A difícil arte de ficar calada

Enquanto algumas pessoas têm dificuldade de falar em público, outras pessoas não conseguem calar

Márcia Ledo

Para algumas pessoas o grande desafio da vida é falar em público. E nem precisa ser um grande público, bastam dois pares de olhos lhe focarem que a pessoa observada já trava. Tenho um primo (espero que ele não me leia aqui porque fatalmente vai se ver), que travou geral no aniversário de casamento dos pais. Na hora de ele falar na festa, diante de todos, parou, olhou para eles e....e.... e....nada! A esposa tentou ajudar, sem sucesso. Simplesmente ele não conseguia falar o que tinha ensaiado tão bem no dia anterior. Sabia o texto de cabeça, ensaiou com a esposa várias vezes todas as palavras mais lindas, mas quando o branco vem, puft! Some tudo da cabeça. É impressionante e, para mim, curioso.

Para outras pessoas, assim como para mim, o grande desafio não é falar, é calar! Estive nesse final de semana realizando um trabalho de consultoria no qual eu precisava ouvir as pessoas e permanecer calada. Que desafio enorme! Não poder dar opinião no grupo era a minha missão quase impossível. Em vários momentos desses dois dias de trabalho eu pensei que preferia estar com 500 pessoas na minha frente para argumentar com elas do que permanecer calada diante de 5 mortais. Pior que isso: olhar para os problemas que eles discutiam querendo sugerir uma solução e não poder fazer isso. Eu precisava ficar calada!

Isso me lembrou a dificuldade que vivenciei durante a minha formação em Coaching, processo que se utiliza de perguntas e no qual, o Coach, também não pode dar opinião e nem influenciar o Coachee (seu cliente). Desesperador! Disse ao meu professor e grande mestre da área, o master Ricardo Abel Tavares, que eu não seguiria a carreira de Coach em hipótese alguma porque não conseguiria deixar de opinar nas decisões do Coachee, ou seja, de me manter com cara de papel A4 enquanto a outra pessoa busca soluções em si mesma. 

Meus pais contam que demorei muito a começar a falar. Queriam me levar a um especialista da fala no Rio de Janeiro porque eu já estava com quase 3 anos de idade quase muda. Em compensação, quando comecei a falar foram frases inteiras, e não parei até hoje. Tenho lembrança de estar no carro com meu pai e ele dizer: "Marcinha, ninguém precisa falar o tempo todo". E eu respondia: "Eu quero falar! Eu gosto de falar!" 

Como são diferentes os seres humanos. Para meu primo, passar um dia calado observando a vida é a tarefa mais fácil do mundo. Para mim, ficar calada talvez seja o meu maior desafio. Estou trabalhando nisso, o autocontrole sobre o falar e o calar, numa campanha interna e pessoal cujo título é FALE COM MODERAÇÃO e CALE-SE SEMPRE QUE PUDER.

O Liberal
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