Corte na ciência aumenta penúria das pesquisas na Amazônia

Anúncio de contingenciamento de mais de 40% das despesas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC) preocupa cientistas da região, que vivem o momento mais crítico dos últimos 40 anos.

Anna Peres | Conexão AMZ

A maior biodiversidade do planeta pode gerar um lucro bilionário. Lá fora. O anúncio de novos cortes no investimento de ciência e tecnologia, no Brasil, impacta diretamente o desenvolvimento socioeconômico da região amazônica. “Enquanto nós não estivermos investigando as possibilidades de fármacos e toda a riqueza da biodiversidade da nossa região, pesquisadores estrangeiros estarão levando amostras daqui para fazer pesquisas lá fora e patenteando produtos que vão gerar muito dinheiro para eles e nada para nós”, alertou o professor Emmanuel Zagury Tourinho, reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA). 

Essa semana, Tourinho conversou com a reportagem do Conexão AMZ e comentou o anúncio de contingenciamento de 42,27% das despesas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC), feito na semana passada pelo governo federal. O contingenciamento ainda não é um corte, mas significa a suspensão do compromisso do governo de liberar recurso, que pode ou não ser liberado, dependendo de como estiverem as contas públicas até o final do ano. “O problema é que tanto as agências (de fomento à pesquisa) quanto o Ministério não podem contratar nada, pois não sabem se vão ter recurso”, explica.

Segundo ele, a medida agrava e muito a situação de penúria em que já se encontra a ciência nacional. “A ciência brasileira vive o momento mais crítico dos últimos 40 anos”, acredita.

Na Amazônia, de acordo com Tourinho, é quase impossível controlar o fluxo de amostras de biodiversidade que podem ser levadas por pesquisadores estrangeiros. “Até a poeira que vai na bota é rica em material e informação para pesquisa”, comentou. O que coloca o Brasil na vanguarda é a possibilidade de sair na frente, mas que fica seriamente ameaçada sem recursos para investir em pesquisas.

“Se estivéssemos investindo, estaríamos na frente, pois toda essa riqueza está no nosso quintal e temos o caminho das pedras, pois já conhecemos muito dessa biodiversidade, mas precisamos de um investimento intensivo para fazer esse aproveitamento de forma sustentável, como precisamos que seja, para que represente também melhoria na qualidade de vida dos povos da Amazônia.”

A falta de investimentos em pesquisa e tecnologia, segundo o reitor, cobrará um preço alto ao Brasil, tanto social quanto economicamente. “À medida que vamos suspendendo o investimento, vamos nos distanciando da fronteira do conhecimento. Quanto mais nos distanciamos, menos competitivos nos tornamos e menos capacidade o país terá de se fazer protagonista na economia mundial”, explica.

“Hoje, estamos trabalhando o mínimo possível para manter os laboratórios funcionando, mas não conseguimos desenvolver projetos mais arrojados por falta de investimentos. Vários grupos de pesquisa estão cancelando projetos e pesquisadores estão indo para o exterior. A China, por exemplo, está recrutando pesquisadores brasileiros”, completou.

Recursos

O recurso para investimento em ciência é oriundo do orçamento das próprias universidades – que também sofreram cortes nos últimos anos – e, principalmente, captado junto ao MCTIC e às agencias federais de pesquisa como CNPq e Capes, que têm sofrido cortes acentuados de verbas.

Para se ter uma ideia, de acordo com Tourinho, o recurso disponível hoje é 30% menor do que se tinha há cinco anos. “Hoje, as agências mal conseguem pagar as bolas que já contrataram. Não é possível aproveitar a capacidade cientifica instalada no Brasil para alavancar pesquisas e desenvolvimento nas áreas que são estratégicas para a economia do país.”

Apesar de ainda não terem cortado bolsas de estudo, as agências não conseguiram acompanhar o aumento do volume de pesquisas, o que deixa muitos pesquisadores fora da Universidade por não terem meios de financiar os projetos.

Para Tourinho, a crise comprometeu a trajetória de sucesso percorrida pelo país nos últimos 10 anos. Entre 2003 e 2013, o Brasil passou de 23º para 13º produtor de ciência no mundo. A partir daí, o país estagnou e, agora, começa a cair. “Enquanto na China, diante da crise, aumentou-se o investimento em ciência e tecnologia, o Brasil fez contrário e reduziu o investimento a um ponto em que, hoje, o sistema nacional de pesquisa e desenvolvimento cientifico e tecnológico está no limite da sua condição de sobrevivência.”

Conexão AMZ
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