Recentemente, circularam na mídia informações sobre uma suposta brincadeira que tirou o sono de muitos pais, mães e educadores. A “rasteirinha” ou “quebra-crânio” foi mais um desafio surgido na internet e que rapidamente alcançou crianças e adolescentes de todo o País. Ao lado de outras do mesmo tipo, como a “Baleia Azul” e a “Boneca Momo”, a “rasteirinha” acendeu o alerta, mais uma vez, para os perigos desse tipo de “diversão”, que tem grande apelo para o público mais jovem.
A psicóloga Camila Cruz, que trabalha com transtornos no desenvolvimento de crianças e adolescentes, explica que, biologicamente, o cérebro de um adolescente está em processo de formação, por isso é bem comum serem observadas, nessa fase, emoções mais exacerbadas e comportamentos impulsivos. “Isso se dá porque o processo de maturação cerebral acontece de forma gradual: inicia-se na infância, passa pela adolescência e finaliza já no início da vida adulta, quando finalmente é possível observar um autocontrole mais refinado, tanto comportamental quanto emocional”, detalha.
Segundo a especialista, aliado a isso, também há uma grande necessidade, nesse período da vida, de a pessoa se sentir pertencente a um grupo, de ter a aceitação do meio em que vive, o que pode levar a situações perigosas. “A adolescência é uma das fases mais importantes no desenvolvimento de uma pessoa. Adolescentes são corajosos, cheios de sonhos e determinados. Entretanto, esse também é um período muito desafiador, de incertezas, medos e descobertas, por isso, é muito necessário que eles sejam escutados, que tenham suas emoções validadas, pois só assim terão possibilidade de fazer escolhas mais saudáveis e de se tornarem adultos inteligentes emocionalmente”, observa.
A estudante do segundo ano do Ensino Médio, Luana Kaori Sakamoto, de 16 anos, concorda com Camila. Ela acredita que, muitas vezes, os adolescentes se colocam em situações perigosas apenas para serem aceitos por um grupo. “Eu penso que, às vezes, a pessoa nem quer fazer aquilo, talvez nem concorde, mas acaba fazendo para não ficar de fora”, opina ela, acrescentando que, felizmente, não conhece ninguém que tenha se envolvido com a brincadeira da “rasteirinha”.
Essa também é a visão do professor Jean Rendeiro, que trabalha em uma escola privada de Belém. Para ele, a “quebra-crânio” e outras brincadeiras semelhantes têm sua raiz na questão do bullying, já que, nesse caso, escolhe-se uma “vítima” para ser o alvo, que pode ser um amigo, um parente ou mesmo um professor. “Infelizmente, esse tipo de coisa não é um fenômeno isolado da escola. Acontece na vida social e a escola é a apenas um reflexo disso. É fundamental que as famílias compreendam os danos que isso pode causar a uma criança, a um adolescente e trabalhar essas questões em casa. É claro que a escola precisa fazer o seu papel, por meio de campanhas, de explicação, de incentivo a uma cultura de paz, mas achar que a escola sozinha vai resolver esse tipo de comportamento é um erro. É preciso que as famílias ensinem aos filhos sobre a tolerância, sobre a importância de se conviver com os diferentes”, aponta.
A representante comercial Natália Moraes, de 34 anos, é mãe da estudante Maria Elizabeth Moraes, de dez anos. Ela diz que, no caso da última brincadeira da moda, a escola teve um papel fundamental para ela. Tomou conhecimento do fenômeno no grupo da escola no WhatsApp, onde outras mães divulgaram os vídeos e reportagens sobre a questão. Conta que ficou “horrorizada” e que, na mesma hora, chamou a filha para conversar. “Ela me disse que já estavam fazendo essa brincadeira na escola, mas que ela não aceitou fazer, por saber que se tratava de algo de mau gosto. Felizmente, a escola em que a Maria estuda tem essa preocupação. Sempre que acontecem esses casos que repercutem na mídia, eles procuram mandar avisos na agenda, mas redes sociais ou até mesmo promovem reuniões. Às vezes, na correria do dia a dia, nós, pais, passamos despercebidos por algumas situações e eles nos a ajudam a nos situar”, analisa.
Para a psicóloga Camila, os pais e responsáveis devem sempre se colocar como suporte, como fez a Natália, orientando de forma acolhedora os filhos e colocando-se à disposição para escutar o que as crianças e os adolescentes têm a dizer, evitando julgamentos.
A estudante do terceiro ano do Ensino Médio, Esther Brelaz, de 16 anos, explica que tem acesso diariamente a esse tipo de conteúdo por meio, principalmente, do Twitter, que, segundo ela, é, hoje, a principal fonte de informação dos jovens. Ela diz que soube da brincadeira da rasteira por meio de um vídeo em que dois meninos derrubavam a mãe, que acabava se machucando no chão. “Quando eu vi, compartilhei e marquei os meus pais, até porque eu acho que se eu tivesse feito uma coisa dessas, minha mãe certamente teria me punido. Não é uma brincadeira saudável, principalmente para se fazer com os pais”, ressalta ela.
Segundo a jovem, o vídeo gerou uma conversa com os pais sobre a questão. Eles a alertaram sobre os perigos desse tipo de brincadeira e a importância de se respeitar o outro. “Muitas vezes, acho que os jovens fazem isso também para ter visualizações e fama nas redes, porque hoje tudo vai para a internet. É inaceitável esse tipo de brincadeira, embora, para muitas pessoas, acabe sendo natural. Brincadeira tem que algo que vá beneficiar a todos que estão ali, envolvidos. Se for para ferir alguém, deixa de ser brincadeira e se torna algo inaceitável”, assevera.
Brincadeiras sem graça
A “Baleia Azul” foi um jogo que se desenvolveu em vários países do mundo por volta de 2017, composto por pelo menos 50 desafios diários e autodestrutivos, que eram compartilhados por meio da internet. Assistir a determinados filmes e séries ou realizar cortes na própria pele faziam parte do rol de atividades. Os jogadores podiam chegar, inclusive, ao suicídio, como aconteceu em vários Estados do Brasil.
Entre 2018 e 2019, a bola da vez foi o desafio da “Boneca Momo”, que aparecia para crianças por meio de vídeos do YouTube, ensinando as crianças sobre temas como suicídio, homicídio e formas de mutilação.
De 2019 para cá, a brincadeira que está chamando a atenção é a do “quebra-crânio” ou “rasteirinha”, que funciona da seguinte forma: duas pessoas derrubam uma terceira, por meio de uma rasteira. A “vítima” cai de costas no chão, podendo lesionar algum osso ou mesmo a cabeça, daí o nome de “quebra-crânio”.
