O que a tragédia “Romeu e Julieta”, lançada pelo inglês William Shakespeare no final do século 16, tem a ver com a cultura do Nordeste brasileiro e da Amazônia em pleno ano de 2026? Tem tudo a ver. A força imorredoura do texto de Shakespeare, um cânone da literatura e do teatro mundiais, revela que o cenário da intolerância, desrespeito e incompreensão do que seja o amor real que atingiu os enamorados da história persiste nos dias atuais da humanidade. Contudo, em contraponto a isso, tem-se a inventividade de autores nordestinos no espetáculo “Romeu e Julieta, cordel de Ariano Suassuna”, a ser apresentado pela primeira vez na Grande Belém, na quarta-feira (26), quinta (27) e na sexta (28), no auditório da Unama Ananindeua.
Essa temporada do espetáculo na capital paraense, com entrada gratuita, ocorre no contexto do centenário de nascimento do escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (1927–2014), a ser comemorado em 2027. O espetáculo foi escrito, dirigido e interpretado pelo Aramis Trindade, e que teve a supervisão do próprio Ariano Suassuna ainda vivo. A programação em Belém conta com uma inédita Oficina de Produção Teatral Independente e sessão especial para alunos e professores da rede pública de ensino. Tudo com acessibilidade em Libras. Esse trabalho cênico já contabiliza 192 apresentações.
Suassuna foi um dos maiores escritores e dramaturgos brasileiros e criador do Movimento Armorial, e a história da montagem desse espetáculo está diretamente ligada a ele. Isso porque, em 1997, Aramis Trindade participou como ator de “A História do Amor de Romeu e Julieta”, adaptação escrita pelo dramaturgo. Então, nasceu o desejo de Aramis criar sua própria versão da história em linguagem de cordel. Quinze anos depois, o projeto ganhou forma, e o texto foi apresentado a Ariano Suassuna, que acompanhou e supervisionou a adaptação.
Diante do amor
Na montagem que o público vai conferir em Belém, Aramis conduz sozinho a história de Romeu e Julieta em um cordel composto por 98 sextilhas. Assim, por meio do teatro, poesia, música e humor, o clássico de Shakespeare é transposto para o universo da cultura popular nordestina. Com direito a uma trilha original de Zé da Flauta, que dialoga com a estética da música armorial.
Em um segundo momento, Aramis “incorpora” Ariano Suassuna em uma divertida aula-espetáculo. Desse modo, ele traz histórias, reflexões e referências ao Movimento Armorial e ao permanente diálogo entre cultura erudita e cultura popular que marcou o pensamento do escritor.
Em entrevista ao Grupo Liberal, Aramis Trindade destaca como foi o encontro com Ariano Suassuna. “Esse encontro foi maravilhoso. Eu descobri que o Ariano também tinha um respeito, uma admiração pelo meu trabalho. Então, foi comutativa essa troca, falando de coração. Foi comutativa, foi recíproca, assim, a admiração entre nós dois, mutuamente”. Aramis traduz em uma palavra o que aprendeu com a supervisão de seu trabalho por Suassuna: “Generosidade!”.
Aramis destaca a proposta de transposição do clássico de William Shakespeare para um cordel de 98 sextilhas. “Esse diálogo da cultura popular e erudita é exemplificado na peça, que foi justamente a criação do Movimento Armorial que o Suassuna fez nos anos 70 lá no Nordeste do Brasil. E esse cruzamento de linguagens, Inglaterra, Nordeste do Brasil, essa versão é bem armorial, inclusive, na trilha sonora. Ela tem flautas transversais, mas tem também pífanos, tem flauta doce, viola de 12 cordas. Então, é o exemplo vivo do Movimento Armorial em teatro”, ressalta o ator.
“As pessoas se identificam muito com a obra dele. Tá aí ‘’Auto da Compadecida’, por exemplo, que é uma identificação muito grande no Brasil do público com essa peça e com o filme. Primeiro, foi a peça, em 1957, e depois o filme, em 2000”, acrescenta o ator.
Para, na segunda parte da peça, “vestir-se” de Ariano Suassuna em uma aula-espetáculo, sem ser uma mera imitação, Aramis Trindae conta que foi criando uma amizade com o dramaturgo que “de alguma forma foi servindo de laboratório”.
“Sempre que eu me encontrava com ele, eu ficava observando, vendo, ouvindo o jeito que ele falava, suas pausas. Isso tudo me deu um caldeirão de informações, digamos assim, para partir para a criação do personagem de Ariano. E, na verdade, ele mesmo pediu se pudesse ser uma mimese, uma mimetização, porque ele atuava na peça como autor, que ele fez a adaptação, mas como ator também. Ele fazia o narrador. E é esse personagem que eu passei a fazer no lugar dele, justamente por conta da mimetização”, relata Aramis.
“Ele fazia, depois me chamou para substituí-lo, e pediu exatamente uma mimese. E aí, depois eu fiz a minha versão do monólogo. Tem uma parte que tem uma mini aula-espetáculo e acontece essa mimese”, completa Aramis Trindade. “Romeu e Julieta, cordel de Ariano Suassuna” é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Uninassau e Unama.
Serviço:
‘Romeu e Julieta, cordel de Ariano Suassuna’
Classificação indicativa: livre
Entrada gratuita
Em 26, 27 28 de agosto
26 de agosto (quarta-feira) – Duas apresentações:
10h - Sessão especial destinada a estudantes e professores de escolas públicas
19h30 - público geral
27 de agosto (quinta-feira):
19h30: público geral
28 de agosto (sexta-feira):
13h: oficina de produção teatral independente - capacidade: 30 pessoas
Local: Unama Ananindeua – Auditório
Endereço: BR 316, km 3, S/N - Coqueiro, Ananindeua – Belém, PA.
Capacidade: 320 lugares, com acessibilidade
Link para os ingressos:
· Oficina de Produção de Teatro Independente com Alessandra Alves | Belém (PA):
https://vendyno.goexplosion.com/checkout/oficina-de-producao-teatral-independente-belem-pa
● Cordel de Ariano Suassuna com Aramis Trindade | Belém (PA):
https://vendyno.goexplosion.com/checkout/romeu-julieta-cordel-de-ariano-suassuna-com-aramis-trindade-belem-pa-1
· Sessão especial destinada a estudantes e professores de escolas públicas:
https://produtor-vendyno.goexplosion.com/link/produtor/evento/gerenciar/romeu-julieta-cordel-de-ariano-suassuna-com-aramis-trindade-belem-pa-1
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