Acessar
Alterar Senha
Cadastro Novo

Dia do Chocolate

Do plantio do cacau à sua transformação em chocolate. Saiba mais sobre o alimento produzido na Amazônia.

Bruna Lima

Cacau: o novo ouro do Pará

Estado ocupa a liderança como produtor do fruto e vai implementar programa de internacionalização do cacau

Dia 7 de julho é o Dia Mundial do Chocolate e não dá para falar de um dos alimentos mais consumidos no mundo sem falar da matéria-prima, o cacau, que atualmente tem o Pará como o maior produtor do País. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), no ano passado, o estado produziu 144.325 toneladas de amêndoas secas, em uma área plantada de 191.256 hectares. A produção gerou 260 milhões de dólares e, consequentemente, arrecadação de 97 milhões de reais em Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS). Para 2021, a expectativa é que se chegue a 147 mil toneladas produzidas no Pará.

Semente do cacau é a matéria-prima para o chocolate (Thiago Gomes)

Ivaldo Santana, coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Cacauicultura (Procacau), da Sedap, explica que a arrecadação do Pará pode se multiplicar caso a rota da matéria-prima mude, pois, hoje, o cacau produzido no Pará faz um caminho mínimo de exportação. Atualmente, 80% da produção do estado vai para Bahia e Espírito Santo, 15% para São Paulo, 3% vai para o Japão, Holanda, Áustria e Alemanha e 2% para as fábricas artesanais paraenses. Ou seja, apenas 3% são exportados, já que a maior parte vai para os estados vizinhos e de lá é feita a exportação. Ivaldo explica ainda que esse fator se deve a alguns critérios de exigências de países importadores do produto.

“No ato da compra do cacau os países estrangeiros fazem uma série de exigências, como filmagem da área de plantação para mostrar o cultivo e comprovar que não são realizados usos de agrotóxicos, e estes arquivos precisam ser bilíngues. Mas além disso são feitas outras exigências que o pequeno produtor não tem estrutura para atender”, explica o coordenador. De acordo com ele, 95% dos produtores de cacau pertencem à agricultura familiar, que são pequenos produtores que cultivam em aproximadamente sete hectares.

Matéria-prima para o chocolate, o cacau é produzido por pequenos agricultores no Pará. A expectativa é que o estado produza 147 mil toneladas do fruto este ano. (Thiago Gomes)

A pequena parte que é exportada do Pará são de cooperativas da região da Transamazônica e Xingu. Essa falta de estrutura e investimento para os demais produtores resulta em perdas consideráveis, conforme pontua Ivaldo. “Vamos dizer que o quilo das amêndoas secas enviadas do Pará para Bahia custe R$12,00 e as enviadas das cooperativas para os países vizinhos custe R$35,00 o quilo”, exemplifica.

A principal barreira de tudo isso é a falta de estrutura e capacitação dos produtores. O coordenador da Procacau diz que a Sepad já está com um programa de internacionalização do cacau para promover cursos e fomentos a estes trabalhadores. Neste caso, o trabalho é realizado junto a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater).
Paulo Lobato, coordenador técnico da Emater, explica que o órgão realiza o trabalho de acompanhamento técnico nas lavouras em suas diversas etapas: orientação e práticas culturais, o que inclui os cuidados com relação a colheita e beneficiamento do cacau, até a parte de fermentação e secagem da amêndoa.

“Essas duas atividades são fundamentais para garantir o chocolate de qualidade. E a Emater atua no acompanhamento técnico durante todo calendário agrícola, acesso ao crédito rural com projetos e agentes financeiros de acordo com a demanda de recurso nas roças de cacau”, explica Paulo.

O chocolate do Pará tem dois grandes trunfos: é feito na Amazônia e faz uso da matéria-prima com maior produção nacional (Thiago Gomes)

Chocolate paraense é promissor no mercado 

O Pará tem a matéria-prima em mãos para produzir o segundo produto mais consumido no mundo, o chocolate, que só perde para a cerveja. O dado é do vice-presidente da Associação de Produtores de Chocolate no Pará (Acopa), Júlio Lobato. Mas, o contraditório é que a maior parte deste alimento vem de países estrangeiros. Atualmente, o estado todo conta apenas com nove produtores de chocolate.

Júlio é proprietário da Kakaw Chocolates da Amazônia e um dos nove empresários que produzem chocolate artesanal no estado. Ele faz parte do movimento que comercializa produtos com matéria-prima local. “O movimento inverso já é histórico, é comum a gente exportar a matéria-prima e consumir o produto importado. Isso ocorre com o cacau, acontece com o minério, com a madeira e entre outras riquezas”, destaca o empresário.

Para ele, o chocolate do Pará tem dois grandes trunfos: é feito na Amazônia e faz uso da matéria-prima com maior produção nacional. “É um produto que não tem como dar errado. É cultural consumir produtos importados e industrializados, mas já está na hora de mudar essa visão. Temos que começar a valorizar os produtos com a nossa matéria-prima”, reforça o produtor de chocolate.

Julio Lobato é um dos produtores de chocolate artesanal do Pará (Thiago Gomes)

O diferencial do chocolate do Pará para o importado é que o produto não contém gordura trans e outros tipos de gordura. Já o importado, além de ser rico em gorduras prejudiciais à saúde, leva açúcar e outros produtos industrializados.
Incentivo

O crescimento deste tipo de negócio depende de um fator cultural. Pensando nessa questão de mercado, o Sebrae vem apoiando os produtores de cacau nos certificados de origem (Indicação Geográfica), abertura de novos mercados, com participação em feiras e eventos do setor, além do trabalho de gestão das propriedades rurais, com os controles de custos e de fluxo de caixa da propriedade.

De acordo com Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no Pará, a instituição tem um olhar especial com relação ao mercado da matéria-prima do chocolate, o que favorece toda a cadeia produtiva.

Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no Pará, pontua que a instituição tem projetos que favorecem toda a cadeia produtiva do cacau (Carlos Borges)

“Inclusive, estamos aguardando a aprovação pelo governo do estado sobre a Indicação Geográfica do cacau da região da Transamazônica, cuja produção torna o Pará o primeiro do Brasil na produção do fruto. Na região do Capim, o Sebrae atua no projeto de Cacau agroflorestal de Tomé Açu, cujo diferencial é o extenso trabalho da indicação geográfica e desenvolvimento local e territorial para as famílias envolvidas. Foi a primeira IG concedida pelo INPI a um produto do estado do Pará”, explica Rubens.

Dona Nena seguiu a tradição dos pais na produção do cacau e decidiu vender barras de chocolate (Thiago Gomes)

Do Combu para o mundo

Fábrica realiza desde o cultivo e colheita do cacau até a sua transformação em barras de chocolate e  outros produtos para venda

Quem conhece a Ilha do Combu, em Belém, sabe que além das belezas naturais o local tem um patrimônio de cultura para o estado - a fábrica de chocolate da dona Nena, uma personagem já conhecida por muitos e que merece ser lembrada pelo trabalho rico e genuíno que realiza na ilha.

Izete dos Santos Costa, 56, a dona Nena, com ajuda de seus colaboradores, é a principal responsável em dar ao Pará a marca de uma produção de chocolate 100% natural. Um chocolate rico em antioxidantes, mas que também é rico em história, em respeito ao lugar e ao cultivo. O consumidor prova a delícia e a cultura local.

Ao ver o alimento preparado para o consumo nos formatos de barras, brigadeiro ou bombons não se imagina todo o processo que é realizado. E dona Nena conta sobre todo ele com propriedade no olhar e domínio do assunto de quem recebeu ensinamentos passados pelos mais antigos.

A história da dona Nena com o cacau é desde sempre, pois seus pais eram produtores do fruto e ela sempre os ajudou no processo de colheita, fermentação da semente, até passar para o atravessador. “Mas a gente sempre reservava um pouco da semente para fazer o chocolate da família, que era um chocolate feito no pilão. Nessa época, o cacau era a nossa principal moeda aqui, o açaí não tinha o valor que tem hoje”, destaca Nena.

Com a matéria-prima, a família de dona Nena já fazia uma diversidade de receitas. Ela recorda do chocolate quente feito com gema de ovo e farinha de tapioca, do pão de cacau e de outros pratos que seus pais tinham orgulho de oferecer para quem visitasse a residência.

Chocolate de Dona Nena é feito em um processo artesanal, que dura 20 dias (Thiago Gomes)

“Aqui na comunidade sempre buscamos a melhoria de renda, de realizar trabalhos paralelos além da venda de açaí e outras matérias-primas. Foi quando no início dos anos 2000 fomos convidados a participar de uma feira de venda de produtos, e tivemos a ideia de trabalhar com biojoias. Mas não tivemos sucesso, pois muita gente já vendia o produto”, recorda a produtora.

Persistente em tentar melhorar a renda da família, dona Nena ficou batendo cabeça até que resolveu levar a barra de chocolate rústica, batida no pilão. A receptividade foi boa na feira, porém, esbarrou na vigilância sanitária, já que a técnica realizada para o processo era o pilão e o receio é de que fossem resquícios de outras matérias-primas em meio ao produto e causasse algum dano ao consumidor.

Persistência

Foi em meio a dificuldade que dona Nena começou a criar estratégias e ir em busca de técnicas para poder vender a barra de chocolate com segurança. “Passamos a moer o nibs de cacau no moinho. Foi uma longa caminhada de queimar liquidificador, inventar máquina, queimar máquina, até que cheguei no moinho manual, usado para moer maniva e outros produtos. Deu tão certo a técnica que foi nesse momento que passei a usar o chocolate 100% cacau nos meus produtos”, conta dona Nena.

Desde este momento, a moradora da ilha engrenou com a atividade e não parou de inventar e crescer com a fábrica. “Fui apresentada ao chef Tiago Castanho e ele me ajudou bastante com informações, e a coisa não parou mais. Já fiz vários cursos e hoje em dia a fábrica segue com a produção”, acrescenta.

Cursos e troca de experiências com chefs de cozinha ajudaram a alavancar os negócios da produtora (Thiago Gomes)

Até hoje a dona Nena usa o moinho como forma de atrativo turístico para mostrar o processo rústico do preparo do chocolate. Em 2017, ela migrou para o uso de máquinas, ainda assim é um processo artesanal, feito por máquinas de pequeno porte.

Com a pandemia, ela reduziu em praticamente 80% sua produção nos últimos meses, mas no final do mês de junho o movimento já começou a mudar e ela espera por um julho mais promissor. “Já estamos sentindo a mudança no movimento e a tendência é que o cenário melhore”, pontua.

Dona Nena sabe onde quer chegar com seu chocolate. Ela diz que hoje o produto já circula em vários estados do país e até por alguns países, mas a real intenção da produtora não é levar o seu produto para fora e sim atrair pessoas até a sua fábrica, na Ilha do Combu.

Chocolate artesanal da Amazônia 

A seguir, confira todo o processo de produção do cacau ao chocolate da Ilha do Combu. 

Passo a passo da produção de chocolate no Combu

Conteúdo patrocinado
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!