Tão perto e tão longe: as famílias que vivem distantes, em tempos de isolamento social

Como mães e filhas que vivem a quilômetros de distância uma das outras estão vivendo em tempos de isolamento social

Raisa Araújo

Brasil e Itália. Dois países animados. Dois dos povos considerados os mais alegres do mundo. Duas histórias que, constantemente, se cruzam ao longo do tempo e que, mais uma vez, voltam a se encontrar, desta vez através das histórias de duas paraenses. Cada uma delas vive em um epicentro local do coronavírus, uma mais perto do Mediterrâneo e a outro mais perto do Atlântico. Gabriella Oddenino, de 26 anos, nasceu na Itália e veio para Belém com apenas 3 anos. Há 2 anos, voltou a Turim, no norte do país, onde nasceu e cursa mestrado na Scienze dell’Alimentazione na Università di Firenze. Luiza Chedieck, 24 anos, também nasceu em Belém e se formou em Publicidade pela Universidade Federal do Pará. Escolheu São Paulo, na região sudeste do Brasil, para seguir a carreira de cineasta, há apenas 3 meses. E sabe o que as duas têm em comum? A mudança de percepção sobre o lugar que vivem, são tempos de silêncio.

Se na Itália, logo no início do isolamento as pessoas dançavam e cantavam em suas sacadas, hoje, mais de um mês de isolamento total e aproximadamente 14 mil mortos depois, o norte do país se transformou em pensamentos. “O silêncio toma conta de tudo. A gente não vê mais nada, não vê mais manifestação, não ouve mais música na sacada, não vê mais nenhum tipo de reação das pessoas. As pessoas estão muito sensibilizadas pelo luto”, relata Gabriella.

“Aqui está quase tudo parado. Na segunda-feira, fui comprar pão e tive até medo de estar tão sozinha na rua. As poucas pessoas que passavam estavam de máscara”, conta Luiza, que não reconhece mais a São Paulo agitada, de trânsito intenso, buzinas o tempo inteiro e ambulantes. Eles estão dando lugar ao canto dos pássaros e à ressignificações de espaços urbanos e do modo de vida.

TÃO PERTO, TÃO LONGE

“Assim é, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, juntamente com o medo, o principal sofrimento desse longo tempo de exílio”. Foi assim que Albert Camus descreveu no livro “A Peste” os seres que não estavam preparados para a súbita separação, consequência do fechamento das fronteiras e proibição do serviço de correspondência. E tal como Camus, Cleude Oddenino e Layse Santos, mães de Gabriella e Luiza, também se preocupam e revelam as angústias que sentem pelas filhas que estão distantes, nesse momento de crise e medo mundial.

Cleude, mais habituada com a filha morando distante, relatou que a sua preocupação triplicou nas últimas semanas, e as vídeochamadas, agora, acontecem com muito mais frequência. E os pedidos de “filha, se cuida!”, também aumentaram exponencialmente. “Gostaria muito que ela tivesse voltado pra Belém. Na verdade, não se trata de segurança, lá é muito tranquilo, ela tem muitos parentes, avó, tios, primos, amigos... se trata mesmo é de amor de mãe, este seria um dos motivos que queria que ela estivesse aqui. Mãe é porto seguro, como quem diz: não te preocupas, o que vier acontecer estou aqui”, conta emocionada.

Layse, distante de Luiza há mais ou menos 3 meses, pediu que ela voltasse. “Várias vezes”, lembra. Um dos motivos, segundo a jornalista, editora da Conexão AMZ, é a grande densidade demográfica de São Paulo. Lá seria mais rápido do vírus se espalhar, como se espalhou. A capital paulista, é hoje o segundo maior epicentro da crise de Coronavírus no Brasil, só perdendo, proporcionalmente, para a cidade de Manaus, no Amazonas.

Layse Santos e Luiza Chediak (Arquivo pessoal)

“Achar que a Luiza estaria melhor em Belém não tem uma explicação muito clara, já que estamos diante de muitas incertezas sobre essa doença. De início, eu pensei que ela poderia estar mais segura em Belém porque aqui ainda não tínhamos nenhum caso confirmado de Covid-19 e se ela estivesse aqui, portanto, estaria mais protegida”. Desabafou, lembrando que já não é mais assim. O Estado do Pará já contabiliza mais de 300 casos.

O confinamento coletivo tem revelado sentimentos que essas duas gerações – e muitas outras - ainda não tinham experimentado de forma tão aguda quanto agora: a solidão, a angústia e a impotência diante de um inimigo invisível.

E se para Albert Camus o isolamento no ano da peste foi mais duro quando “um decreto proibiu a troca de qualquer correspondência, a fim de evitar que as cartas pudessem transformar-se em veículos de infecção”, em 2020, 73 anos depois, mães e filhas, namorados e namoradas, familiares que estão tão longe, podem estar um pouco mais perto graças à tecnologia.

“Sempre nos falamos bastante - mesmo antes da pandemia. Agora, aumentou um pouco a frequência com que nos falamos por vídeochamadas e redes sociais. Mandar um ‘bom dia’ pra Luiza é a primeira coisa do meu dia. Da mesma forma, não dormimos sem antes nos desejarmos boa noite”.

 

Até o fim da Pandemia deve ser assim para as duas mães. Mas e depois? Ninguém sabe.

Conexão AMZ
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