados ao bairro e valorizar as manifestações culturais produzidas pela própria comunidade.
"O cortejo foi criado para dar visibilidade à nossa cultura do bairro, às nossas histórias que já estavam se perdendo, e dizer que o bairro do Guamá não é só violência, não é só morte. Aqui tem cultura, aqui tem história, aqui tem trabalho", destaca Maria.

A valorização dessas histórias também está presente no trabalho do Espaço Cultural Nossa Biblioteca, localizado no Guamá, que promoveu oficinas de máscaras e figurinos ao longo da semana para a edição deste ano. As atividades estimularam a criação de personagens e o reaproveitamento de materiais, aproximando os participantes da construção coletiva do evento.
