Políticas dos EUA unem aliados contra Trump em fórum de segurança europeu

Mensagem de Pence foi de que os pilares da política externa dos EUA estão sendo reconstruídos

Reuters

Em 2009, o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, foi a Munique para "apertar o botão de reset" com a Rússia. Uma década depois, ele voltou à cidade para oferecer ao mundo melhores relações, desta vez com seu próprio país.

Prometendo que "a América estará de volta" assim que Donald Trump deixar o cargo, Biden foi aplaudido de pé na Conferência de Segurança de Munique por delegados que consideram difícil a tarefa de aceitar a postura brusca da política externa do atual presidente norte-americano.

Mas a exaltação também expôs o estado enfraquecido da diplomacia ocidental diante da assertividade de Trump, de acordo com diplomatas e políticos europeus que estavam presentes.

O sucessor de Biden, Mike Pence, foi recebido em silêncio durante recepção no palácio do parlamento bávaro na sexta-feira à noite, depois de ter feito sua declaração inicial: "Trago as saudações do 45º presidente dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump".

Sua viagem de quatro dias à Europa só conseguiu aprofundar as divisões com aliados tradicionais em questões como Irã e Venezuela e ofereceu poucas esperanças sobre como lidar com ameaças que vão desde armas nucleares até a mudança climática, disseram diplomatas e autoridades.

Dúvidas sobre o papel de Washington no mundo têm sido levantadas tanto por pessoas comuns como por especialistas em política externa. Na Alemanha e na França, metade da população vê o poder dos EUA como uma ameaça, uma forte alta frente a 2013 e uma visão compartilhada por 37 por cento dos britânicos, informou o Pew Research Center, com sede em Washington, em relatório divulgado antes do encontro em Munique.

Questionado sobre a ansiedade européia em relação ao estilo de liderança de Trump, um funcionário do alto escalão dos EUA no avião Air Force Two, de Pence, disse que o discurso do vice-presidente em Munique no sábado "ajudaria a dar a eles uma perspectiva diferente".

OLHO POR OLHO

Mas se os europeus não gostam da mensagem "America Primeiro", eles também não possuem uma resposta a ela.

A chanceler alemã Angela Merkel ficou sozinha após um cancelamento de última hora do presidente francês Emmanuel Macron.

Isso levou alguns a lamentar o fracasso do Ocidente em sustentar a ordem internacional baseada em regras que os próprios EUA defenderam nos 70 anos que precederam a chegada de Trump à Casa Branca.

"Infelizmente, a lógica do 'olho por olho' tem prevalecido... Acho que isso nos leva de volta à questão de ter uma liderança esclarecida", disse Thomas Greminger, secretário-geral da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, uma entidade que supervisiona questões de segurança e direitos humanos.

"Precisamos novamente de líderes que não acreditem exclusivamente no curto prazo", disse ele à Reuters.

Coube à China ajudar Merkel na defesa da ordem pós-Segunda Guerra Mundial, com o principal diplomata chinês Yang Jiechi falando em mais de 20 minutos em um inglês perfeito sobre as virtudes do livre comércio e da cooperação global.

Já a mensagem de Pence foi, na verdade, de que os pilares da política externa dos EUA estão sendo reconstruídos sob novas bases: isolar o Irã, conter a China, levar as tropas norte-americanas de volta para casa e exigir que potências europeias entrem na linha.

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