'Ser mãe é o maior fenômeno da natureza!'

'Adoraria ter mais filhos, se pudesse tê-los. Adoção é uma ideia que permanece na minha cabeça', revela a atriz paraense Dira Paes

Lorena Filgueiras

Dira Paes é uma mulher forte fora e dentro da tela – onde, atualmente, vive Janaína, na novela Verão 90, uma mulher que lida com as dificuldades, sem perder a doçura e o olhar esperançoso, ao mesmo tempo em que, como mãe, vive dividida entre caráteres tão distintos de seus dois filhos. Na vida real, Dira é mãezona de Inácio e Martim. Discreta, ela se abre em amor e sorrisos, quando o assunto é a maternidade – um desejo de uma vida inteira, que ela realizou “no momento certo”, como afirmou no papo que tivemos.

Dira Paes se abre em amor e sorrisos quando o assunto é a maternidade – um desejo de uma vida inteira e que ela realizou, como diz, “no momento certo".

 

 

 

 

 

Dentre outras revelações (inclusive gastronômicas), a atriz falou do sonho de adotar (“adoraria ter mais filhos!”), sobre como gostaria de ter um país mais justo para seus meninos e da emoção dos reencontros com Belém. Conversar com Dira é um afago, porque mesmo entre gravações em ritmo intenso e horários apertados, ela reservou um generoso espaço de tempo (e na companhia dos filhos) para atender a Troppo + Mulher.

Troppo + Mulher: Você está no ar em Verão 90 - que, penso eu, foi um período bem significativo, porque coincide com tua chegada justamente ao Rio. Como tem sido reviver aquela época, Dira? Te evocou saudades?

Dira Paes: Os anos 90 foram muito marcantes para mim, porque eu vim [para o Rio de Janeiro] pra fazer cinema. Chego no final dos anos 80 e justamente nos anos 90, é extinta a Embrafilme [fechada em 1990, pelo presidente Fernando Collor, devido ao programa nacional de desestatização, a Embrafilme foi extinta justamente às vésperas do lançamento do filme “Dias Melhores Virão”, dirigido por Cacá Diegues] e o Cinema para no Brasil – e é neste momento em que eu ingresso na Faculdade UniRio. Me formo e volto para o Cinema, com sua retomada, em 1994. Em 1995, fiz minha primeira novela de verdade, que foi ‘Irmãos Coragem’ [Dira viveu a personagem Potira] e começo a fazer Cinema sem parar e tenho um grande momento de vida: o volume de filmes que eu consegui fazer até o ano 2000, então, na década de 90, culturalmente falando, foi incrível e percebi que havia feito a escolha certa e tive certeza de que queria fazer isso pro resto da minha vida. É como se a gente precisasse reafirmar sempre nossos objetivos e os anos 90 foi quando tive a certeza de que estava trilhando o caminho que sempre desejei.

T+M: Você vive a Janaina, uma mulher lutadora, cozinheira de mão cheia e mãe dividida entre o amor e conflitos éticos com o filho. Te pergunto, a partir daí: como boa paraense, cozinhas? Qual teu prato-cartão de visita e que tranca elogios de convidados?

DP: A Janaína é um presente das autoras pra mim! Eu fico realmente muito emocionada em ter recebido esse convite do Jorginho Fernando. A novela é um momento de... não é bem ‘saudosismo’ o que eu quero falar. Verão 90 é uma visita a um passado tão próximo, mas como é pré-vida tecnológica, pré-celular, a gente vê ainda relação olho no olho muito presente. A novela faz pequenas homenagens, mas fundamentais, para a nossa geração. Essa coisa de ser cozinheira é legal, porque eu gosto de ir pra cozinha de vez em quando. Não há como negar: o prato que eu faço melhor é a maniçoba mesmo! Mas sou daquelas que mete a cara na cozinha! Só me dar um desafio, que eu vou atrás! Agora a minha maniçoba (risos) é o prato que mais arranca elogios dos meus convidados, mais surpresas... E finaliza servindo o nosso açaí verdadeiro. Aí, as pessoas realmente se deliciam!

T+M: Costumamos dizer que é fácil reconhecer um paraense chegando em outra cidade - basta acompanhar os isopores nas esteiras dos aeroportos. Te identificas com esse quadro? O que levas de Belém toda vez que voltas para o Rio?

DP: Eu consigo reconhecer um paraense de longe! E não é pelo isopor, não. É que quem chega do Pará traz seu isopor... aliás, o isoporzinho é o melhor amigo do paraense! Mas eu reconheço o paraense pelos olhos, pelos cabelos, pelo tom da pele. Eu vou lá e pergunto: ‘você é do Norte, não é?’. E, geralmente, não dá outra! Eu me reconheço paraense, não somente pelas referências culturais... a minha aparência é bastante paraense, né? Eu sou uma típica paraense! No meu isopor vem sempre: peixe, camarão, jambu, tucupi, maniva... às vezes, vem maniçoba pronta, das minhas irmãs, açaí e, por vezes, vem um isopor só com picolés! (ela ri) Sempre o que eu puder trazer, eu trago! Além de polpa de fruta, doce de cupuaçu...

T+M: Aliás, quando chegas a Belém, qual a primeira saudade que sempre satisfazes? 

DP: A primeira que gosto de fazer, quando chego a Belém, é dar uma volta no Ver-O-Peso. Eu só me sinto em casa, se eu passar pela Cidade Velha, pelo Ver-O-Peso, pelo comércio... se eu puder olhar a Baía, especialmente quando chove! Aí, é que eu digo: ‘Cheguei!’. O cheiro da chuva é muito típico e isso me emociona bastante!

T+M: A maternidade sempre foi desejada, Dira? O que mudou, da tua visão de mundo, após a chegada dos meninos? Gostarias de ter mais filhos? Como é a Dira mãe?

DP: Eu sempre desejei ser mãe! Quis a vida inteira! E aconteceu no momento em que tinha que acontecer, com a pessoa certa! Eu me sinto muito realizada em ter dois filhos lindos. Tive a chance de poder ser uma mulher já estabelecida profissionalmente, quando fui mãe. Acho que isso dá uma tranquilidade muito grande para a mulher e sinto que também a minha vida começa de fato, quando me torno mãe. E é uma sensação que se transforma quase como num automático. Você aprende a ser mãe do dia para a noite! É um fenômeno! E ele é instintivo. E depois você vai amadurecendo as relações com os filhos e isso é uma descoberta ao longo do tempo. Adoraria ter mais filhos, se pudesse tê-los. Adoção é uma ideia que permanece na minha cabeça. Por um momento, achei que talvez não conseguisse ter meu segundo filho e agora, sim, eu tenho vontade de ter mais filhos... mas, por enquanto, estou vivendo a delícia da infância do Martin, que está com três anos e é um menino muito especial! O Inácio acabou de fazer 11 anos e é um garoto que tem o maior interesse pelos assuntos de Arte, então a gente consegue ter um diálogo quase de amigos sobre o assunto. Ser mãe é um fenômeno! É o maior fenômeno da natureza!

“Adoraria ter mais filhos, se pudesse tê-los. Adoção é uma ideia que permanece na minha cabeça!”

T+M: Qual é tua mensagem às mulheres, e à sociedade como um todo, neste dia dedicado às mães?

DP: Ah.... nós somos, de fato, sobretudo, fortes! Porque nós conseguimos, de uma maneira muito habilidosa, nos dividir entre casa, trabalho e afetos. Tenho muito orgulho e admiração daquelas mulheres que conseguem fazer isso com o mínimo de recursos. Isso me impressiona muito! E faz com que eu me espelhe muito naquelas que conseguem fazer o milagre da multiplicação dos pães em suas casas. Elas me inspiram! Dedico esse dia das mães às mulheres que conseguem ser maravilhosas, mesmo recebendo um salário mínimo – isso prova que existe um valor muito maior que o material, quando se trata de maternidade, que é o valor de mãe.

“Me espelho muito naquelas mulheres que conseguem fazer o milagre da multiplicação dos pães em suas casas. Elas me inspiram! (...) isso prova que existe um valor muito maior que o material, quando se trata de maternidade, que é o valor de mãe.”

Eu sempre desejei ser mãe! Quis a vida inteira! Me sinto muito realizada em ter dois filhos lindos. (Acervo pessoal)

 

 

 

 

T+M: Quais são teus planos para o futuro?

DP: Num futuro próximo, depois da novela, adoraria ter férias! Mas, pensando mesmo mais à frente, tenho três filmes a serem lançados, que são: “O Divino Amor”, do Gabriel Mascaro; “Veneza”, do Miguel Falabella e “Pureza”, do Renato Barbieri. Tenho alguns projetos a realizar... e eu me sinto sempre numa eterna sensação de recomeço, um pouco do mito de Sísifo que mostra que, na verdade, a gente tá sempre começando um novo ciclo. Sempre olho com olhar de “é a primeira vez” e com o espírito aguerrido de que as coisas vão dar certo.

T+M: Te consideras realizada?

DP: Estou trilhando um caminho. Acho que não cheguei a um lugar – estou sempre no caminho e, sem dúvida alguma, tenho que reconhecer os pontos muito positivos que já atravessei e que venho atravessando... mas sempre acho que estou no recomeço de tudo. Pra mim, é desafiador e, ao mesmo tempo, é o desafio que faz com que a gente tenha disposição para continuar e ir além do que a gente imaginou. Acho que tenho muitas surpresas e outros caminhos a serem conquistados na minha carreira. Procuro manter o frescor pela vontade de viver! Quero que meus filhos cresçam em um país melhor, mais digno, menos preconceituoso, menos racista e menos violento. Na verdade, essa utopia é um grande desejo de vida! Quem sabe, um dia a gente chega lá! Um grande beijo a todos e obrigada!

Troppo