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ACERVO DO CENTUR

Nas páginas de O Liberal, a custódia da história do Pará

Acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna guarda edições desde a fundação, em 1946, servindo de fonte primária para pesquisadores que reconstroem o passado político e social do estado

Gabriel da Mota

29 de novembro de 2025 às 09:00

O silêncio nos corredores do terceiro andar da Fundação Cultural do Pará (FCP), em Belém, reverbera o eco de quase oito décadas de história. Nas prateleiras, gavetas de microfilmes e terminais de computador da Biblioteca Pública Arthur Vianna, no Centur, o jornal O Liberal deixa de ser apenas notícia do dia anterior para se tornar documento perene. Desde a sua primeira edição, que circulou em 15 de novembro de 1946, até as manchetes atuais, o jornal cumpre uma função que vai além da informação imediata: a de registro oficial do cotidiano paraense.

Quem guia os visitantes por esse túnel do tempo é Ranulfo Figueiredo, 73 anos. Servidor público da FCP há meio século e responsável pela seção de periódicos desde 1986, ele viu o perfil do público mudar, mas o interesse pelo passado permanecer intacto.

“O Liberal começa a circular em 15 de novembro de 1946, então nós temos desde o primeiro número até os dias atuais. Ele foi microfilmado de 1946 a 1989. De 1990 para cá, temos dois formatos: o físico, em papel, e o jornal digital, disponível no terminal a partir de 2008. Hoje, o nosso público é composto majoritariamente por pesquisadores de TCC, mestrado e doutorado. Esse é o nosso público-alvo, que vem em busca de informações para elaborar trabalhos acadêmicos”, explica Ranulfo.

Ranulfo Figueiredo, 73, servidor público da FCP há 50 anos
Ranulfo Figueiredo, 73, servidor público da FCP há 50 anos (Wagner Santana / O Liberal)

Guardião do tempo

O acervo de O Liberal é o segundo maior da instituição, ficando atrás apenas do de A Província do Pará. Estima-se — embora sem confirmação oficial — que a biblioteca abrigue mais de 60 milhões de exemplares de jornais, revistas e livros. O que se sabe com certeza é que há 330 títulos disponíveis para consulta. Para manter tamanha memória preservada, existe um rigoroso aparato técnico: os jornais físicos mais recentes são guardados em pastas de polipropileno, em temperatura ambiente, enquanto a sala de microfilmes opera com controle de 22 graus, garantindo a conservação das películas.

Ranulfo destaca que as pesquisas feitas no acervo são cíclicas e variadas. Elas vão desde curiosidades sobre tragédias, como o naufrágio do navio Presidente Vargas, em 1972, até consultas aprofundadas sobre convulsões políticas ao longo das décadas.

“Aqueles que pesquisam a política no século XX costumam procurar O Liberal, porque o jornal fazia oposição a um outro veículo muito forte na época, que era a Folha do Norte. Um acontecimento muito procurado é a morte do redator Paulo Eleutério Filho, na sede de O Liberal, em 20 de maio de 1950. Mas toda a campanha política daquele ano é objeto de pesquisa, porque foi extremamente tumultuada e violenta”, revela o servidor.

“Tenho uma satisfação muito grande quando auxilio alguém. Às vezes a pessoa chega e diz: 'Eu queria pesquisar a rebelião do presídio de São José em 1998'. Eles já vêm com uma referência. Sei que o que me move é isso, é o que faz com que eu ainda esteja aqui", acrescenta.

Primeira edição de O Liberal, publicada em 15 de novembro de 1946, preservada no acervo do Centur
Primeira edição de O Liberal, publicada em 15 de novembro de 1946, preservada no acervo do Centur (Wagner Santana / O Liberal)

Uma janela para entender a identidade paraense

Não são apenas veteranos que folheiam a história. Jamilly Oliveira, de 20 anos, estudante de História da Universidade do Estado do Pará (UEPA), dedica-se às edições das décadas de 1930 a 1950. Seu foco é compreender a extinção da Polícia Militar no primeiro governo de Magalhães Barata e como a sociedade lidou com a segurança pública naquele período de exceção. Para ela, o jornal O Liberal é a chave para entender a mentalidade da época.

"Pesquiso muito O Liberal, principalmente no período do início, em 1946, porque o jornal surge para dar um suporte político ao partido do General Magalhães Barata. Tento entender como funcionava a cabeça do Barata aplicada na sociedade e como a sociedade o via. Há um saudosismo muito grande, porque ele era um governador extremamente populista. Mesmo que tivesse ideias, na minha percepção, um tanto autoritárias, o povo gostava dele. Então, há um saudosismo muito grande nas páginas de O Liberal quanto ao governo dele", analisa a estudante.

A estudante de História Jamilly Oliveira, 20, pesquisa sobre o baratismo retratado nos primeiros anos de existência de O Liberal
A estudante de História Jamilly Oliveira, 20, pesquisa sobre o baratismo retratado nos primeiros anos de existência de O Liberal (Wagner Santana / O Liberal)

Para Jamilly, frequentar a biblioteca vai além da exigência acadêmica; é uma questão de identidade. "É um espaço de memória. Além dos jornais, a gente tem livros, tem obras raras. Então, é muito importante para nós lembrarmos de onde viemos, quem somos e para onde vamos. É claro que esquecer também faz parte do processo de memória, a manipulação também faz parte, mas lembrar é fundamental", reflete.

Valor histórico

A transformação do jornal diário em fonte histórica é um fenômeno essencial para compreender a sociedade contemporânea. Netília Seixas, professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora da memória da imprensa, reforça a importância de valorizar esses espaços de preservação.

"O espaço da biblioteca pública no Centur é fundamental para a preservação da memória do jornalismo paraense, da capital e de municípios do estado. É uma sequência: jornais, revistas e outras publicações atuam como registros da memória cotidiana ao longo de um determinado tempo, e acervos como os da Biblioteca Pública Arthur Vianna são essenciais para a existência e valorização dessa memória. Deveria receber mais atenção ainda dos responsáveis por seu custeio e do público também", avalia a professora.

SERVIÇO — Como acessar o acervo de O Liberal

Local: Biblioteca Pública Arthur Vianna — Fundação Cultural do Pará (Centur)

Endereço: Av. Gentil Bittencourt, 650 - Nazaré

Horário: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h

Custo: acesso gratuito e sem necessidade de agendamento prévio

DISPONIBILIDADE DO ACERVO DE O LIBERAL

1946 a 1989: disponível em microfilme

1990 a 2007: exemplares físicos (papel)

2008 até hoje: consulta digital via terminal na biblioteca

CUSTOS DE CÓPIA E DIGITALIZAÇÃO

Período não microfilmado (papel)

  • Fotocópia: R$ 0,20
  • Fotografia com câmera própria: gratuito (para obras a partir de 1980)

Período microfilmado (digitalização)

  • 1 imagem: R$ 3
  • Meia página: R$ 6
  • Página inteira: R$ 12