Violência sexual contra crianças e adolescentes marajoaras é discutida em evento

Menos de 50% dos casos de crimes sexuais contra crianças e adolescentes do Marajó é denunciado. A média nacional é de 20% de subnotificação

Victor Furtado, com informações da Prefeitura de Chaves e Ministério Público do Estado do Pará

O arquipélago do Marajó, historicamente, é palco de violência sexual contra crianças e adolescentes. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aponta que o número de casos cresce até 20% ao ano.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que, no Brasil, ocorrem cerca de 100 mil casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes anualmente. Menos de 20% desses casos chegam ao conhecimento das pessoas encarregadas de tomar providências.

A cada período de verão ou feriados prolongados, a situação marajoara piora, devido à presença de turistas brasileiros e estrangeiros. Em 2017, foram registrados 365 casos em 8 dos 16 municípios marajoaras. Estima-se que 50% do total de casos nunca seja denunciado, segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup). A média marajoara é muito superior à média nacional.

Nesta quinta-feira (14), no município de Chaves, na localidade de São Sebastião de Arapixi, em Chaves, foi realizado o "IV Encontro - Diálogos do Ministério Público do Estado do Pará com a Rede de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente no Combate à Violência Sexual no Arquipélago do Marajó".

O evento foi uma realização do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), em conjunto com com apoio da Secretaria Municipal de Assistência Social de Chaves. Foi uma articulação entre o poder público e a sociedade no combate à violência sexual contra crianças e adolescentes. 

Betânia Barbosa, titular da pasta de Assistência Social de Chaves, ressaltou a necessidade de conscientização e participação da sociedade para combater os crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Sobretudo da população ribeirinha. Embarcações foram disponibilizadas para que comunidades mais afastadas participassem do evento.

Entre ações que vêm sendo tomadas em Chaves estão qualificações com técnicos da Secretaria de Assistência, do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Os profissionais foram preparados para orientar as famílias sobre possíveis sintomas de abusos sexuais.

Prefeitura disponibilizou embarcações para transportar comunidades ribeirinhas mais afastadas para participar do evento (Aldirene Costa / Prefeitura de Chaves)

Famílias, escolas e profissionais da saúde e assistência social precisam estar atentos a sinais das vítimas

“A falta de sono, depressão,ansiedade, diminuição do apetite e fraco rendimento escolar são alguns dos sinais de alerta e devem ser investigados imediatamente”, ressaltou Betânia.

Uma das palestrantes foi a irmã Henriqueta Cavalcante, referência no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Pará.

“É preciso estar atento, pois, infelizmente, não é raro que o criminoso seja alguém conhecido e até mesmo alguém que tem a confiança da família e da própria criança ou jovem, como um familiar próximo, por exemplo”, ressaltou a religiosa.

Apesar de se tratar de um tema que desperta, na maioria das pessoas, indignação e repulsa, o abuso e a exploração sexual enfrentados por crianças e adolescentes não costuma receber a devida importância. Muitas vezes, quando as vítimas denunciam, acabam sendo consideradas mentirosas.

É de suma importância que pais e responsáveis fiquem atentos aos alertas vindo da criança ou adolescente muitas vezes expressados em linguagem não-verbal, sinalizações de trauma, comportamentos, perturbações no sono, aumento ou diminuição de apetite, alterações no desempenho e aproveitamento escolar.

Mesmo na suspeita da ocorrência de violência sexual essa deve ser comunicada às autoridades competentes.

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