Ruas alagadas após chuvas intensas, bairros cada vez mais quentes e áreas urbanas sem vegetação revelam os desafios das cidades brasileiras diante das mudanças climáticas. Nesse cenário, o conceito de cidades-esponja propõe uma transformação na forma de planejar os espaços urbanos: em vez de afastar a água da chuva rapidamente, as cidades devem criar condições para absorvê-la, armazená-la e liberá-la gradualmente.
A proposta exige mudanças na relação entre urbanização e natureza, além de investimentos em infraestrutura e planejamento de longo prazo. Para docente de Arquitetura e Urbanismo, Nathalia Canedo, é necessário superar a ideia de que os elementos naturais representam obstáculos ao desenvolvimento urbano.
“O conceito de cidade-esponja propõe justamente o contrário: em vez de simplesmente expulsar a água, precisamos criar cidades capazes de absorvê-la, armazená-la, infiltrá-la e liberá-la gradualmente”, explica a especialista.
Entre as soluções possíveis estão jardins de chuva, parques inundáveis, pavimentos permeáveis, recuperação de áreas úmidas, arborização urbana e preservação das margens dos cursos d’água. Segundo ela, essas medidas precisam estar integradas ao planejamento das cidades para produzir resultados efetivos no enfrentamento dos alagamentos e do calor excessivo.
Além dos desafios ambientais, a organização das cidades também influencia quem sofre mais com os eventos climáticos extremos. Populações que vivem em moradias precárias, com drenagem insuficiente e pouca infraestrutura urbana, tendem a enfrentar consequências mais graves durante chuvas intensas e ondas de calor.
“Uma chuva intensa pode ser um transtorno para um bairro com boa infraestrutura, enquanto pode ser catastrófica para um bairro com deficiências de infraestrutura, moradias precárias e drenagem insuficiente”, alerta Nathalia.
Para reduzir essas desigualdades, a especialista aponta três prioridades: conhecer as características e os riscos de cada território, investir na prevenção e mitigação dos impactos climáticos e garantir que as políticas públicas considerem as populações mais vulneráveis. Obras de drenagem, saneamento, arborização e habitação adequada devem receber atenção especial nas áreas mais expostas aos riscos.
As mudanças também precisam chegar aos projetos de construção civil. De acordo com Nathalia, a sustentabilidade e o desempenho ambiental devem deixar de ser diferenciais de mercado e passar a integrar os requisitos básicos das edificações, independentemente do padrão construtivo.
“Estratégias de conforto ambiental, como considerar a orientação solar adequada, ventilação cruzada, proteção de fachadas e sombreamento, são fundamentais em uma realidade de crescentes ondas de calor”, destaca a docente.
A profissional também defende o avanço de soluções para a gestão das águas pluviais, o reaproveitamento da água e a infiltração no solo. Essas medidas, associadas ao planejamento urbano, podem contribuir para edificações mais eficientes e preparadas para os desafios climáticos.
“Não há como olhar apenas o edifício isolado; é preciso entender sua relação com a cidade”, ressalta. Para ela, o conhecimento técnico disponível deve ser aplicado na construção de espaços mais confortáveis, eficientes, resilientes e acessíveis.
