Registros históricos apontam que Belém foi uma das pioneiras na adoção de estratégias de arborização desde a segunda metade do século XVIII. O processo ganhou ainda mais força nos séculos seguintes, especialmente durante a chamada Belle Époque, quando as principais vias ganharam o plantio de mangueiras, que levaram à atribuição do título de Cidade das Mangueiras.
A presença da espécie ainda é marca da paisagem do centro, porém o envelhecimento e morte natural dos vegetais aliado às perdas decorrentes da intervenção urbana ou de eventos climáticos provocam alertas sobre o risco de diminuição da cobertura vegetal na metrópole. De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), Belém conta com cerca de 120 mil árvores, no entanto, a situação da arborização ainda preocupa, sobretudo após o recente desabamento de 22 árvores e a queda da centenária samaumeira do Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN).
Apesar da situação chamar a atenção, a doutora em Ciências Agrárias e pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, Noemi Vianna Leão, explica que a perda de vegetais faz parte do seu ciclo natural de vida, contudo é possível tomar medidas de amparo e de redução dos danos provocados pelas condições do clima e pela urbanização.
“Nossa região tem um regime pluviométrico muito elevado, temperaturas e umidade relativa do ar muito altas, o que propicia a ocorrência de pragas e doenças. Outros fatores que influenciam é a falta de manutenção dos canteiros onde essas árvores estão. É comum encontrar cimento na base de árvores, o que impede a drenagem da água, e outras construções que enfraquecem o vegetal”, explana Noemi, que ressalta o papel que os gestores devem ter nessa área.
“Recomenda-se um Plano de Manejo de todas as árvores plantadas na cidade, e um mapeamento com os dados dendrológicos de cada indivíduo arbóreo. Essas informações podem ser obtidas através de um inventário florestal e do georreferenciamento de cada árvore”, acrescenta.
Noemi é uma das autoras do Manual Técnico de Arborização de Belém, elaborado em conjunto com especialistas de 11 instituições estaduais, federais e municipais, órgãos de classe e entidades do setor privado. Para ela, é fundamental conjugar ações de manejo, reposição de árvores nas áreas onde há carência e a substituição de espécies inadequadas às características das vias.
“Árvores de grande porte devem ser plantadas, preferencialmente, em praças públicas e canteiros centrais largos, desde que não possuam frutos pesados. Nos canteiros centrais médios, pode-se plantar espécies de médio porte como o pau preto, os ipês, etc. Nas calçadas estreitas temos a opção de árvores de médio e pequeno porte, como ipezinho e outras que constam na lista no Manual”, exemplifica a pesquisadora.

Outros fatores levados em conta no estudo são o processo de caducifólia, que é a perda de folhas, bem como aspectos paisagístico e ambiental. “É importante ressaltar que devemos escolher sempre árvores com floração bem colorida para dar um visual bonito na cidade, além da sombra e de tantos outros benefícios que as árvores nos oferecem”, complementa Noemi Leão.
Espécies típicas da Amazônia estão sendo plantadas na capital
Para contornar o problema da arborização na cidade, a Semma afirma que tem atuado em três frentes de trabalho, que envolvem o acompanhamento e vistoria das árvores, a apuração de denúncias relacionadas à arborização e o mapeamento dos bairros para identificação de indivíduos que necessitam de retirada, poda ou outros cuidados. Além disso, o órgão defende que o plantio na cidade seja pautado pelo que é descrito na lei de arborização.

“A gente preza pela orientação no que se refere à arborização. A secretaria não impede que ninguém plante algo na frente da sua casa, em um quintal ou terreno abandonado, mas é importante que nos procure para que as equipes técnicas possam prestar os esclarecimentos. Entendemos que junto com a população esse trabalho é mais interessante”, afirma Leonardo de Jesus, diretor geral da Semma.
Com base nessa perspectiva, a ideia é ampliar a cobertura vegetal e incentivar a diversificação das árvores na paisagem, privilegiando espécies típicas da região e mais bem adaptadas às condições do clima e do solo local, como é o caso do uxi, umari, pau preto, copaíba e outras.
“Nós temos um problema com a espécie fícus, que a população gosta de plantar porque é possível dar forma a copa dela. Contudo, existe já uma proibição em relação a esse plantio porque o fícus tem raízes superficiais, sem sustentação e que acabam obstruindo e danificando calçadas e tubulações. Nesse plano, a gente busca priorizar os vegetais que tenham raízes profundas e que não causem esse tipo de problema”, explica o diretor.
Leonardo de Jesus ressalta ainda que o estímulo a maior variação de espécies não compromete as ações de preservação e replantio de mangueiras, quando necessário. Segundo a legislação municipal, em caso de retirada de uma árvore desse tipo, é necessário o plantio de outra da mesma espécie no local.
“Continuamos sendo a Cidade das Mangueiras e vamos continuar até porque a legislação obriga. Mas a gente quer trabalhar a diversidade que nos impõe o desafio de fazer essa ordenação. Vamos trabalhar para adequar a espécie ao local que possa comportá-la e, onde não for possível, vamos fazer o plantio com as árvores próprias e adequadas ao nosso clima para avançar nessa cobertura vegetal”, destaca.
Aliado a isso, Noemi Leão avalia que é necessário ampliar o foco das ações, abrangendo, por exemplo, a educação ambiental nas escolas e fortalecimento de programas de produção de mudas para fomentar o plantio entre os habitantes. “Considero muito importante plantar na cidade diferentes espécies da nossa floresta para possibilitar ao cidadão urbano o conhecimento das espécies que muitas vezes só vemos nas áreas rurais. Sugerimos também o fortalecimento do plantio de espécies de valor cultural, como a cuieira, o guaraná e o pau brasil, e ameaçadas de extinção, a exemplo do pau rosa e pau amarelo em áreas urbanas e que tenham segurança como nas unidades de conservação do município e outros logradouros”.

