Inquietude artística de Nina Matos e Margalho Açu dialoga com o Arte Pará

Esses dois artistas nascidos em Abaetetuba têm uma carreira sólida nas artes paraenses, o que inclui participações nessa mostra do Grupo Liberal

Eduardo Rocha

Os artistas visuais paraenses Nina Matos e Margalho Açu nasceram no município de Abaetetuba e têm como outro ponto em comum a inquietude em criar obras de arte para expor trabalhos e compartilhar suas criações com o público. Nina e Margalho têm uma relação de afeto com o Arte Pará, mostra promovida pelo Grupo Liberal e que este ano chega à sua 42ª edição, a ser aberta em 5 de novembro. O evento faz parte das comemorações dos 80 anos do Jornal O Liberal. Esse espaço em Belém, como atestam Nina e Margalho, mostra-se como um portal para que artistas do Pará, sobretudo os mais jovens, possam mostrar suas criações e interagir com os espectadores e com outros autores. 

O Arte Pará é uma mostra coordenada pela Fundação Romulo Maiorana (FRM) e conta com a curadoria da artista visual Keyla Sobral. As inscrições para o evento estão em andamento. O projeto Arte Pará é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com patrocínio da Phebo e do Instituto Cultural Vale. Confira o edital aqui. 

Passos

Nina Matos iniciou sua relação com a arte ainda na infância, “por conta de toda criatividade e imaginação que eu já possuía, desenhando e construindo meus próprios brinquedos, e na adolescência, o interesse em pintura, fotografia, cinema, literatura”. Ela cursou Arte na UFPA e sua primeira exposição foi um reflexo de toda uma cultura pop que consumia.

Desde o começo dos anos 1990, Nina atua como artista visual. Ela  conquistou vários prêmios, mas acabou ficando sem produzir por um longo período. Isso porque Nina envolveu-se mais diretamente em curadorias institucionais e em gestões culturais. Ela coordenou uma galeria municipal, dirigiu o Museu de Arte de Belém (Mabe), onde também chefiou a Divisão de Curadoria e Montagem, e dirigiu o Museu da Casa das Onze Janelas.

image Nina Matos: experiência inesquecível no Arte Pará (Foto: Dudu Maroja)

“A criação de uma obra ou de uma exposição possui etapas de entrega e imersão. Você constrói mentalmente, organiza um pensamento, pesquisa e produz as obras em si. Elas sempre surgem de uma inquietação, de querer falar sobre algo. Então, a satisfação é você contemplar que todo aquele trabalho mental se concretizou, que o pensamento foi materializado em uma pintura, em uma construção digital, vídeo; enfim, no suporte que se adequou melhor à ideia. Existe uma transcendência em uma obra de arte que me comove”, destaca Nina Matos.

Ela trabalha a pintura e a construção digital, a partir da apropriação e ressignificação de imagens de iconografia histórica e contemporânea, pontuando questões sociopolíticas relacionadas à identidade, condição humana e crítica social.

Para Nina, “em uma mostra coletiva em que exista um cuidado curatorial, perceber a relação do teu trabalho com o que um outro artista está produzindo é muito interessante, produz reflexões”. Por isso, como diz Nina Matos, uma mostra de arte tem esse caráter de difusão e fomento, de trazer o novo e, ao mesmo tempo, apresentar produções consolidadas. “É fundamental o espaço para a renovação, como também para o artista que já possui uma trajetória. O estabelecimento dessa troca oxigena o cena artística”.

Nesse contexto, Nina Matos revela como entende o Arte Pará. “O Arte Pará é uma entidade, um projeto longevo de autoria de Romulo Maiorana, que era um visionário e sentiu a arte que se produzia na Amazônia e deu a ela um palco de muita dignidade e visibilidade, memorável. E esse projeto foi se aprimorando com o tempo”. “O Arte Pará está aí para provar sua relevância e permanência em todos esses anos”, completa.

Nina conta que teve seu “batismo nas artes visuais foi águas amazônicas do Arte Pará, o espaço onde todos os artistas queriam estar”. 

“Fiz minha inscrição no início dos 90 e fui contemplada com um prêmio, e então foi uma chancela para a arte que eu estava começando a construir, o reconhecimento de que a linguagem que eu tinha de tradução do mundo que via e sentia tinha potência e foi um impulso para a realização de minha primeira individual. Depois participei ainda de outras edições do Arte Pará por meio de edital de seleção e, também, como artista convidada. E mais recente, como curadora”. Nessa função, Nina atuou em 2019 e em 2024.

Atenta a tudo, Nina Matos tem seu processo criativo a partir de memórias pessoais e coletivas, inquietações, de um livro ou um poema que ela leu, do cinema, “de  várias situações, como também de injustiças sociais, apagamentos de culturas e, mais recentemente, em uma série que estou trabalhando, da mítica e de aspectos sociopolíticos da Amazônia”. E então todo o processo envolve pesquisa, estudos e a execução nos suportes que mais responderem ao resultado que se pretende, como diz a artista.

Expressão

Essa sede de criação artística está presente nos 40 anos de carreira do artista visual Margalho Açu. “Comecei há 40 anos no Arte Pará (1986)”, conta, detalhando o que o motivou a seguir caminho nas artes. “É uma necessidade de expressão, de entender e me relacionar com as vivências na Amazônia. Também cria possibilidades de sobrevivência emocional e, às vezes, financeiras”, diz.

image Arte Pará realça a trajetória de Margalho Açu (Foto: Divulgação)

Acerca de seu processo criativo, Margalho revela que “são vivências com muitas ideias e, na relação com os materiais, algumas vão se sobressaindo”. “Alguma que me chama mais atenção é iniciada e ganha forma, cor e significado”, acrescenta. Ele explica sobre a confecção de seus trabalhos, que “as matérias dos objetos dialogam entre si, tanto naturais como artificiais”. “Também a artesanía, o modo de lidar com as coisas no cotidiano amazônico”, acrescenta. 

Ele lembra as participações no Arte Pará. “Comecei no Arte Pará há 40 anos, fui premiado com duas aquisições (1988 e 1994) e um Grande Prêmio (1991). Além de convidado, também fui curador da sala especial sobre o pintor Soldado da Borracha Paulo Sampaio (Museu Emílio Goeldi, 2014)”.

Margalho observa que, no seu começo de carreira, era bem difícil ingressar no circuito das exposições, pois não havia edital nem redes sociais. “O Arte Pará deu oportunidade para o artista pela divulgação, exposição e possibilidades de recursos financeiros. Ainda hoje, também, é importante  participar dessa mostra, pela troca de experiências com críticos, colecionadores e outros artistas”, ressalta.

 

 

 

 

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