Do Marajó para o Sunset do Rock in Rio

A saga de Dona Onete, desde os tempos do terruá, contada por Gabriel Pinheiro.

Gabriel Pinheiro | Conexão AMZ

O luar daquela sexta-feira fora inesquecível. Superava, aos poucos, um problema pessoal que até a lua mais bonita, em toda sua delicadeza, conseguia me ferir e fazer chorar. Num átimo de lucidez, aceitei um convite, de amigos, para sair naquela sexta-feira, 8. Era julho de 2016 e aqui, à margem da linha do equador, as temperaturas beiram os quarenta graus. Nessa fervura toda, as únicas boas-vindas aceitáveis – e aceitei – eram de uma brisa levinha trazida pelas marés da Baía de Guajará.


A natureza fazia festa para receber a fúria em que uma senhorinha, então de 77 anos, se transformava para subir ao palco. Num vestido de azul claro e de brilhante cetim, ela foi sentada em uma cadeira no centro dos holofotes. Era a cena irrepreensível da majestade em seu trono. De lá, na primeira nota que entoou, catarse e transe, numa quase epifania, se abateram sobre a multidão que se aglomerava em frente ao palco de Dona Onete. Eu era um dos muitos que estavam ali e diante daquele fenômeno de alegria, carisma e simpatia, esqueci de todos os problemas. Aliás, em dois parágrafos que disserto sobre esse episódio, vocês ainda se lembravam deles? 

Banzeiro: catarse, transe e epifania.


Nenhum daqueles que estavam ali puderam profetizar que aquelas músicas, mais tarde, ganhariam todo o Brasil, nem Gaby Amarantos, que estava na plateia do lançamento do álbum ‘Banzeiro’, cuja faixa homônima fez Salvador enlouquecer no Carnaval passado sob o comando de Daniela Mercury, numa roupagem que privilegia mais o Axé ao Carimbó Chamegado, pororoca em que surfa Dona Onete. Até então, era o hino ‘No meio do Pitiú’, mais tarde tocado à exaustão na TV aberta do Pará, a apoteose do show de Dona Onete.


Depois daquele dia, a maratona foi intensa. Voltei a encontrar Dona Onete num voo da Latam, em maio de 2017, após o lançamento de ‘Banzeiro’. Ela estava em plena divulgação do álbum. Nosso destino era São Paulo. Eu fui participar de um curso, ela era aguardada por Serginho Groisman, nos estúdios da TV Globo, para a gravação do “Altas Horas”. No desembarque, em Guarulhos, a fila clássica para a saída do avião demorou mais um pouquinho a andar. Tudo para que ninguém saísse sem uma selfie com a celebridade daquele voo cheio de turbulências. 

Reprodução (Instagram @DonaOnete)


A São Paulo que nos recebeu com garoa, naquele comecinho de noite, já não era desconhecida para Dona Onete, nem Dona Onete passava despercebida por São Paulo. Pelo menos 5 anos antes, o público e a crítica daquela cidade que é um mundo já haviam abraçado a marajoara de Cachoeira do Arari, que se não fosse uma protagonista na vida real, facilmente seria nos romances de Dalcídio Jurandir. Meia década antes de Dona Onete ser aguardada para uma gravação na maior rede de televisão aberta do país, ela havia sido revelada para aquela cidade no Terruá Pará. Espetáculo patrocinado pelo Governo do Estado que ajudou a mostrar para o mundo outra turba de artistas paraenses, como em uma primavera.


5 anos mais jovem, mas já aos 73 anos, Dona Onete fazia parte da nova geração de artistas do Pará que despontavam para o infinito e além. Àquela época, na segunda metade de 2012, era num vestido bordô açaí que ela encantava as plateias no Pará e pelo Brasil com “Jamburana”, composição dela em que descreve com exatidão a relação dos amazônidas com a folha típica da culinária local. 

O jambu treme! (Reprodução Youtube)

Em suas canções, a devota fervorosa de Nossa Senhora de Nazaré, também dá destaque a orixáselementos da naturezafeitiços e tudo o que ronda sua mente fértil e talentosa para composições. Outrora professora de história na Ilha do Marajó, a voz forte de Dona Onete sempre fez ecoar o tempo. Hoje, ela também encarna a brejeirice e a sensualidade dos romances humanos em toda a sua diversidade. É bem recebida aonde quer que vá. Seja nos Clubes da high society paraense, onde já se apresentou, seja pela multidão heterogeníssima do Círio de Nazaré que a chama, carinhosamente, de “Rainha do Pitiú”, enquanto ela, risonha, acena do camarote das celebridades organizado por Fafá de Belém, numa das principais avenidas do percurso da procissão.


É esta vitalidade e força que vão ganhar o mundo no palco Sunset do Rock in Rio, no próximo 03 de outubro, quando o calendário cultural de Belém vai estar fervendo às vésperas do Círio de Nazaré. O festival, acostumado a grandes shows, como os de Freddie Mercury e Cazuza, em 1985, e outros astros antológicos, não poderia deixar de se render à Dona Onete.


Fato é que em festa de tubarão, piranha não entra, como diz o verso da mais recente composição de Dona Onete. Será profecia? A festa no Rock in Rio promete ser boa!

Especial AMZ
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