Jornalista relata o drama cotidiano de profissionais que enfrentam dias de trabalho escasso

A crise provocada pela pandemia do novo Coronavírus é duramente sentida pelos trabalhadores informais. Nossa colaboradora Raisa Araújo conta sua experiência em entrevistas com motoristas de aplicativo e jornalistas que vivem de freelancer. Eles se perguntam, agora, como farão para cobrir despesas e colocar comida na mesa

Raisa de Araújo

A semana começou diferente aqui em Belém do Pará. Desde o dia em que o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil, os noticiários e a rotina das pessoas mudaram bastante, mas foi no dia de 16 de março que os impactos mundiais da pandemia do Covid-19 começaram a ser mais sentidos aqui. 

Na agência em que trabalho, as rotinas dos 22 funcionários foram alteradas neste dia. Começamos a testar um esquema de rodízio, em que uns ficavam em casa e outros trabalhavam in loco. Mas se há uma coisa que já aprendemos em meio a essa crise mundial é que tudo muda muito rápido. Esse esquema, na agência, funcionou até quarta-feira, dia 18, quando foi definido  o home office para toda a equipe.
Com isso, foram evitados os  deslocamentos em transportes coletivos,  menos indicados para se andar em período de pandemia viral, por onde passavam diariamente cerca de 400 pessoas. Em Belém, segundo o Setransbel, esse número já pode ter caído em torno de 65%.

Nesse cenário geral, meu objetivo é evitar, ao máximo, me tornar um vetor transmissível do vírus para meu pai, que está no grupo de risco por ser diabético e hipertenso. Desde então, passei a me locomover apenas em carros de aplicativos. No caminho para o trabalho, no mesmo dia em que o primeiro caso do coronavírus foi confirmado em Belém, 18 de março, conversei com o motorista de aplicativo sobre a fraca movimentação na cidade. Sem que eu perguntasse, ele comentou que já fazia 2 horas que estava rodando e eu era sua terceira passageira, enquanto que em dias normais, ele consegue fazer, pelo menos, o triplo de viagens.

Waldemir Ferraz, tem 34 anos, e é pai de dois filhos. Uma criança de 2 anos e um adolescente de 15, para o qual ele paga pensão alimentícia. Na nossa conversa informal que logo virou entrevista, o motorista contou que hoje o valor que ele paga de pensão é um pouco maior, depois de definição da justiça. A fala de Ferraz revela preocupação diante do cenário de muitas incertezas em que o país se encontra e no qual ele se considera parte do grupo dos mais afetados: os trabalhadores informais que não têm renda fixa.

O trabalho como motorista de aplicativo funciona, para a maioria dos brasileiros cadastrados nesse serviço, como forma de completar a renda. E para Waldemir não era diferente até o final da semana passada, quando foi demitido da empresa em que trabalhava como representante comercial. Agora, ele passa a depender somente da renda como motorista de aplicativo. Para ele, a demissão já é reflexo da crise desencadeada pelo coronavírus. A corrida, àquela tarde, custou R$10,27. Segundo a empresa UBER, 75%, desse valor, ou seja, R$7,70, foi para Waldemir, que seguiu o dia, trabalhando, em busca de dinheiro.

Mais tarde, dessa vez no caminho de volta para casa, conversei com outro motorista. Passava das 20h30 e comentamos o quanto a cidade estava vazia. Gatilho necessário para que ele falasse sobre as suas incertezas sobre o futuro recente. Raphael, aos 29 anos, adquiriu, recentemente, o carro 0Km, Hyundai HB20 avaliado em 46 mil reais, que dirige para rodar como motorista de aplicativo. O que antes parecia ser a solução para um momento de alto índice de desemprego vivido por, aproximadamente, 11,6 milhões de brasileiros, se tornou, para Raphael, um pesadelo. Se o valor para pagar a primeira prestação do carro, que vence no próximo dia 23, não chegar, as parcelas começarão a atrasar, correrão juros e a dívida se tornará uma bola de neve.

Segundo dados do IBGE, na tentativa de driblar o desemprego, o trabalho informal cresceu no último trimestre no estado do Pará, deixando aproximadamente 2,2 milhões de pessoas à margem da informalidade, o que significa dizer que 62,5% de pessoas que representam a força de trabalho no Pará não possuem direitos básicos garantidos como o trabalho remoto remunerado.

(Arquivo Pessoal)

OS JORNALISTAS FREELANCERS

Mas não são apenas os motoristas de aplicativos que têm sofrido os impactos econômicos da pandemia do coronavirus. Com a intensificação das medidas preventivas contra a proliferação da Covid-19 no Brasil, universidades e escolas foram os primeiros a mudarem suas rotinas e suspenderem suas atividades. Com isso, a vida das pessoas têm mudado radicalmente. O mundo digital e as redes sociais passarão a ser, mais do que nunca, o elo que une e comunica as pessoas. Professores têm dado suas aulas online, reuniões acontecem por vídeo conferência e, no meio disso tudo, descobrimos novas formas de nos relacionar e solucionar problemas que minha geração jamais puder prever.

Foi assim que conheci a história da minha colega de profissão, a jornalista Tamires Porteglio, de 29 anos,  e de sua família. Com o cancelamento de aulas presenciais em estabelecimentos de educação, donos de lanchonetes e cantinas foram afetados, duramente. A jornalista que ficou sem emprego recentemente relatou, a mim, sua aflição. “Meu marido trabalha em uma cantina escolar e é nossa única fonte de renda, eu estou desempregada e temos duas filhas, aluguel, etc. Um dia sem movimentação na cantina já é muito, imagina vários”.

Além de não saber de onde virá o dinheiro para colocar comida na mesa da família, há preocupação também com a mãe e o pai que são mais velhos e a filha que tem asma e os colocam, automaticamente, no grupo de risco do coronavirus. A jornalista conclui seu relato dizendo: “quem não tem renda fixa e nem reservas de emergência e nenhuma rede de apoio, vai sentir o baque de uma forma mais dolorosa”.

Quanto a mim, três dias depois que o primeiro caso de coronavirus foi confirmado em Belém, passo a fazer o meu trabalho em esquema remoto, ou se preferir, home office. Há quem diga que este é um privilégio e, diante de tantas histórias que cruzei durante essa semana, posso concordar com essa afirmação, mas com a consciência de que esse é um direito que deveria ser de todos.

Comportamento AMZ
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