Quem são as mulheres da chacina do Guamá

"Não podemos achar que todas as mulheres que foram mortas são associadas ao crime”. Entenda sobre o preconceito e saiba mais sobre a vida das mulheres na periferia de Belém: os problemas sociais e como é estar na linha de fogo entre milícias, tráfico de drogas e a falta de políticas públicas

Equipe | Conexão AMZ

Tereza Raquel Silva Franco, 33 anos, vendedora autônoma. Trabalho que conquistou após anos como empregada doméstica. Mãe de uma adolescente de 14 anos. No domingo, aproveitou que a filha passava o dia com o pai, de quem estava separada, se arrumou e foi se divertir. O local escolhido? Um barzinho no bairro onde morava. Naquele dia, teria um DJ pra animar a pista.

Tereza Raquel Silva Franco, 33 anos, conhecida por “Rayca”. (Arquivo Pessoal)

 

O que ela não sabia é que o local estava marcado e seria o endereço de mais uma tragédia no já extenso histórico de mortes violentas na periferia de Belém. Tereza estava no lugar errado, na hora errada, disse a irmã à Conexão AMZ. “Ela era uma batalhadora, só queria se divertir”. Ela virou estatística, uma das 11 vítimas fatais da chacina do Guamá.

Assim como Tereza, outras cinco vítimas da chacina também eram mulheres. Cada uma tentando sobreviver e driblar a dificuldade que é ser mulher, pobre e moradora de uma das periferias mais violentas da capital. Maria Ivanilza Pinheiro Monteiro, 52 anos, era uma dessas mulheres. Era dela o bar onde tudo aconteceu. Ivanilza, Samira Tavares Cavalcante (35), Flávia Teles Farias da Silva (32), Samara Silva e Meire Helen Fonseca trabalhavam ou se divertiam no domingo. Até agora, segundo informações da Polícia Civil, dessas seis vítimas, duas tinham passagem pela polícia: a dona do bar respondia um processo antigo de poluição sonora e outro de relação de consumo; e Flávia Farias da Silva, por abandono de incapaz.

"Estamos falando de violência contra a mulher, mas é a mulher pobre, negra, em situação de vulnerabilidade. São as que estão mais expostas a esse tipo de ação (chacina)", avalia Ana Prado, doutora em Ciência da Informação e Estudos Midiáticas e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), em entrevista à Conexão AMZ. Prado chamou atenção, ainda, para a questão do preconceito, que acaba por vitimizar duplamente as vítimas de violência na periferia. "Há uma violência que é simbólica e extrapola a materialidade da chacina, que são as próprias narrativas que dão conta do acontecimento e tendem a achar que todo mundo que estava ali era bandido", alerta.

Ana Prado, professora da faculdade de Comunicação da UFPA, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e doutora da Ciência da Informação e Estudos Midiáticos pela Universidade Fernando Pessoa, no Porto, em Portugal (Arquivo Pessoal)

 

Comentários deixados em vários sites que noticiavam a chacina ao longo de toda a segunda-feira (20), comprovam a tese da professora. "Não podemos achar que todas as mulheres que foram mortas são mulheres associadas ao crime. O discurso oficial tem dito que o local onde tinha mais de 80 pessoas se divertindo, bebendo, brincando, era um lugar de consumo de drogas. Isso é complicado de se afirmar categoricamente. Pois não significa que, por ser talvez um lugar onde se consumia drogas, todas as pessoas que estavam ali estivessem consumindo. Se consome drogas em todos os lugares, inclusive em bares abastados de Belém, mas ninguém fala que é um lugar de consumo de drogas. 
"Boa parte das pessoas que têm sido mortas nessas chacinas são pessoas que não têm nenhuma relação com o mundo do crime. São pessoas que moram em áreas periféricas, áreas vulneráveis, dominadas tanto pelas milícias quanto pelo tráfico de drogas, com disputas de territórios bastante exacerbadas", avalia Prado.

Confira a íntegra da entrevista com a professora

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