Administrar bem o tempo vira tarefa essencial na quarentena

Isolamento social aumenta carga mental de quem trabalha em casa

Tainá Cavalcante

A pandemia tem colocado a sociedade em confronto com uma realidade totalmente adversa: a única forma de combate da doença, até o momento, é ficar em casa. Não há remédio que cure ou vacina que previna, não há espaços públicos seguros, mesmo com o uso de todos os Equipamentos de Proteção (Epis). Estar em casa, entretanto, para muitas pessoas, com ênfase para as mulheres, é sinônimo de jornada dupla – ou quem sabe tripla, quádrupla, quíntupla?

Conciliar a vida profissional com os afazeres domésticos e educativos dos filhos se tornou regra na maioria das casas. É preciso se virar em muitas para dar conta de tudo. Não que essa seja uma realidade nova no Brasil: dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, mostram que as mulheres realizam serviços domésticos durante 18,5 horas por semana, em comparação com 10,3 horas semanais gastas pelos homens. Ainda não há dados sobre essa realidade no período da pandemia do novo coronavírus, que impõe que não só as crianças, mas também a maioria das pessoas fiquem em casa, demandando mais cuidados - e, consequentemente, tempo.

Para a psicóloga Vânia Celedonio, o tempo é, justamente, o maior desafio dos administradores do lar nesse período. "São muitas tarefas que dependem apenas daquela pessoa. Antes, quando ela saía, ela deixava a criança na escola, tinha apoio da professora, quando ia para academia tinha profissional para orientar atividades físicas, quando ia para aula ela tinha um professor. Agora ela tem que administrar esse tempo para fazer as atividades sozinha, porque ela não pode mais contar com tanta frequência com outros personagens", avalia, ao lembrar que, além disso, "tem a questão da automotivação, porque é um gasto de energia muito grande e às vezes você está cansado, desanimado e não quer gastar energia com coisas que não vão te gerar tanto prazer, como por exemplo assistir uma série, ver um filme, ficar deitado na cama". "Lutar contra essa desmotivação é necessário", completa.

A jornalista e funcionária pública Glauce Monteiro, 33, tem sentido na pele essa sobreposição de tarefas. Mãe de dois meninos, Erick, de nove anos, e Adrick, de seis, ela precisa driblar as adversidades para conseguir continuar sua rotina.

"Eles não têm mais a escola, não têm mais curso presencial dos bombeiros, não têm mais a aula presencial de inglês. Eles não saem de casa há quase dois meses. A gente se preocupa com essa ausência das atividades, principalmente da escola", admite, ao contar que foi preciso readaptar horários para todas as atividades serem cumpridas.

No tempo livre, Glauce aproveitava para se divertir com os filhos, mas o diagnóstico suspeito para o novo coronavírus impôs mais essa limitação. "A gente conversava, montou um kit de jogos, lia algumas coisas, mas agora, como estou com suspeita, tenho que ficar isolada e não tenho mais praticamente nenhum contato com eles", lamenta, reforçando que “é um desafio entreter as crianças, tentar dar andamento nesse processo de educação, ouvir teu filho chorar e não poder sair correndo para ficar com ele".

Mesmo diante de tantas adversidades, Glauce acredita que a pandemia veio ensinar muita coisa. "Quando tudo isso acabar, tudo o que a gente passou durante a pandemia tem que ser usado para construir um novo jeito de viver. De certa forma, eu acho que temos que ser gratos por ter a chance de repensar isso e seguir a diante".

PRESENÇA

Juliany Leite e as trigêmeas Maria Fernanda, Maria Vitória e Maria Manuela: rotina alterada pelo isolamento social (Arquivo pessoal)

Mãe das trigêmeas Maria Fernanda, Maria Vitória e Maria Manuela, de dois anos, Juliany Leite, 24, também vive um momento adverso com a pandemia, mas os impactos na sua vida foram diferentes: apesar de as filhas ainda não estudarem e, com isso, não haver o comprometimento escolar, como no caso de Glauce, Juliany é maquiadora e a renda foi diretamente impactada com a pandemia.

"A situação financeira é delicada na quarentena", admite, ao ressaltar, entretanto, que "a gratidão de poder passar mais tempo com elas é fundamental". "Estar presente em casa mudou completamente a minha rotina com as minhas filhas. Elas estão com dois anos e nessa fase elas mudam constantemente, evoluem, estão cada vez mais espertas nas atividades que fazemos juntas. Como só iniciariam a escola ano que vem, o que mudou foi as caminhadas e brincadeiras que faziam na área de lazer do prédio e os passeios em praça e shopping que deixavam elas felizes e menos estressadas", detalha.

Sobre os desafios desse período, Juliany conta que os dias "têm sido difíceis e prazerosos também". "Não sou o tipo de mãe que romantiza completamente a maternidade. Precisamos ser realistas. O ponto positivo da quarentena é: ter mais tempo para os nossos filhos, estar mais presente, sem precisar sair para trabalhar. O negativo é: crianças se entendiam com facilidade e nossa criatividade acaba tendo limite (risos)", conta, ao citar o que tem feito para entreter as trigêmeas. "Ter três bebês com a mesma idade é algo delicado, geralmente o tédio, a irritação, o sono, a fome, tudo vem ao mesmo tempo, mas buscamos diversificar as atividades, como pintura com giz de cera ou com tinta (bastante sujeira, que elas amam), maratonas com desenhos educativos na TV e aplicativos educativos no celular. Além de banhos na piscina de plástico na sacada do apartamento".

A maquiadora também aproveita o tempo para observar o que quer, daqui para frente, mesmo após a pandemia, continuar mantendo na família. "Com certeza, a partir de agora, quero valorizar a nossa união e incentivá-la cada vez mais", afirma, contando que "a rotina que vivíamos sempre foi exaustiva e nos tomava um tempo precioso com a nossa família".

DESGASTE EMOCIONAL

Para a psicóloga Vânia, além do cansaço físico, é preciso estar atento ao desgaste emocional provocado pela crise mundial. "Essa sobreposição de tarefas pode trazer como impacto um desgaste emocional, porque quando você não consegue seguir uma rotina, fazer uma boa administração de tempo, não consegue dar conta sozinha de algumas atividades, o que é muito normal, mas a gente se culpa, se cobra, e essa relação com a culpa tem que ser trabalhada emocionalmente", afirma, ao orientar que as pessoas sempre se auto avaliem. "Você está dando o seu melhor? Está se esforçando? Entregando seu máximo? Às vezes, o resultado não vai ser o esperado, mas você tem que lembrar do seu nível de empenho e dedicação".

É necessário, para isso, cuidado total com as nossas emoções, como propõe a especialista. "Cuidar das nossas emoções, ainda mais nesse momento que estamos vivendo muitos lutos em todos os sentidos, de ver pessoas próximas adoecendo, algumas mortes, isso tudo gera tristeza, medo, raiva, negação. Então, a gente já tem que lidar com essas emoções, e ainda mais com essa administração de tempo, motivação, cumprimento de rotina, organização, é muita demanda ao mesmo tempo", pontua, ao orientar que a gente "respire, controle os pensamentos, não cobre excessivamente de si, não sinta culpa quando você tiver convicção de que você deu o seu melhor e tenha fé". "A gente associa muito fé a questão da religião, mas fé é você acreditar naquilo que você não consegue ver. A gente tem que acreditar mais nos nossos esforços e também exercitar a gratidão, olhar o resultado do que a gente tem conseguido e tirar um tempo para agradecer também", acrescenta.

Por fim, Vânia dá algumas dicas para quem está com essa sobrecarga de tarefas. "É interessante incluir atividades hipnóticas na nossa rotina, o que envolve relaxamento e concentração, tipo meditação, oração, reza, conexão com a natureza, nem que seja só olhar para o céu", indica, ao explicar que "a concentração e o relaxamento liberam vários neurotransmissores, como dopamina, serotonina, endorfina, que geram bem estar".

Conduzir os filhos juntos nessas experiências, segundo ela, também pode ser algo positivo, "mas é preciso respeitar a subjetividade da criança". "O que essa criança gosta de fazer que faz com que ela se sinta relaxada? Tem criança que já medita! Então, procurar aplicativos voltados pra idade dela e apresentar como algo lúdico, numa linguagem infantil, trazer a criança para esse mundo para que ela também tenha essas experiências, já que essas atividades ajudam não só a liberar esses neurotransmissores, como também no controle de pensamento e na mudança de hábitos ruins, como já foi comprovado cientificamente".

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