Nas páginas de O Liberal, a custódia da história do Pará
Acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna guarda edições desde a fundação, em 1946, servindo de fonte primária para pesquisadores que reconstroem o passado político e social do estado
O silêncio nos corredores do terceiro andar da Fundação Cultural do Pará (FCP), em Belém, reverbera o eco de quase oito décadas de história. Nas prateleiras, gavetas de microfilmes e terminais de computador da Biblioteca Pública Arthur Vianna, no Centur, o jornal O Liberal deixa de ser apenas notícia do dia anterior para se tornar documento perene. Desde a sua primeira edição, que circulou em 15 de novembro de 1946, até as manchetes atuais, o jornal cumpre uma função que vai além da informação imediata: a de registro oficial do cotidiano paraense.
Quem guia os visitantes por esse túnel do tempo é Ranulfo Figueiredo, 73 anos. Servidor público da FCP há meio século e responsável pela seção de periódicos desde 1986, ele viu o perfil do público mudar, mas o interesse pelo passado permanecer intacto.
“O Liberal começa a circular em 15 de novembro de 1946, então nós temos desde o primeiro número até os dias atuais. Ele foi microfilmado de 1946 a 1989. De 1990 para cá, temos dois formatos: o físico, em papel, e o jornal digital, disponível no terminal a partir de 2008. Hoje, o nosso público é composto majoritariamente por pesquisadores de TCC, mestrado e doutorado. Esse é o nosso público-alvo, que vem em busca de informações para elaborar trabalhos acadêmicos”, explica Ranulfo.
Guardião do tempo
O acervo de O Liberal é o segundo maior da instituição, ficando atrás apenas do de A Província do Pará. Estima-se — embora sem confirmação oficial — que a biblioteca abrigue mais de 60 milhões de exemplares de jornais, revistas e livros. O que se sabe com certeza é que há 330 títulos disponíveis para consulta. Para manter tamanha memória preservada, existe um rigoroso aparato técnico: os jornais físicos mais recentes são guardados em pastas de polipropileno, em temperatura ambiente, enquanto a sala de microfilmes opera com controle de 22 graus, garantindo a conservação das películas.
Ranulfo destaca que as pesquisas feitas no acervo são cíclicas e variadas. Elas vão desde curiosidades sobre tragédias, como o naufrágio do navio Presidente Vargas, em 1972, até consultas aprofundadas sobre convulsões políticas ao longo das décadas.
“Aqueles que pesquisam a política no século XX costumam procurar O Liberal, porque o jornal fazia oposição a um outro veículo muito forte na época, que era a Folha do Norte. Um acontecimento muito procurado é a morte do redator Paulo Eleutério Filho, na sede de O Liberal, em 20 de maio de 1950. Mas toda a campanha política daquele ano é objeto de pesquisa, porque foi extremamente tumultuada e violenta”, revela o servidor.
“Tenho uma satisfação muito grande quando auxilio alguém. Às vezes a pessoa chega e diz: 'Eu queria pesquisar a rebelião do presídio de São José em 1998'. Eles já vêm com uma referência. Sei que o que me move é isso, é o que faz com que eu ainda esteja aqui", acrescenta.
Uma janela para entender a identidade paraense
Não são apenas veteranos que folheiam a história. Jamilly Oliveira, de 20 anos, estudante de História da Universidade do Estado do Pará (UEPA), dedica-se às edições das décadas de 1930 a 1950. Seu foco é compreender a extinção da Polícia Militar no primeiro governo de Magalhães Barata e como a sociedade lidou com a segurança pública naquele período de exceção. Para ela, o jornal O Liberal é a chave para entender a mentalidade da época.
"Pesquiso muito O Liberal, principalmente no período do início, em 1946, porque o jornal surge para dar um suporte político ao partido do General Magalhães Barata. Tento entender como funcionava a cabeça do Barata aplicada na sociedade e como a sociedade o via. Há um saudosismo muito grande, porque ele era um governador extremamente populista. Mesmo que tivesse ideias, na minha percepção, um tanto autoritárias, o povo gostava dele. Então, há um saudosismo muito grande nas páginas de O Liberal quanto ao governo dele", analisa a estudante.
Para Jamilly, frequentar a biblioteca vai além da exigência acadêmica; é uma questão de identidade. "É um espaço de memória. Além dos jornais, a gente tem livros, tem obras raras. Então, é muito importante para nós lembrarmos de onde viemos, quem somos e para onde vamos. É claro que esquecer também faz parte do processo de memória, a manipulação também faz parte, mas lembrar é fundamental", reflete.
Valor histórico
A transformação do jornal diário em fonte histórica é um fenômeno essencial para compreender a sociedade contemporânea. Netília Seixas, professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora da memória da imprensa, reforça a importância de valorizar esses espaços de preservação.
"O espaço da biblioteca pública no Centur é fundamental para a preservação da memória do jornalismo paraense, da capital e de municípios do estado. É uma sequência: jornais, revistas e outras publicações atuam como registros da memória cotidiana ao longo de um determinado tempo, e acervos como os da Biblioteca Pública Arthur Vianna são essenciais para a existência e valorização dessa memória. Deveria receber mais atenção ainda dos responsáveis por seu custeio e do público também", avalia a professora.
SERVIÇO — Como acessar o acervo de O Liberal
Local: Biblioteca Pública Arthur Vianna — Fundação Cultural do Pará (Centur)
Endereço: Av. Gentil Bittencourt, 650 - Nazaré
Horário: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
Custo: acesso gratuito e sem necessidade de agendamento prévio
DISPONIBILIDADE DO ACERVO DE O LIBERAL
1946 a 1989: disponível em microfilme
1990 a 2007: exemplares físicos (papel)
2008 até hoje: consulta digital via terminal na biblioteca
CUSTOS DE CÓPIA E DIGITALIZAÇÃO
Período não microfilmado (papel)
- Fotocópia: R$ 0,20
- Fotografia com câmera própria: gratuito (para obras a partir de 1980)
Período microfilmado (digitalização)
- 1 imagem: R$ 3
- Meia página: R$ 6
- Página inteira: R$ 12
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