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CINE NEWS

Por Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Doutorando em Artes pelo PPGARTES/UFPA; Mestre em Artes pela UFPA. Professor de Cinema em várias instituições de ensino, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

Coluna faz homenagem ao escritor Vicente Cecim

Marco Antonio Moreira

Lembro-me com muito carinho de Vicente Cecim. Tive meu primeiro contato com ele quando adolescente, nas eleições dos melhores filmes do ano da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Depois, vieram grandes momentos nas sessões cineclubistas promovidas pela associação, nas sessões do Circuito Cinearte, na locadora de vídeo Cinema Quatro, em debates sobre filmes realizados, e recentemente, nas sessões do Cinema Olympia. 

Ele sempre tinha disposição para conversar comigo sobre cinema. Era empolgante perceber sua admiração, entusiasmo e carinho sobre a sétima arte, acompanhados de contínua aspiração de compartilhar amor e senso crítico sobre suas potencialidades. Essa admiração foi compartilhada de maneira intensa, constante e presente, especialmente quando o tema era vinculado a um tipo de cinema revolucionário realizado por muitos artistas. 

Cecim era um guardião dos cineastas que respeitavam o cinema como arte e sempre procurava falar sobre estes mestres para quem quisesse ouvi-lo. Eu sempre quis ouvir Cecim e procurava aprender sobre qualquer assunto que ele sempre abordava inteligentemente. 

Seu mestre no cinema era Jean-Luc Godard. Cineasta constantemente citado, defendido e exaltado em diversas conversas sobre a arte cinematográfica. Cecim enxergava em Godard uma chama intensa de criatividade, genialidade e rebeldia contra qualquer imposição estética padronizada que tentasse reduzir o cinema a algo insignificante. Aprendi a entender e gostar do cinema de Godard por meio das argumentações de Cecim, e de outro "godardiano": José Otávio Pinto. 

Era estimulante perceber o modo apaixonado e entusiasmado que ele falava do cinema de Godard. Desse modo, defendendo o cinema autoral e revolucionário, Cecim pautou bela trajetória como crítico e pensador de cinema. 

Eu sempre tive o hábito de ler suas críticas. Lembro-me de sua coluna de cinema chamada Zoom, no jornal O Estado do Pará. O olhar revolucionário de Godard e outros mestres da arte surgia na escrita provocante, poética, estimulante e desafiadora de Cecim. Entre tantos artigos que li, lembro-me, especialmente, dos textos sobre filmes de Andrei Tarkovski, Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Werner Herzog, Andrzej Zulawski (sobre o filme Possessão), do próprio Jean-Luc Godard e vários outros. Era um prazer ler sua opinião e entender suas argumentações escritas e desenvolvidas de modo diferenciado, poético, inteligente. 

Felizmente, tive o privilégio de coordenar diversas sessões cineclubistas da ACCPA e ações pelo Centro de Estudos Cinematográficos com a presença de Cecim. Eu sabia que podia contar com ele pra qualquer assunto referente ao cinema e tinha certeza que eu e os espectadores presentes seríamos brindados com muito conhecimento e sensibilidade. 

Dentre muitas memórias dessas ações, lembro especialmente das sessões dos filmes "Ran" de Akira Kurosawa e "Vergonha" de Ingmar Bergman pela ACCPA e a exibição especial do filme "Satantango" de Bela Tarr pelo CEC. 

"Ran" é baseado na obra "Rei Lear", de William Shakespeare. O filme de Kurosawa gerou uma reflexão extraordinária de Cecim sobre a relação entre cinema, teatro e literatura, adaptações cinematográficas, estética de Kurosawa e a atualização do diretor sobre a história de Shakespeare e seus alertas sobre os caminhos do poder e cobiça e suas consequências para a humanidade. "Vergonha" é uma das obras primas de Ingmar Bergman e provocou uma apreciação intensa em Cecim sobre as relações entre os personagens alienados do filme, o mundo caótico em que vivem e o delicado momento que a humanidade (sobre)vive. 

Em "Satantango", de Bela Tarr, tive inesquecível parceria com Cecim. No final de 2019, este filme de 7 horas e 30 minutos foi exibido em uma sessão especial cinéfila memorável. Convidei Cecim para ir à sessão e sua presença foi bem vinda, como sempre. Conversamos sobre a alta qualidade do filme nos intervalos da sessão (devido a grande duração do filme, foram necessários intervalos a cada duas horas). Eu, ele e José Otávio Pinto estávamos entusiasmados e admirados pela obra de Bela Tarr. 

No final da sessão, Cecim participou do debate, que foi histórico. Ele fez diversas analogias estéticas e temáticas sobre o filme para uma plateia que, provavelmente, jamais se esquecerá desse dia/noite (o debate foi encerrado em torno das 23 h). Sua fala foi um aprendizado sobre cinema e arte. A programação desta sessão é um dos meus maiores orgulhos como cineclubista. Com toda a sua percepção de escritor, crítico de cinema, cineasta e artista, Cecim evidenciou, mais uma vez, sua relação apaixonada com o cinema. É uma satisfação  lembrar que, como programador do cinema Olympia, realizei uma mostra de filmes em sua homenagem em uma necessária oportunidade de evidenciar e valorizar seu trabalho como cineasta. 

Cecim tornou-se imortal esta semana. Jamais esquecerei o carinho e consideração que ele tinha comigo e meu pai, nossos encontros nas sessões de cineclubes e debates, seu olhar sempre determinado na defesa do cinema e de Godard. 

Nos últimos anos, Cecim gentilmente me chamava de mestre e eu sempre repetia: "o mestre é você"! E sempre repetirei: o mestre é você, caro amigo. Obrigado pela amizade e aprendizados, Cecim! Finalizo este texto do modo como ele, muitas vezes, se despedia de mim por e-mail ou mensagem de celular: aVe, Cecim Godard! 

Confira os filmes dirigidos por Vicente Cecim:

Filmografia

- Matadouro, 1975.
- Permanência, 1976.
- Sombras, 1977.
- Malditos Mendigos, 1978.
- Rumores, 1979.
- Marráa Yaí Makúma - Aquele que dorme sem sono, com Bruno Cecim, 2007.
- A Lua é o Sol, 2009.
- Fonte dos que dormem, 2009
- K+afka, 2010/2015
- Série Gaia (e outros - entre os quais longe, e Silêncio, realizados como cinema sem câmera)

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