J. Bosco: o olho crítico de O Liberal completa 37 anos de traço

Chargista, caricaturista e ilustrador reflete sobre a transição do nanquim ao digital e a complexidade de fazer humor e política na imprensa paraense

Gabriel da Mota

O lápis, a tinta nanquim e a caneta futura deram lugar à agilidade do digital, mas a paixão e o olhar crítico de J. Bosco, 64, permanecem os mesmos que, há quase quatro décadas, entraram na redação de O Liberal. Em setembro de 1988, o artista iniciava sua trajetória no jornal, inicialmente para equilibrar o visual de matérias densas de política e economia com ilustrações que logo se transformariam em charges. Hoje, ele é uma das assinaturas mais tradicionais e respeitadas do jornalismo paraense, trazendo leveza e perspicácia aos fatos do dia a dia.

A chegada de J. Bosco ao jornal foi marcada pela multidisciplinaridade e pelo ritmo analógico do trabalho. Ele não apenas ilustrava, mas também diagramava. “Eu trabalhava n’A Província do Pará e em setembro de 1988 fui convidado para entrar no jornal O Liberal para diagramar, fazer charges, caricaturas e ilustrar cadernos de política, economia e cultura”, recorda. O processo era mais lento e artesanal: “Não existia computador, era, no lápis, tinta nanquim e caneta futura”.

A necessidade de ilustrar textos maçudos rapidamente levou suas imagens a ganharem um tom editorial. “Essa ilustração virou charge, e estava ligada aos textos políticos. Aí o diretor de redação na época pediu para fazer charge inserida nos textos”, conta. A partir daí, o caminho foi de consolidação, dedicando-se integralmente ao desenho após cerca de cinco anos:

“De lá pra cá mudou tudo. Hoje, as coisas são digitais e mais rápidas. A forma de criar é a mesma: acompanhar os acontecimentos diários”.

Inspiração

O berço da inspiração de J. Bosco é o imprevisível cotidiano paraense e nacional. As ideias para as charges não vêm prontas; são uma "caça" constante. “As ideias vêm do dia a dia, do absurdo, do 'engraçado', das gafes e tragédias dos políticos”, revela. Ele distingue a charge (desenho editorial com crítica) da ilustração (mais artística e abstrata) e da caricatura (mais focada no lado artístico para exposições).

image Ao longo de quase quatro décadas, J. Bosco aprendeu a retratar assuntos de forte apelo popular com sensibilidade e ética jornalística (Cláudio Pinheiro / O Liberal)

Para ele, a charge é um texto jornalístico e um desenho editorial. O processo criativo é como um quebra-cabeça que exige precisão e informação. "Você caça, né? Tem todo um processo criativo de juntar peça por peça para enquadrar, para não ficar um desenho aleatório do tipo: 'Não entendi. O que significa isso?'”, explica. A referência a grandes mestres como Ziraldo, Jaguar e Biratan Porto (seu maior parceiro e incentivador) é um pilar na construção desse olhar.

Autonomia

J. Bosco desfruta de uma rara autonomia na redação. “Eu tive o privilégio de ser o editor das minhas charges desde quando entrei no jornal”, afirma. Esse privilégio, no entanto, é equilibrado pelo conhecimento da linha editorial: “Conheço a linha editorial do jornal, mas também conto com a ajuda dos editores que sempre dão sugestões”, pondera.

Ele destaca o futebol como um tema que proporciona grande engajamento e paixão, citando as torcidas de Remo e Paysandu: "O futebol tem um público fascinante. Ele traz alegria, ódio... e tem uma encrenca. Essa encrenca é legal. Não dá tanto processo quanto política, né?", brinca.

Porém, a política exige cautela redobrada, especialmente na era do politicamente correto e das redes sociais. “Você tem que ter muito cuidado. O politicamente correto veio nos empurrando para a parede”, reconhece.

Perspectivas

Entre os momentos mais marcantes de sua carreira, Bosco não hesita em destacar a longevidade e a paixão pelo ofício: "Chegar aos 37 anos de redação de jornal fazendo, com paixão, charges, caricaturas e ilustrações é marcante". Ele também cita a participação na mudança do projeto gráfico de O Liberal, em 2018, como a realização de um sonho.

Sobre o papel da charge na era da internet, ele mantém a serenidade e o bom-humor:

“As redes sociais têm a sua parte cruel, mas não dou chance para ser cancelado. Tiro de letra”.

A inspiração para continuar a desenhar a realidade paraense é a maturação do seu trabalho e a conexão com o público. Bosco segue apaixonado pelo desenho de humor nacional e internacional, e expande seu trabalho com exposições e livros. “O tempo foi amadurecendo tudo. Gosto de desenhar o futebol paraense, que tem um público gigante, e continuo apaixonado pelo desenho de humor”, conclui.

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