‘Informação nunca é demais’: Ronaldo Maiorana projeta o futuro de O Liberal rumo aos 80 anos
Em entrevista exclusiva, CEO do Grupo Liberal revisita memórias afetivas da fundação, reafirma a defesa intransigente do jornalismo profissional diante da polarização e anuncia a modernização gráfica com o formato berliner, alinhada à agenda de sustentabilidade da Amazônia
A história de um jornal impresso quase centenário se constrói com a capacidade de interpretar o tempo e antecipar o futuro, sem perder a reverência pelo passado. Enquanto celebra 79 anos de circulação ininterrupta, O Liberal se prepara para um de seus ciclos mais emblemáticos: a chegada aos 80 anos, em 2026. À frente dessa travessia está Ronaldo Maiorana, CEO do Grupo Liberal, que carrega no DNA o legado do pai, Romulo Maiorana — uma visão clara sobre o papel da imprensa paraense na custódia da Amazônia.
Em conversa com os jornalistas Ney Messias Jr., diretor de Entretenimento e Rádio Web do Grupo, e Lázaro Magalhães, diretor de conteúdo de O Liberal, Ronaldo desenha os próximos passos do conglomerado de mídia. O futuro, segundo ele, passa obrigatoriamente pela sustentabilidade. Alinhado às transformações globais e à agenda climática que colocou Belém como epicentro durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), realizada este mês de novembro, o jornal impresso passará por uma mudança estrutural histórica: a adoção do formato berliner, a partir de 2026. A mudança reflete um compromisso ético com o meio ambiente, reduzindo o consumo de recursos naturais e modernizando a experiência de leitura, apoiada por investimentos robustos já em curso no parque gráfico do Grupo.
Mas a tecnologia é apenas o meio. O fim continua sendo a difusão de informações de interesse público. Em tempos de polarização e ataques à liberdade de imprensa, Ronaldo Maiorana é enfático ao defender o equilíbrio e a proteção aos profissionais. Para ele, o jornalismo sério é o antídoto contra a desinformação. “Informação nunca é demais”, sentencia, definindo o mote que guiará O Liberal rumo à sua oitava década.
Abaixo, confira a íntegra da entrevista:
O LIBERAL: Ao olharmos para estes 79 anos, é impossível não falar sobre a origem. Qual é a sua primeira memória física e emocional dentro do jornal?
RONALDO MAIORANA: Se você pegar as fotos antigas, vai ver que eu vivia agarrado ao meu pai. Parecia que eu estava “costurado” na perna dele. Todo sábado nós saíamos, uma rotina sagrada: íamos ao cemitério, pois ele era apaixonado pela mãe e fazia questão de acender uma vela; passávamos no prédio da TV e, invariavelmente, terminávamos o dia conversando. Eu devia ter uns quatro anos nas primeiras fotos, mas comecei a entender aquele ambiente [do jornalismo] por volta dos oito ou nove anos. Eu adorava ficar sentado ouvindo a conversa dos mais velhos. Ficava horas ali, no Iate Clube ou em outros lugares, ouvindo debates sobre política. Eram jornalistas históricos, figuras que definiam os destinos políticos do Estado. Eu cresci no meio dessa esfera, observando homens que tinham um poder de síntese e uma cultura impressionantes.
O LIBERAL: Você conviveu com grandes nomes do jornalismo paraense naquela época. O que mais lhe marcava nessas figuras?
RONALDO MAIORANA: Havia uma intelectualidade muito forte. Lembro de figuras como o Oliveira Bastos, que metia medo em muita gente pela força da sua escrita. Havia o meu próprio pai, que era um frasista maravilhoso, conseguia criar conceitos complexos em poucas palavras. Eram jornalistas que tinham um texto afiado. Eles frequentavam lugares simples, e bastava uma nota na coluna para transformar locais simples, visitados por eles, em um sucesso absoluto. O poder de síntese deles era algo que hoje faz falta. Eles escreviam com poucas linhas, mas com uma contundência que reverberava pela cidade inteira. Era um jornalismo feito com paixão.
O LIBERAL: Essa paixão pelo jornalismo que você demonstra hoje vem dessa observação do seu pai?
RONALDO MAIORANA: Vem dele, sem dúvida. O Romulo Maiorana tratava o jornal O Liberal não como um produto ou um objeto, mas como uma pessoa. Era o "meu querido Liberal". Ele tinha um carinho físico pelo papel; ninguém podia tocar no jornal antes dele. Era como um livro sagrado que ele recebia todos os dias. Mesmo já tendo a televisão, que era poderosa, a grande paixão dele sempre foi o impresso. Eu ouvi isso a vida inteira. E acabei absorvendo isso. Como muito se diz no meio, o jornalismo é uma ‘cachaça’. É uma profissão que mistura história, direito, filosofia... Você acaba vivendo a história enquanto ela acontece. É cansativo, exige muito, mas é apaixonante.
Em defesa intransigente da Amazônia e do trabalho da imprensa, o CEO destaca o papel do Grupo Liberal como a voz da região e repudia ataques recentes a jornalistas (Tarso Sarraf / O Liberal)
O LIBERAL: Falando sobre o futuro e a perenidade do Grupo. O jornal completa 79 anos e caminha para os 80. Como você enxerga a evolução do Liberal para as próximas décadas, especialmente considerando os novos investimentos?
RONALDO MAIORANA: O Liberal sempre teve essa marca de acompanhar o tempo. Meu pai era muito antenado. Fomos pioneiros em muitas tecnologias gráficas no Norte. Agora, olhando para 2026, quando faremos 80 anos, estamos preparando uma mudança fundamental. Vamos migrar para o formato berliner. Não é apenas uma questão estética, é um alinhamento com a sustentabilidade. O mundo mudou, e a indústria precisa consumir menos recursos naturais. Essa mudança, que já é tendência nos grandes jornais do mundo, economiza papel e insumos, alinhando-se perfeitamente à agenda ambiental, especialmente com a COP 30 que aconteceu aqui. Estamos investindo no parque gráfico para isso. É uma modernização necessária para garantir que o jornal continue sendo relevante e sustentável.
O LIBERAL: O Liberal sempre se posicionou como "a voz da Amazônia". Como você avalia a importância de manter uma cobertura regional forte em um mundo globalizado?
RONALDO MAIORANA: É vital. Se nós não falarmos por nós mesmos, ninguém falará. Ou pior, falarão errado. A região Norte muitas vezes ficou para trás no projeto de desenvolvimento nacional. Se você não tem uma ligação forte com a região, se não defende os interesses locais, o desenvolvimento não acontece. O Liberal tem esse compromisso umbilical com a Amazônia. Precisamos defender pautas estruturantes, como a Ferrogrão, a exploração responsável de petróleo na Margem Equatorial e a navegabilidade dos nossos rios. São temas que impactam diretamente a vida do cidadão, o IDH da nossa população. A cobertura local serve para contrapor visões exógenas que muitas vezes romantizam a nossa pobreza ou desconhecem a nossa realidade logística e social.
O LIBERAL: A gestão do Grupo Liberal sempre teve um olhar muito voltado para as pessoas. Como isso se reflete na condução do negócio hoje?
RONALDO MAIORANA: Todo produto é feito por pessoas e para pessoas. Você pode ter a melhor máquina do mundo, a melhor rotativa, os melhores computadores, mas se não tiver gente capacitada e motivada, a máquina não faz nada sozinha. Meu pai tinha essa crença muito forte. Ele recebia funcionários diariamente, conhecia os problemas deles, os ajudava. Era adorado pelos colaboradores. Eu procuro manter essa filosofia. O foco tem que ser no cliente e no colaborador. Se você tiver responsabilidade com o fluxo de caixa e respeito pelas pessoas, a chance de dar certo é enorme. As empresas confundem muito CNPJ com CPF, e isso é fatal. A gestão precisa ser profissional, mas humana.
Rumo aos 80 anos: Ronaldo Maiorana anuncia a migração para o formato berliner em 2026, alinhando O Liberal à agenda global de sustentabilidade (Tarso Sarraf / O Liberal)
O LIBERAL: Vivemos tempos de extrema polarização política. Como o jornal deve se comportar nesse cenário?
RONALDO MAIORANA: A polarização se tornou uma chatice, para ser sincero. O Brasil virou monotemático, dividido em lados que não dialogam, apenas se xingam. O papel da imprensa aumenta nesse contexto. Temos que ser mais isentos, ouvir todos os lados, abrir espaço para o contraditório. A concorrência é saudável e a pluralidade de ideias também. O Liberal se fixou como um veículo que garante esses vários ângulos. Informação nunca é demais. Quanto mais informação correta e checada você entrega, mais você combate o extremismo e a ignorância. A democracia se fortalece com a participação e com o debate qualificado.
O LIBERAL: Recentemente, durante a realização da COP 30, profissionais do Grupo Liberal foram alvos de ataques durante o exercício da profissão. Qual é a posição da empresa diante disso?
RONALDO MAIORANA: Minha posição é de defesa intransigente da nossa equipe. É inadmissível. Se você não defende seus profissionais, você perde o requisito moral para cobrar qualquer coisa da sociedade. Nós demos visibilidade aos ataques e acionamos as autoridades competentes exatamente para proteger o jornalismo. A gente precisa se posicionar firmemente. O jornalismo tem seus riscos; cobrimos segurança pública, política, e isso desagrada a muitos. Mas a violência, a intimidação e a ofensa não podem ser normalizadas. O compromisso com a verdade exige coragem, e nós daremos todo o suporte para que nossos repórteres continuem trabalhando com segurança e liberdade.
O LIBERAL: Para encerrar, qual a mensagem principal rumo aos 80 anos?
RONALDO MAIORANA: A mensagem é de crença na nossa região e no jornalismo profissional. Estamos investindo, estamos nos modernizando e estamos atentos às mudanças do mundo. Seja no impresso, no digital ou em qualquer plataforma, o Liberal continuará sendo a voz da Amazônia. Vamos chegar aos 80 anos renovados, com o formato berliner, mais sustentáveis e com o mesmo compromisso que meu pai tinha lá atrás: fazer um jornal com amor, que defenda o desenvolvimento do Pará e que respeite profundamente o seu leitor. A informação de qualidade é o nosso maior legado e o nosso futuro.
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