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SUSTENTABILIDADE

Compostagem é solução para descarte inadequado de resíduos do caranguejo em Bragança (PA)

Projeto propõe transformar resíduos em adubo orgânico de alta qualidade - e converter problema ambiental em fonte de renda para comunidades

Filipe Sanches | Especial para O Liberal

20 de dezembro de 2025 às 11:00

Alternativa também vira fonte de renda

Alternativa também vira fonte de renda ( Foto: Foto: Pedro Tobias | IFPA )

Resíduos do beneficiamento do caranguejo podem virar fonte de renda para comunidades extrativistas de Bragança, no nordeste do Pará. Um projeto experimental desenvolvido no IFPA, resultado de uma parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o Instituto Mamirauá, mostra que a casca do caranguejo, descartada após o beneficiamento da massa, pode ser base para a produção de adubo orgânico de alta qualidade.

A utilização da casca de caranguejo como insumo para a compostagem não é exatamente uma novidade. A inovação no projeto de Bragança é justamente o processo de produção, que permite escalar, dentro das comunidades, a conversão dos resíduos em composto orgânico destinado à venda direta, como insumo agrícola, ou para a utilização pelas famílias envolvidas na produção de hortaliças e frutas.

O projeto instalou, no IFPA campus Bragança, uma unidade experimental de beneficiamento de resíduos de caranguejo e da ostreicultura. Uma miniusina de compostagem capaz de processar mais de uma tonelada de resíduos por mês.

Construída com recursos de um projeto encabeçado pelo Instituto Mamirauá, a estrutura é um modelo a ser replicado nas comunidades onde o caranguejo é base da economia local: inicialmente serão contempladas as comunidades do Caratateua e Vila do Treme, em Bragança, e do distrito de Fernandes Belo, em Viseu.

A unidade experimental conta com três baias para compostagem integradas a um sistema de coleta de chorume, e uma baia de secagem de resíduos de caranguejo. O projeto também conta com uma área de produção e teste do adubo em hortaliças, integrada a uma estufa.

Mulheres que trabalham no beneficiamento do caranguejo na comunidade do Caratateua visitaram a unidade experimental do IFPA no dia 17 de novembro e puderam conhecer de perto as etapas de processamento da casca do caranguejo, da secagem, em uma baia isolada, até a trituração e mistura nas baias de compostagem. O resultado é uma terra preta rica em nutrientes, um composto 100% orgânico e agroecológico.

Resíduos do caranguejo gera impacto social e ambiental

O resíduo do beneficiamento do caranguejo gera uma série de problemas para as comunidades - o descarte inadequado próximo às casas incomoda pelo mau-cheiro, atrai insetos e contamina o solo. Sem destinação adequada, a "ossada do caranguejo" - termo usado pelos catadores de Bragança - vira um problema, aponta o professor do IFPA Keber Junior, pesquisador responsável pelo projeto no Instituto Mamirauá. "O descarte inadequado gera impactos ambientais e sociais nessas comunidades. O projeto aponta um caminho, uma solução viável", sinaliza Keber.

O descarte da carapaça do caranguejo no próprio manguezal também é um problema - e pode afetar a manutenção do ecossistema. Dentro do manguezal, durante a captura, alguns catadores optam por descartar a cabeça do caranguejo para transportar apenas as patas para o beneficiamento - diminuindo o volume a ser carregado de volta.

O lixo que fica no mangue se acumula e afeta a manutenção da vida do próprio manguezal, ao inibir a reprodução das espécies que utilizam o ecossistema como berçário, explicou a professora Marileide Alves, do curso de Pesca da Universidade Federal do Pará (UFPA), campus universitário de Bragança, durante a visita guiada dos moradores do Caratateua à unidade de processamento experimental, instalada no Quintal Agroecológico do IFPA, aberta à visitação de produtores da região.

O que ia para o lixo vira alternativa de renda

O processo de beneficiamento dos resíduos do caranguejo para a produção de adubo orgânico leva em média 120 dias. É o tempo necessário para converter o material que antes ia para o lixo em matéria orgânica rica em nutrientes e pronta para ser utilizada na produção agrícola.

O sistema de compostagem apresentado às comunidades envolve etapas de secagem e de mistura do resíduo com matéria orgânica - folhagens, papelão e esterco de animais das próprias comunidades-, além de um acompanhamento de temperatura e umidade para que o processo seja eficiente.

Para acelerar a decomposição da matéria orgânica, é utilizado um inoculante, um líquido produzido com fungos e microorganismos, cujas etapas de produção agroecológica são ensinadas na própria comunidade.

O resultado, aponta o professor Gerson Barros, do curso de Gestão Ambiental do IFPA campus Bragança, é um composto 100% orgânico, livre de aditivos químicos e rico em nutrientes. “O composto que pode ser produzido nessas unidades tem alta qualidade e é livre de aditivos químicos”, destaca o professor Gerson, que é engenheiro agrônomo e doutor em Ciência do Solo. O interesse sobre esse tipo de composto é maior justamente por ser agroecológico.

A professora Silvana Gomes, coordenadora do projeto pelo IFPA, desenvolve técnicas de compostagem há pelo menos 5 anos no Campus Bragança utilizando diferentes substratos. A farinha feita com a casca do caranguejo teve excelentes resultados com diversas culturas, entre elas as hortaliças. Além de ser usada na compostagem, a farinha do caranguejo pode ser usada como corretivo de acidez do solo. Em Bragança, estão em andamento pesquisas sobre o uso do composto a base de caranguejo de culturas que vão do alface e cheiro verde até o cultivo de morangos e uvas. Os projetos são conduzidos por estudantes dos cursos do IFPA.

"Em vez de comprar na loja, o produtor pode produzir em casa, na própria comunidade, o adubo que vai utilizar na sua horta", diz a professora. O custo, aponta a pesquisadora, é mínimo - e o retorno é máximo. "Eles podem tanto produzir para vender esse composto orgânico como utilizar na sua própria produção, ganhando com a venda do que plantam".