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Amazônia urbana revela mosaico de diversidade e formas de resistência

Identidade amazônida se fortalece no combate à dicotomia entre o humano e a natureza

Fabricio Queiroz

Em mais de 5 milhões de km² da Amazônia Legal, habitam 29,6 milhões de pessoas, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o ano de 2021. No comparativo com o ano de 1972, quando o número de habitantes da região era de 8,2 milhões, o aumento observado foi de 260% em cerca de 50 anos. Apesar do quantitativo humano amazônida estar em crescimento e essa população estar em sua maioria habitando zonas urbanas – são cerca de 75% nessas áreas -, não é essa a imagem que prevalece.

O status de maior floresta tropical do mundo, a biodiversidade da fauna e da flora ou mesmo títulos errados do ponto de vista científico, como “pulmão do mundo”, parecem sempre sobressair quando a região é mencionada. O incômodo com a prevalência do verde sobre todos os outros tons que compõem a vida da Amazônia tem contornos que revelam um amplo debate sobre a relação entre o homem e a natureza.

O doutor em Sociologia e Ciência Política e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), Rodrigo Peixoto, explica que desde o século XX predomina uma visão de desenvolvimento em que aspectos como o automóvel, as rodovias e os empreendimentos imobiliários são centrais. Ou seja, se estabelece uma dicotomia entre esse modelo e a dinâmica já existente em regiões onde a natureza tem um papel importante, como a Amazônia. “O homem se coloca em confronto com a natureza, com essa cultura ainda muito vigente de abrir clareiras na floresta para dominar a natureza. Em vez disso, a gente poderia trabalhar com ela e não para controlá-la ou dominá-la”, afirma o docente.

Para ele, um dos efeitos observados é a divisão da cidade, com nichos com maior acesso à infraestrutura e aos serviços essenciais, enquanto aumentam as ocupações em favelas e baixadas, onde a maioria dos moradores são populações já marginalizadas, sobretudo pretos e pardos. Peixoto entende que essa segregação é sintomática das diferenças sociais e culturais, que ignora as peculiaridades de grupos pautados em outros valores.

“Essa negação da alteridade é um traço da colonialidade do poder que não tolera o outro diferente do homo economicus, que o liberalismo concebe e universaliza em todo e qualquer indivíduo como alguém cuja natureza é voltada exclusivamente para a produção e o consumo. Um outro diferente desse padrão, que experimenta solidariedades, generosidades e reciprocidades, como ocorre nos locais de vida popular, não cabe na cidade capitalista. É por isso que essa lógica hegemônica da urbanização despreza os lugares de vida popular e procura varrer dos mapas os lugares em que a solidariedade e as reciprocidades predominam”, argumenta Rodrigo Peixoto.

Mulheres negras da Amazônia - Contra esse processo de invisibilização, segmentos sociais que evidenciam seu pertencimento à vida urbana, mas que não desprezam seus laços com a natureza vem se insurgindo e ganhando espaço na cena política e cultural da região. O movimento Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileiro é um exemplo dessa articulação que transita entre esses diferentes espaços.

A organização já traz em seu nome um compromisso com a necessidade de afirmar a existência de pessoas cuja vida é constantemente ameaçada pelo racismo e a violência de gênero. A Rede Fulanas é associada à uma etnia de origem africana alvo da escravidão e que teve grande representatividade na Amazônia. “Lembrar das fulas é dar esse nome: ‘eu sou uma fula, eu sou uma fulana de tal, eu tenho nome’. Vem nesse tom de indignação, mas também de provocação porque essa invisibilidade não acompanha só as mulheres que são da Amazônia rural, mas também dessa Amazônia urbana”, diz a coordenadora Maria Luiza Nunes.

Compromisso: Rede Fulanas combate as ameaças de racismo e a violência de gênero (André Oliveira / O Liberal)

Para ela, a atuação no movimento social possibilita pensar a vida a partir da perspectiva coletiva, mas que também traz ganhos pessoais. Maria Luiza conta, por exemplo, que foi a partir da sua luta no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) iniciada no ano de 1996, que passou a compreender as origens quilombolas de sua família oriunda do município de Salvaterra, no Arquipélago do Marajó, bem como a sua identidade enquanto mulher negra amazônida.

Hoje, aos 64 anos, a ativista fala com tranquilidade e maturidade sobre os aprendizados que vêm acumulando nessa trajetória. “A Amazônia é uma mulher negra, indígena que não é o coração nem o pulmão do mundo. Ela é um útero que gera, que cria, que cuida, que tem toda uma fertilidade. Começamos a dar significados e provocar outras mulheres para essa reflexão de que esse conhecimento, esse saber, essas vivências, essas rezas, esse jeito de falar é cultura e precisa ser valorizada”, afirma Maria Luiza.

Um dos aspectos que chama atenção no posicionamento das mulheres integrantes da Rede é justamente a clareza de que há vínculos ancestrais, que se tornam ferramentas de resistência contra as violências e as supostas dicotomias entre o humano e a natureza. “Estamos reafirmando não só a nossa existência, mas o legado que a gente carrega dessas mães, dessas avós, dessas mulheres que lutaram muito e que até morreram para que a gente possa estar aqui”, diz a museóloga Angélica Silva, 33 anos, que acrescenta: “A gente não quer que essas mulheres sejam esquecidas e que a continuidade da luta que a gente vem travando também não seja deixada para trás. As mulheres negras da Amazônia existem, elas têm um legado, um legado que é da ciência, que é da mata, que é transformador e que salva vidas”.

Já para a professora de sociologia Letícia Gonçalves, 25 anos, a referência ao passado é essencial, assim como é preciso assumir o protagonismo no presente para que o olhar endógeno seja cada vez mais valorizado. “A Amazônia, para mim, fala muito da questão da autonomia, da gente poder participar, da gente ser independente, da gente poder contar as nossas histórias de uma forma que o restante do país fica querendo falar por nós. A gente está aqui para mostrar que as coisas não foram bem assim e ser amazônida tem muito de protagonismo e de afirmar que nós somos agentes”, declara.

Manifesto artístico e sustentável

A arte também tem sido utilizada como recurso capaz de demonstrar que grupos marginalizados precisam e querem ocupar espaços de visibilidade na sociedade local. Aliando a reflexão sobre o impacto da geração de resíduos e a forma descartável como a vida de pessoas travestis, transexuais e transgêneros é encarada, a atriz Gabriela Luz usa daquilo que é considerado lixo para fazer um manifesto artístico, social e ambiental.

Gabriela é a performer que dá vida à Sarita Themônia, que em suas apresentações chama atenção pela forma inusitada de explorar a arte drag queen. Inclusive, o próprio termo “queen” apreendido em seu sentido literal e sua referência à monarquia é motivo de crítica da artista, que busca construir uma estética própria pautada na realidade da Amazônia.

A primeira experiência ocorreu em 2016, quando Sarita surgiu embalada em papel filme em uma proposta de crítica à plasticidade dos corpos. Depois vieram os copos descartáveis, bitucas de cigarro, latas amassadas, embalagens plásticas e outros objetos que ao invés de se tornarem rejeitos passaram a compor uma alegoria estranha e provocadora.

A mensagem transmitida pela artista Sarita Themônia mostra que a ação humana que desconsidera a natureza é prejudicial para as populações da Amazônia e para o planeta (Arquivo pessoal)

“As minhas referências para esse trabalho, sem dúvida, são os vendedores de bebidas que penduram os seus objetos, suas garrafinhas, suas embalagens para divulgar os seus produtos. Seja nas paradas de ônibus, seja nas portas de festas, os vendedores ambulantes quando vendem os seus produtos, eles penduram no corpo o produto e eu comecei a perceber: ‘que interessante, são pessoas alegóricas que penduram coisas no corpo, mas que mesmo assim não são vistas”, reflete a atriz. “Eu me dei conta que pessoas também são consideradas lixo. Não é só sobre o padrão de consumo ou consumismo, mas a cultura de acúmulo e de descarte, que acumula e descarta pessoas também”, complementa.

Para Gabriela Luz, a arte tem o potencial de mostrar que a ação humana que desconsidera a natureza é prejudicial para as populações da Amazônia e para o planeta, assim como perpetuação de padrões de beleza também repercute sobre aqueles que não se enquadram no espectro da chamada normatividade. “A vivência das pessoas LGBTQIAP+ é de lutas diárias e de uma sabedoria forjada em muitos desafios. Eu acredito que toda essa luta só existe em nome da felicidade, em nome do amor, em nome do respeito às diferenças. Por isso, é essencial que essa luta exista, que nós continuemos existindo para que as pessoas aprendam a nos respeitar”.

Palavras-chave

Amazônia Viva
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