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Cultura paraense ganha força e jeito do Pará traduz identidade e pertencimento

Nas ruas de Belém, paraenses ressaltam valorização da cultura local, do vocabulário à produção artesanal

Gabriel Pires

Da fala ao paladar e do artesanato ao modo de acolher, o “jeito do Pará” se revela na identidade de um povo que aprendeu a ter orgulho de suas origens. Com sotaques marcantes, expressões populares e uma gastronomia reconhecida, paraenses afirmam que viver essa cultura é mais do que tradição, mas  pertencimento. Após ganhar visibilidade, moradores de Belém ressaltam que o orgulho de ser paraense se fortaleceu e hoje se reafirma no dia a dia de quem aqui vive.

A feirante do mercado do Ver-o-Peso Geni Raiol, 49 anos, lembra que, em outros tempos, muitos paraenses evitavam assumir sua identidade cultural por receio de preconceito. Segundo ela, esse cenário mudou ao longo dos anos e, atualmente, a cultura do Pará é reconhecida e valorizada em todo o país. Ela afirma que hoje há mais orgulho em ser paraense, inclusive na forma de falar e nas expressões regionais, como o sotaque marcado e referências típicas do cotidiano local.

“Já existiu um tempo em que o povo não queria ser paraense, não queria assumir a sua cultura, porque, no decorrer do tempo, nem sempre a cultura foi respeitada em todo o Brasil. Hoje em dia é, mas nem sempre foi assim. Então, nós, paraenses, principalmente quem recusou essa identidade, hoje já não sente mais isso. Hoje em dia, a gente sente orgulho de ser paraense, de puxar o ‘s’, com o nosso sotaque, de assumir que é papa-chibé", comenta Geni.

Reconhecimento e valorização

Ela afirma que a cultura paraense é algo natural e que muitas pessoas só percebem essa identidade ao entrar em contato com outras culturas. A feirante destaca ainda que esse processo de reconhecimento envolve mais do que a forma de falar, e também envolve a gastronomia - marcado por pratos típicos como vatapá, maniçoba e até o clássico açaí - e um forte senso de convivência familiar, características que, para ela, definem a cultura do Pará.

“Temos um modo de falar diferenciado, uma expressão diferenciada, uma gastronomia diferente e uma maneira própria de ser família, porque o paraense é muito família. Isso traz a nossa identidade. A gastronomia faz parte da nossa história e da nossa cultura. A forma de preparar os alimentos faz com que o Pará tenha essa história na gastronomia, conquistando o reconhecimento que tem hoje", comenta.

Passado a COP 30, sediada em Belém em novembro do ano passado, Geni conta que o Pará ganhou destaque mundialmente e que os visitantes puderam conhecer e difundir ainda mais a cultura paraense. “Hoje, temos a nossa cultura e o nosso dialeto, que não só existem, como são respeitados e aceitos. Isso já é um grande avanço para não sermos discriminados, porque antigamente a gente era mal visto por falar expressões como ‘égua’, por ser do Norte, por se expressar puxando o ‘s’. Achavam até que éramos de outro lugar”, relata Geni.

image Geni Raiol relembra o passado de preconceito e destaca o fortalecimento do orgulho e da identidade paraense no dia a dia (Foto: Wagner Santana | Amazônia)

Produtos da região também levam a cultura 

Para além das outras marcas da cultura paraense, a empreendedora, Irene Bulhões, que tem uma loja de produtos regionais na Estação das Docas, destaca que as biojoias feitas a partir de matérias-primas naturais e reaproveitadas também são um dos principais símbolos da identidade paraense e que vem ganhando espaço cada vez mais Brasil afora. “A nossa regionalidade também se expressa nas biojoias, porque quase tudo o que produzimos para vender vem da natureza. São coisas que reaproveitamos", comenta ela, que é de Belém.

“O açaí é conhecido mundialmente, mas poucas pessoas de fora sabem que utilizamos os caroços para produzir biojoias e artesanato. Depois da COP, e até alguns meses antes, as pessoas voltaram os olhos para cá, para a nossa cidade, para a nossa cultura, para as nossas sementes e para as coisas que produzimos a partir da matéria-prima da natureza. Antigamente, quem vinha comprar os nossos produtos eram, principalmente, pessoas de fora, que se encantavam com as nossas biojoias. As pessoas daqui também precisam valorizar isso", observa Irene.

image Irene Bulhões aponta as biojoias e os produtos regionais como símbolos da cultura paraense que ganham valorização dentro e fora do estado (Foto: Wagner Santana | O Liberal)

Assim como qualquer paraense, Irene é enfática que a linguagem do paraense também é motivo de orgulho e identidade. “O nosso vocábulo nos define. As nossas gírias e as nossas palavras populares fazem com que pessoas de fora do estado do Pará fiquem encantadas quando chegam aqui e se deparam com o nosso jeito de falar. Por exemplo, ‘égua’. Na região Sul, tem outro significado. Aqui, para nós, ‘égua’ é algo positivo; ‘pai d’égua’ é uma coisa boa. Eles acham muito interessante esse nosso vocábulo", relata.

Múltiplas influências

Para a psicóloga Rafaela Oliveira, 42, que é paraense, a identidade cultural paraense se forma a partir de múltiplas influências, mas com um modo muito próprio de incorporar essas referências. “Acredito que isso traz muitos traços de outras culturas, mas que nós nos apropriamos disso de uma forma muito peculiar, seja na culinária, nos costumes, nas diferenças religiosas e nos hábitos do dia a dia”.

image Rafaela Oliveira destaca a construção da identidade cultural a partir de múltiplas influências e ressalta o acolhimento como traço do paraense (Foto: Wagner Santana | Amazônia)

Segundo ela, essa identidade também se reflete nas relações humanas e na maneira como o paraense acolhe quem chega. “Isso se incorpora ao nosso jeito de ser, às nossas relações humanas, à forma como nos relacionamos com as pessoas e como acolhemos quem chega à nossa cidade, à nossa casa, e também à forma como vemos o mundo”, destaca Rafaela.

Ela observa ainda que o sentimento de pertencimento tem se fortalecido nos últimos anos, especialmente no que se refere à valorização da identidade amazônica. “Acredito que agora estamos conseguindo nos apropriar mais disso e levar essa autoestima para o povo paraense. Estamos conseguindo levar nossos hábitos e nosso jeito de ser para outros lugares, para que as pessoas realmente nos entendam como somos”, destaca.

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