Viver no clima amazônico exige adoção de estratégias para enfrentamento do calor e combate à umidade. Para isso, muitos moradores da região optam por casas e apartamentos arejados, com boa circulação de ar e incidência de luz solar. Segundo especialistas, além de proporcionar conforto térmico, as escolhas para estrutura, decoração e móveis também interferem na saúde, visto que o tempo úmido é favorável para a proliferação de mofo.
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A arquiteta Isabella Lago Assôfra explica que os principais características que devem ser consideradas em imóveis de Belém são a orientação em relação ao sol e aos ventos, o tamanho e a exposição das aberturas, o pé direito e o tipo de cobertura utilizado. “O telhado é especialmente importante, porque ele acaba recebendo essa intensa radiação solar. É ideal que a gente tenha cobertura de cores claras, um isolamento térmico adequado e ventilação no espaço entre o telhado e o forro, justamente com o intuito de ajudar a reduzir essa transferência de calor para o ambiente”, fala.
Isabella explica que o mofo pode estar associado a diferentes causas e, dependendo do local, a chuva pode piorar — como espaços perto de telhados, fachadas ou esquadrias “Quando a umidade está concentrada próxima a banheiros, cozinhas ou áreas que têm tubulações, fica sugerido o que pode ser. O ideal é investigar a relação entre possíveis vazamentos hidraúlicos”, alerta.
Bem-estar como prioridade
Há seis anos, o empreendedor Wallace Cardoso e a esposa, a nutricionista Thais Cardoso, escolheram a casa em que vivem hoje. Durante o processo longo de pesquisa, a disponibilidade das janelas e a circulação de ar foram fatores cruciais. De acordo com Wallace, essas características tornam o lugar mais agradável.

O casal tem duas filhas, Maria Clara, de 8 anos, e Marina, de 5 anos, e um cachorro, Luke, de 1 ano. Com o crescimento da família ao longo do tempo, a localização e estrutura da residência, que permitem a entrada de luz solar ao longo do dia, tornou-se ainda mais essencial. “Como Belém é uma cidade muito úmida, utilizar a iluminação natural que o dia e a tarde nos permite, é bom, principalmente para a gente, que tem histórico de alergia na família”, comenta Wallace.
“Existe uma rotina de manutenção, onde a gente tenta eliminar o máximo possível de poeira, pelos e pó, para estar sempre evitando para que essas doenças respiratórias se alastrem pela família”, ressalta. Sobre a abertura de janelas, o empreendedor diz que é feita sempre que possível, principalmente quando não há chuva.

Antes da mudança, Wallace, Thais e Maria Clara moravam em um apartamento. Atualmente, junto a Mariana e Luke, ele acredita que a qualidade de vida da família aumentou. “O apartamento tem limitação. Se ele não for bem posicionado, a entrada de ar e a a ilumincação dificulta. Numa casa, há sensação de liberdade, não é somente questão de estética, é bem-estar”, afirma.
Planejamento adequado
Belém é uma cidade com ventilação natural insuficiente para garantir conforto térmico, segundo o arquiteto e urbanista Raul Ventura, que também atua como professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (PPGAU-UFPA). Raul explica que, para garantir o bem-estar, é necessário investimentos em ventilação passiva — ou seja, refrigeração de ambiente.
“Isso não diminiu o fato de que você pode melhorar as estratégias de ventilação e o arejamento do ambiente”, destaca. Entre aplicações que podem ser feitas na casa, o arquiteto sugere a ventilação cruzada, com abertura de janelas, portas e clarabóias. Ademais, enquanto o projeto da residência está em andamento, é necessário que o profissional considere a direção dos ventos e a entrada de luz solar.
Àqueles que desejam aproveitar iluminação natural sem aumento excessivo do calor, Raul sugere: “Uma estratégia que funciona é você estabelecer, criar bloqueios horizontais e verticais na janela. Podem ser brises, estruturas de telha mesmo, alguma laje que permita que evite que a luz direta incida sobre o vidro. O problema da geração de calor é que a luz direta incidindo sobre o vidro vai fazer com que o ambiente esquente por irradiação, que nem como acontece no carro.”
Cuidados com a saúde
Junto ao conforto térmico, um lar arejado proporciona aos moradores saúde respiratória. A médica alergista Nathalia Barroso explica que a poeira doméstica é formada por restos de pele, fibras, partículas do ambiente e alérgenos vindos de ácaros, animais, baratas e fungos. Enquanto ácaros costumam habitar nos quartos, em colchões, travesseiros e roupas de cama, os fungos se proliferam mais em banheiros, cozinhas, paredes infiltradas e atrás de móveis encostados em paredes.
“Em pessoas sensibilizadas, a exposição pode desencadear ou piorar sintomas de rinite, conjuntivite, asma e dermatite atópica, como espirros, coceira no nariz e nos olhos, coriza, obstrução nasal, tosse, chiado, falta de ar, além de coceira no corpo e lesões de pele. Para uma pessoa com alergia respiratória, portanto, o dormitório merece atenção especial, porque permanecemos nele durante várias horas todos os dias”, detalha.
A limpeza da casa deve ser feita de modo que evite a dispersão de poeira. Logo, o uso de vassouras a teco e espanadores não é indicado, de acordo com a médica. Nathalia sugere que sejam utilizados pano úmido e aspiradores com boa capacidade de filtração. “A limpeza deve ser regular, principalmente no quarto. Cheiros fortes não são necessariamente alérgenos, mas podem atuar como irritantes das vias respiratória”, diz.
Em relação ao mofo, a especialista ressalta que a limpeza sem correção da fonte de umidade não resolve o problema: “Vazamentos e infiltrações precisam ser reparados e os locais úmidos devem ser adequadamente secos e ventilados.”
Nathalia afirma que a busca por atendimento médico deve ser feita quando há crises de espirros frequentes, coceira nasal ou ocular, obstrução nasal, coriza, tosse persistente ou chiado. Se os sintomas ocorrem, principalmente, durante o sono, atividades escolares ou profissionais e prática de exercícios, uma avaliação profissional ajuda na melhora.
Melhorias que geram conforto
Em casos de residências já construídas, se os moradores sofrem com alta umidade e surgimento de mofo, a arquiteta Isabella Lago Assôfra recomenda o uso de ventiladores e criação de aberturas, se for tecnicamente viável. “O uso de elementos de sombreamento também auxilia”, aponta.
O arquiteto e urbanista Raul Ventura comenta que, para situações relacionadas à ventilação e luz solar, as adaptações surgem para remediar o problema. “Caso precise adaptar, as soluções passam pela estratégia de ventilação cruzada. No sentido de ventilação, de melhorar a circulação interna do ambiente, é uma obra relativamente simples”, diz.
Raul destaca que a melhor alternativa para garantir que um lar arejado e com conforto térmico é a contratação de um arquiteto que entenda do assunto. O especialista alerta que não existem soluções de baixo custo para tornar um ambiente mais fresco que não sejam relacionadas à ventilação, por isso a presença de um profissional é importante.
“Se for o caso de construir uma casa, fazer com que essa casa seja construída sobre essa preocupação: a orientação dos ventos dominantes, a observação de como é que o sol incide no terreno e a utilização de materiais com uma boa inércia términa”, fala. Entre propostas positivas, Raul enfatiza a adoção de janelas grandes, telhado de barro e pés-direitos mais altos.
Em relação à saúde, a médica alergista Nathalia Barroso propõe o uso de revestimentos antiácaros em colchões e travesseiros, lavagem semanal de lençóis e cortinas de fácil higienização. Ela também aconselha reduzir a quantidade de tapetes, carpetes e outros objetos de tecido, como bichos de pelúcia.
“Vale lembrar que nenhuma medida isolada costuma resolver o problema. O maior benefício ocorre quando várias estratégias de controle ambiental são combinadas de acordo com os alérgenos aos quais aquela pessoa realmente é sensibilizada”, conclui.