Espera e incerteza aumentam drama de pacientes com câncer na rede pública

Demora para obter diagnóstico e realizar exames é um desafio diário para quem busca a cura do câncer na rede pública

Anna Peres | Conexão

Quem vê o sorriso no rosto da dona de casa Ângela Tavares, 59 anos, não imagina que, há três meses, ela aguarda para fazer um exame do qual depende sua vida. Desde janeiro, ela tenta sem sucesso marcar uma cintilografia óssea, exame que pode indicar a presença de metástase – que é quando um câncer que começou em um do corpo se espalha para outras áreas – no Hospital Ophir Loyola, em Belém. 

“Estou apreensiva porque deveria levar o resultado agora em maio para o meu médico, mas sempre sou informada de que não estão fazendo esse exame (no HOL)”, diz ela, que já considera a possibilidade de desembolsar no mínimo R$ 400 para fazer o exame na rede particular. “Minha filha e eu estamos pesquisando e se não houver outro jeito teremos de pagar.”

A espera e a incerteza foi algo com que Ângela e a maioria dos pacientes que fazem tratamento de câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tiveram de aprender a conviver. Em 2000, quando ela foi diagnosticada com câncer pela primeira vez, foram cinco meses de espera apenas para fazer a biopsia, exame que comprovaria que o nódulo na mama era um tumor maligno. “Foi um choque, sobretudo por pensar em tudo que viria dali para frente.”

Isabel Alves, paciente da rede privada (Acervo pessoal)

 

Para se ter uma ideia, na rede conveniada, a assistente social Isabel Alves, 44 anos, fez todo o tratamento do câncer de mama – entre diagnóstico, cirurgia e quimioterapia – em menos de um ano. “Por ser servidora pública, tenho um plano de saúde. Se fosse pelo SUS, certamente, não seria assim. Acredito que a rapidez no tratamento é fundamental, assim como o diagnóstico precoce”, avalia ela, que descobriu a doença em maio do ano passado e, em março, fez a última sessão de quimioterapia. “Hoje estou em controle, mas me considero curada”, comemora.

Cobertura razoável

Atual superintendente do Instituto de Oncologia do Ophir Loyola, o médico Paulo Cardoso Soares, admite que a cobertura do hospital, referência em tratamento de câncer no Pará pelo sistema público, é apenas razoável. “Ainda não conseguimos dar essa cobertura na velocidade que nós gostaríamos. O hospital trabalha com 100% de sua capacidade o tempo todo e isso não é o ideal”, diz. 

Confira a entrevista completa: 

Hoje, no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), apenas 15,9% dos pacientes da rede pública conseguem iniciar um tratamento como a radioterapia, por exemplo, em 30 dias. No HOL, essa espera pode chegar a 90 dias. 

A necessidade de recuperação da estrutura física e melhoria no atendimento foi constatada pelo próprio governador do estado, Helder Barbalho, durante visita ao hospital, em fevereiro, quando considerou estrutura e atendimento inadequados e cobrou que fossem apresentadas soluções para viabilizar uma nova forma de atendimento. 

Uma delas, segundo Soares, já está em implantação no hospital e é fruto de uma parceria com o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. O programa de gestão que visa otimizar o atendimento já teria melhorado em 65% o do fluxo de pacientes. “Com a otimização do atendimento, o paciente fica o menor tempo possível no hospital, com o melhor atendimento. Com isso podemos atender um número maior de pacientes com o mesmo número de leitos”, informou.

Sem demanda reprimida

Procurado pela reportagem para esclarecer a situação da Ângela Tavares, o Hospital Ophir Loyola informou por meio de nota que "o Serviço de Medicina Nuclear do HOL, onde é marcada e realizado o exame, não possui demanda reprimida e está realizando o exame normalmente".

Conexão AMZ