Má gestão e falta de investimentos. A fórmula imperfeita da água

A AMZ se fez a pergunta que você, com certeza, já deve ter se feito: por que falta tanta água em Belém? Entenda a lida de dona Cleyse e de milhares de outros belenenses

Anna Peres | Conexão AMZ

Os galões de água têm um espaço reservado na cozinha da comerciante Cleyse Fernandes, 37 anos. São pelo menos cinco – de 20 litros cada um – e estão quase sempre cheios. Essa foi a maneira que a dona de uma pequena churrascaria na Avenida Romulo Maiorana, em um dos bairros centrais de Belém, encontrou para enfrentar a constante falta de água nas torneiras. “Às vezes falta água pelo menos dois dias na semana e ficamos a manhã inteira sem água”, conta ela, que acumula prejuízos em dias assim. “Não sei porque falta tanta água”.

A Conexão AMZ também se fez essa pergunta. E procurou dois especialistas para responder o questionamento da Cleyse e de praticamente metade da população da capital. Conversamos com o professor José Almir Rodrigues Pereira, coordenador do Grupo de Pesquisa Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Pará (UFPA), e com o atual presidente da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa), Márcio Leão Coelho, que reconheceu a precariedade do sistema.

Ouça o que o presidente da Cosanpa diz sobre a falta de água em Belém:

Para o professor José Rodrigues, o abastecimento de água na capital enfrenta dois grandes problemas: má gestão e falta de investimentos. “Hoje, um dos maiores gargalos do sistema é a perda de água. E não apenas com vazamentos. Se perde muita água com desvios, instalações clandestinas mesmo, e isso é um problema de gestão à medida que a Cosanpa deixa de fiscalizar esses desvios”.

A falta de hidrômetros e de manutenção dos existentes, fazendo com que muitos consumidores paguem taxas fixas, também compromete a arrecadação do órgão. A solução, apontada por Rodrigues, seria o modelo adotado em Fortaleza (CE), onde a cidade foi dividia por setores de abastecimentos isolados. “Com isso você consegue saber que está gerando um determinado volume para abastecer um número exato de edificações. O que houver de distorções são perdas, vazamentos ou desvios, que ficam mais fáceis de combater.”

O presidente da Cosanpa admite que a falta de investimentos tem acarretado uma perda de cerca de 48% no sistema nos últimos 15 anos. Segundo Coelho, a Companhia deve investir algo em torno de R$ 173 milhões nas áreas de saneamento e abastecimento de água no estado ao longo de 2019. Para a capital, no entanto, o maior aporte financeiro deve vir do tesouro nacional. Cerca de R$ 800 milhões em recursos do FGTS e orçamento geral da União.

“A Companhia enfrenta dificuldades financeiras há alguns anos e seus recursos para investimentos são limitados. Mas levando-se em conta os recursos do Estado e da União, a Cosanpa vai acompanhar investimentos, nestes próximos anos, na ordem de R$1 bilhão”, garante. Lá na ponta, Cleyse torce pela solução do problema e o fim dos galões empilhados na cozinha. “O ideal era ter sempre água na torneira né?”

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