Moradores das proximidades da João Paulo II, principalmente na altura do bairro do Curió, relatam dias difíceis desde que um alagamento da avenida se tornou permanente na via. "Esse alagamento é histórico, mas só acontecia quando chovia", afirma Daniel Prestes, que mora na passagem Elvira, uma das mais atingidas pelo problema. "Desde que começaram uma obra na João Paulo, nunca mais esse alagamento saiu. Pode ser chuva, sol, ele continua", reclama Daniel, acrescentando que "essa situação que a gente encontra agora, no alagamento permanente, é catastrófica, porque você não tem mais o direito de ir e vir".
"O carro não pode mais para na porta da tua casa. É preciso descer distante e ir procurando pontos de acesso para poder chegar em casa. O meu pai, por exemplo, faz tratamento de saúde, ele tem câncer, vem do interior, e tem que parar na João Paulo, vir por cima, para chegar em casa. Antes o carro parava na nossa porta. Agora não tem mais condições", reclama.
De fato, mesmo em dias ensolarados, o alagamento ao qual Daniel se refere é visto em uma extensão da avenida João Paulo II e se estende, principalmente, pela passagem Elvira. Nos dias de chuva, o problema se intensifica: a água chega a invadir residências e móveis, eletrodomésticos e diversos outros objetos são perdidos. "Isso prejudica muito não só a minha vida, como a de toda a população aqui. Tem idosos que não saem mais de casa porque não tem como sair sem se molhar", denuncia o morador, ao contar, ainda, que, na sua casa, "não tem mais nada na parte de baixo, por foi perdido tudo. Sofá, fogão, cama, guarda-roupa, tudo se foi".
Questionado sobre as respostas da prefeitura ao problema, Daniel diz que "se vou na Sesan, é uma desculpa, em outros órgãos, novas desculpas". "Dizem que a João Paulo II está em obras. Sim! Mas até quando? O que vão fazer? Está em obra, mas cadê a obra emergencial para facilitar a vida das pessoas? As pessoas têm dificuldade para andar, para chegar em casa! Já caiu uma senhora na calçada, já quebrou o braço, outras pessoas já escorregaram e caíram", completa, declarando que "é uma situação complicada, porque se vê o completo descaso dos órgãos públicos". "Eles vão focar em um só objetivo, na obra? Mas cadê o restante das coisas que precisam ser feitas? São coisas que são inaceitáveis! A população está sofrendo as consequências do abandono da cidade".
POSICIONAMENTO
Em nota, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), informou que o "alagamento é histórico e resultado da ocupação desordenada da área do canal do Márte, dentro da Bacia do Murucutu, como a construção de casas em cima do mesmo canal".
Sobre as medidas que a Prefeitura tem tomado para solucionar o problema, a secretaria informou que "obras naquela área do bairro Curió-Utinga, no trecho da avenida João Paulo II, continuam e a previsão é que a drenagem e a colocação de tubos e aduelas (estruturas de concreto para escoamento da água) continuem até o final deste mês". De acordo com o órgão, essas obras darão "condições para o início da terraplenagem e em seguida à pavimentação da rua Gaspar Dutra e, paralelamente, o avanço nas ações de engenharia nas demais passagens". "A Sesan lembra que é um trabalho complexo, detalhado e que necessita de segurança para ser realizado, mas que atua para agilizar os serviços", destaca a secretaria.
Ainda de acordo com o órgão, a previsão é que até o mês de outubro as obras sejam concluídas e o problema resolvido. "A Sesan tem adiantado os serviços e procurado agilizar as obras para finalizar os trabalhos naquela área, além de complementar com serviço de dragagem do canal de Márte. Contudo, a Secretaria enfatiza que é fundamental e necessário a limpeza total e estruturação do canal de Márte, de responsabilidade do Governo do Estado, a fim de se evitar o retorno de um novo cenário de alagamentos".
Segundo a Sesan, ainda esta semana, será iniciado um serviço emergencial de limpeza de bueiros por meio de hidrojateamento, que consiste na aplicação de um jato de água de alta pressão para desobstrução de tubulações e galerias de esgoto e pluviais.
"Com a limpeza e desobstrução do sistema de drenagem do bairro Curió-Utinga, o escoamento das águas deve melhorar e garantir a vazão nos pontos de alagamento. O hidrojateamento possibilitará a diminuição do atual acúmulo de água registrado em alguns pontos críticos, sobretudo nos terrenos mais baixos onde estão localizadas passagens como Elvira", pontuou a nota.
Mesmo questionada, a secretaria não informou os motivos que transformaram o alagamento em um problema permanente, mesmo em dias de sol.
