Fronteira da Venezuela com o Brasil segue fechada e Roraima decreta calamidade pública na saúde

Primeiro fim de semana de bloqueio teve protestos contra e a favor de Maduro, relatos de dezenas de mortes e centenas de feridos, doações queimadas e deserção de militares venezuelanos

Rodrigo Vieira | Conexão AMZ

Na tarde do último domingo (24), o governador de Roraima, Antônio Denarium (PSL), assinou o decreto de calamidade na Saúde em razão do número de venezuelanos feridos que têm chegado aos hospitais do estado. Com a medida, o governo terá mais facilidade para realizar compras emergenciais de medicamentos e de materiais médico-hospitalares para  atender à população local e aos imigrantes.

Frustradas e violentas

No sábado (23), houve confrontos violentos entre manifestantes pró e contra Maduro e militares venezuelanos durante as duas tentativas de envio de ajuda humanitária à Venezuela, por meio das fronteiras com o Brasil e a Colômbia. Manifestantes jogaram pedras contra o exército da Venezuela, que respondeu com bombas de gás. A Força Nacional brasileira montou uma barreira de contenção para interromper o avanço dos manifestantes e evitar novos incidentes.

Confronto no lado venezuelano da fronteira com o Brasil (Ricardo Moraes / Reuters)

Sábado foi o chamado Dia D, data marcada pela oposição venezuelana, comandada pelo autoproclamado presidente do país, Juan Guaidó, para receber alimentos e remédios doados pelos dois países vizinhos.

Em localidades venezuelanas perto da fronteira com o Brasil, confrontos ocorridos desde a última sexta-feira (22) teriam deixado cerca de 25 mortos e 84 feridos, segundo Emilio González, prefeito da municipalidade de Gran Sabana. Opositor de Maduro, ele relatou ter usado rotas clandestinas para chegar a Paracaraima, em Roraima, onde pediu ajuda internacional, no domingo (24).

Confrontos no lado venezuelano da fronteira com a Colômbia (Martinez Casares / Reuters)

De acordo com o governo colombiano, 285 pessoas ficaram feridas nos confrontos na fronteira com a Venezuela no último sábado (22). Dois caminhões com ajuda humanitária foram incendiados e um terceiro teve a carga retirada para evitar que fosse perdida.

No Brasil, os dois primeiros caminhões com alimentos e remédios chegaram até Pacaraima no sábado (23), mas não puderam entrar na Venezuela e foram recolhidos. Após a retirada, venezuelanos que estavam do lado brasileiro atacaram uma base venezuelana no território do país vizinho.

Ponto da fronteira terrestre da Venezuela com o Brasil que está fechado (Arte AMZ)

Apesar do fechamento da fronteira terrestre, na noite da última quinta-feira (21), dezenas de venezuelanos continuam a entrar no Brasil, via Roraima, por meio de caminhos alternativos, chamados de trincheiras, onde não há qualquer controle de ambos os países.

Deserções

Na noite de sábado (23), dois militares da Guarda Nacional Bolivariana desertaram pela fronteira terrestre da Venezuela com o Brasil. Os dois sargentos foram os primeiros a abandonar o regime de Nicolás Maduro. Eles estão alojados no abrigo para refugiados de Pacaraima, em Roraima, informou o coronel do Exército brasileiro, Georges Feres Kanaan, no domingo (24). Os dois sargentos  afirmaram às autoridades que outros militares pensam em fugir do país.

Ainda no sábado, mais de 60 venezuelanos abandonaram o próprio país, seguindo para a Colômbia.

Fechamento da fronteira e crise internacional

O bloqueio da fronteira terrestre da Venezuela com o Brasil foi realizado na última quinta-feira (21), dois dias antes da data anunciada por partidos da oposição venezuelana para a entrega de ajuda humanitária armazenada em diversos pontos das fronteiras do país com a Colômbia e o Brasil. O governo de Maduro se recusa a receber ajuda internacional por considerar a ação uma interferência externa, comanda pelos Estados Unidos, na política do país.

Juan Guaidó tenta entrar com caminhão abastecido com ajuda humanitária (Reuters)

No domingo (24), Juan Guaidó, afirmou, em uma rede social, que, diante dos confrontos no fim de semana e do não recebimento de ajuda humanitária, uma intervenção militar estrangeira deve ser considerada como opção contra a ditadura de Nicolás Maduro: “sugerir à comunidade internacional de maneira formal que devemos ter abertas todas as opções para conseguir a libertação desta pátria que luta e seguirá lutando”.

Os reflexos da crise na Venezuela na região Norte nos últimos anos (Arte / Conexão AMZ)

A Conexão AMZ vem acompanhando os efeitos da crise na Venezuela em estados da região Norte, inclusive no Pará. Em dezembro, mostramos a situação de famílias venezuelanas que deixaram o país e optaram por viver em Belém.Clique aqui para ler a matéria.

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