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Líder em açaí por natureza!

Pará lidera exportações de açaí com tecnologia e vocação natural

‘Pará é líder porque tem a natureza a favor, tem pesquisa e é, ele próprio, o maior consumidor dessa riqueza’, diz o pesquisador da Embrapa, João Tomé de Farias Neto

Valéria Nascimento

29 de setembro de 2026 às 07:15

Plantios nativos de açaí em regiões do Marajó e do Baixo Tocantins respondem por 80% da produção estadual, destaca a Sedap

Plantios nativos de açaí em regiões do Marajó e do Baixo Tocantins respondem por 80% da produção estadual, destaca a Sedap ( Foto: Foto: Ronaldo Rosa / Embrapa/Divulgação )

De 2024 até agosto deste ano, o Pará superou as exportações de açaí no país, mesmo com a inclusão de outros estados exportadores, como o Amazonas. A liderança paraense se explica por um conjunto de fatores, se não bastasse a enorme área de plantios nativos existentes no território estadual, e o tradicional hábito alimentar do povo daqui, que pressiona para que o fruto seja explorado em toda sua extensão, as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa Amazônia Oriental impulsionam a força da produtividade local.

"A pesquisa científica, e a Embrapa em especial, já está nessa caminhada do açaí há cerca de 40 anos. A gente começou estudando as áreas nativas e fomos acompanhando toda a evolução da cultura, tirando essa palmeira que é típica da várzea e levando para a terra firme, além de olhar muito de perto para a agroindústria”, disse o engenheiro agrônomo, doutor, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, João Tomé de Farias Neto, no dia 18 deste mês de setembro. 

João Neto, pesquisador da Embrapa sobre a liderança nacional do Pará na produção de açaí: "É a combinação perfeita entre a vocação natural da região e a consolidação tecnológica", diz ele.
João Neto, pesquisador da Embrapa sobre a liderança nacional do Pará na produção de açaí: "É a combinação perfeita entre a vocação natural da região e a consolidação tecnológica", diz ele. (Foto: Ronaldo Rosa/ Embrapa)

O pesquisador aponta o ‘Manejo de Mínimo Impacto de Açaizais Nativos’ como uma das tecnologias mais relevantes para a cadeia paraense do açaí. “Essa tecnologia ajusta a densidade das touceiras sem agredir a biodiversidade da floresta, o que aumenta a produtividade de forma sustentável e mantém a diversidade das florestas de várzea”.

Equilíbrio e conservação da floresta

Geraldo Tavares é o gerente de fruticultura da Sedap (Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca do Pará), instituição que tem um histórico de parceria com a Embrapa e os produtores rurais. Geraldo ressalta a contribuição da tecnologia do manejo de mínimo impacto dos açaizais de várzeas para o equilíbrio da produção e da floresta.

Geraldo Tavares, gerente de fruticultura da Sedap afirma que o manejo de mínimo impacto dos açaizais de várzeas dá equilíbrio à produção do fruto e  conserva a floresta
Geraldo Tavares, gerente de fruticultura da Sedap afirma que o manejo de mínimo impacto dos açaizais de várzeas dá equilíbrio à produção do fruto e conserva a floresta (Foto: Divulgação / Sedap)

“O manejo mínimo visa equilibrar a produção de frutos com conservação da floresta de várzea amazônica, onde a palmeira do açaizeiro ocorre naturalmente. Ele também busca manter a biodiversidade, aumentar o período de safra, além de otimizar as etapas do processo de manejo, através do aplicativo Manejatech-açaí”, frisa Tavares.

Desenvolvido pela Embrapa, o Manejatech-açaí é um aplicativo gratuito que auxilia os extrativistas justamente no manejo das espécies. Por exemplo, o software apoia nas decisões dos trabalhadores, ao calcular a proporção ideal entre as touceiras de açaí e a vegetação nativa, indicando quais árvores devem ser mantidas, plantadas ou removidas para garantir o equilíbrio ecológico.

O pesquisador João Tomé afirma o contínuo melhoramento genético: “Lançamos a cultivar (variedade de planta) BRS Pará em 2005 e a BRS Pai D’Égua em 2019, ambas pensadas para sistemas irrigados, o que ajuda a ampliar a oferta de frutos na entressafra e garante maior rendimento de polpa”.

"Junto a isso, aprimoramos os sistemas de adubação e irrigação, e desenvolvemos o primeiro Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) para o açaí irrigado de terra firme, que dá uma segurança enorme para o produtor planejar o plantio”, disse.

Na agroindústria, o doutor comenta que a Embrapa aprimorou boas práticas de pós-colheita para garantir a segurança alimentar, prevenindo contaminações como a da Doença de Chagas. A empresa pública atuou no desenvolvimento de novos produtos, como balas de goma estruturadas e sucos mistos. "O objetivo final é que a cadeia seja sustentável no âmbito social, econômico e ambiental, trazendo qualidade de vida para quem produz e um produto seguro para quem consome”

Cultivo irrigado saltou de 34 mil ha para 83 mil ha, aponta Embrapa

João Tomé frisa que os números de 2015 a 2024 mostram um salto impressionante: “A área plantada passou de 34 mil para aproximadamente 83 mil hectares. Um crescimento de 144% em 10 anos”. Para se ter ideia do impacto da ciência nesse processo, dos 83 mil hectares atuais, 41 mil são da cultivar BRS Pará e 42 mil são da BRS Pai d’Égua.

"Ou seja, a Pai d’Égua, mesmo tendo sido lançada 14 anos depois da BRS Pará, já alcançou uma área plantada ligeiramente superior em 2024. Isso mostra como o produtor abraçou rápido a tecnologia de terra firme irrigada, diversificando uma produção que historicamente estava associada ao extrativismo e ao manejo de açaizais em áreas de várzea”, explica o pesquisador.

A adoção de áreas irrigadas é expressiva em municípios polos como Tomé-Açu, Santa Isabel do Pará, Castanhal, Santo Antônio do Tauá, Moju, Paragominas, Barcarena e Igarapé-Miri. E em outros estados como Bahia, Ceará e Maranhão

Em 2019, a Embrapa lançou a cultivar BRS Paídégua que tem as seguintes características: cultivo em terra firme, produção na entressafra e a precocidade, ou seja, ela inicia a produção no terceiro ano do plantio. O plantio tradicional ou nativo costuma iniciar a fase reprodutiva entre 4 e 5 anos.
Em 2019, a Embrapa lançou a cultivar BRS Paídégua com as seguintes características: cultivo em terra firme, produção na entressafra e precocidade, ou seja, ela inicia a produção no terceiro ano do plantio. O plantio tradicional ou nativo costuma iniciar a fase reprodutiva entre 4 e 5 anos. (Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa)

Cadeia produtiva enfrenta gargalos logísticos

O avanço no campo da cadeia produtiva ainda enfrenta gargalos logísticos que limitam o escoamento eficiente. João Tomé Neto cita a altíssima perecibilidade do fruto, que exige processamento ou resfriamento poucas horas após a colheita para evitar a degradação e a fermentação da polpa.

"A falta de infraestrutura de cadeia de frio e de unidades de pré-resfriamento próximas às comunidades produtoras isoladas permanece como obstáculo logístico. Outro gargalo da cadeia produtiva ainda é a alta sazonalidade da produção de frutos”, enfatiza o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

Pesquisa da Embrapa aponta que açaizais irrigados produzem cerca de 40% da produção no primeiro semestre (período entressafra ) e 60%  no segundo semestre, reduzindo assim os efeitos da sazonalidade da cultura no Pará
Pesquisa da Embrapa aponta que açaizais irrigados produzem cerca de 40% da produção no primeiro semestre (período entressafra ) e 60% no segundo semestre, reduzindo assim os efeitos da sazonalidade da cultura no Pará (Foto: Ronaldo Rosa / Embrapa)

 

O Pará contudo tem vantagens competitivas. “É a combinação perfeita entre a vocação natural da região e a consolidação tecnológica. O Pará tem uma condição edafoclimática única (conjunto de condições relativas ao clima e ao solo de uma região).

João Tomé explica que “o estado tem solo favorável, vasta extensão de várzeas nativas e muita água disponível, aliada agora à expansão planejada e irrigada em terra firme”, ressalta.

"Para se ter uma dimensão disso, dados do IBGE mostram que 90% de todo o açaí produzido no Brasil vem do Pará. E há um detalhe cultural fantástico: 75% de toda essa produção monumental é consumida aqui mesmo no estado. Ou seja, o Pará lidera porque tem a natureza a favor, tem pesquisa e é, ele próprio, o maior consumidor dessa riqueza”.