Após quase uma década, a pergunta: ainda vale a pena apostar no BRT?

Idealizado ainda na década de 1990 e construído a partir de 2012, o Bus Rapid Transit da capital paraense já consumiu R$ 430 milhões. Mas, está longe de operar da forma planejada e ser a solução para os problemas de mobilidade na Região Metropolitana de Belém

Equipe | Conexão AMZ

Quem passou os últimos anos longe de Belém pode estranhar os principais corredores de acesso à cidade, como a avenida Almirante Barroso e a rodovia Augusto Montenegro. O congestionamento na cidade não mudou, mas, no centro destas vias, uma faixa de rolamento feita em concreto chama atenção. O que significa? Para onde leva?

À Avenida Almirante Barroso e à Rodovia Augusto Montenegro, geralmente congestionadas, foi prometido um corredor exclusivo de ônibus rápido de 20 km, ligando o bairro de São Brás, no centro da capital, ao distrito de Icoaraci. O famoso Bus Rapid Transit, significado da sigla BRT. O projeto de R$ 430 milhões, que tem verbas municipais e federais, prometia ser a solução para parte dos problemas de mobilidade urbana de Belém e beneficiaria, aproximadamente, 800 mil pessoas, diariamente, já partir de 2013, ano da previsão inicial de entrega da obra. Mas, quatro anos depoia, o projeto ainda não pôde ser concluído.

Realidade diária na Av. Almirante Barroso, em Belém: faixa exclusiva do BRT vazia e as demais com longos congestionamentos. (O liberal)

Para a professora e pesquisadora em trânsito da Universidade Federal do Pará (UFPA), Patrícia Bittencourt, o projeto foi mal-planejado, além de ser inadequado para a região. Ela também declara inaceitável a demora na conclusão. “O BRT é um projeto de gaveta, inadequado para nossa região. É uma cópia do projeto de Curitiba, sem área de ultrapassagem. Não foi consolidado com o BRT Metropolitano. Então, todos esses aspectos mostram falha no planejamento. A demora é inaceitável para um projeto dessa natureza e com essa extensão. O  tempo estimado é em torno de dois ou três anos. Muitas vezes, projetos como esse demoram por questões de licenciamento ambiental, desapropriação, porque aí vai pra justiça e demora. Não foi o nosso caso. Aproveitamos uma rede viária que já existia”, argumenta  a especialista.

A estudiosa também considera que o projeto de Belém ainda está longe do conceito de Bus Rapid Transit (BRT) e que ainda não atende a demanda de mobilidade urbana da Região Metropolitana. “Se ele for bem operacionalizado, consegue até atender parte da demanda da (rodovia) Augusto Montenegro, mas ainda não atende ao conceito de BRT e não resolve o problema da mobilidade urbana de Belém como um todo”.

Ainda na opinião da especialista, a falta de prioridade nas obras é a principal causa da obra não ter sido concluída até hoje. “Não consegui perceber prioridade das antigas gestões municipais em relação ao transporte público. Não foi dada a devida importância que a mobilidade e o sistema de transporte público precisam. Não vamos ter uma mobilidade urbana se não avançarmos neste sentido. Os benefícios do sistema de transporte público para sociedade são inúmeros e é lamentável que nunca tenha tido prioridade”.

Arte Conexão AMZ (Kleiton Pantoja)

Belém parada no tempo

Avenida Almirante Barroso, em Belém,  entre as décadas de 1960 e 1970 (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA)

A discussão sobre mobilidade urbana é antiga. Na década de 1970, um convênio entre os governos brasileiro e japonês selecionou cinco capitais do País, entre elas Belém, para elaborar planos de transportes. Em 1990, foi criado o primeiro Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU). Mas, até hoje, a prometida mobilidade urbana continua sendo um sonho para os Belenenses.

Para a professora Patrícia Bittencourt, da década de 1970 pra cá, apesar dos avanços tecnológicos, não tivemos avanços significativos em relação à rede de transporte público. “Dá década de 70 pra cá muita coisa mudou. A frota aumentou, a população aumentou, mas a nossa rede de transporte público é praticamente a mesma. Novas linhas foram criadas, mas não tivemos nenhum sistema de integração. Normalmente as redes de transporte público evoluem juntamente com a cidade, mas aqui não tivemos nenhum avanço significativo. Por causa disso, temos muitos problemas, superposição de linhas, pontos de parada insuficientes, grande número de veículos que circulam pela cidade e são obsoletos... A tecnologia avançou muito nesse período, mas ainda não estamos usufruindo desse recurso. A única novidade foi a questão do transporte por aplicativo, mas em relação à bilhetagem e outras tecnologias para melhorar a mobilidade, nós ainda não estamos aproveitando”, explica a especialista.

Ouça, na íntegra, entrevista sobre mobilidade urbana e o BRT de Belém coma professora Patrícia Bittencourt.

 

Conexão AMZ
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!