Amazônia High-Tech: há vida além das florestas e rios

Apesar das dificuldades, instituições e empresas apostam em projetos que resultam no desenvolvimento e uso de tecnologia de ponta na região. O Pará tem sido um celeiro de bons exemplos.

Equipe AMZ | Conexão AMZ

High-tech (alta tecnologia) não é exatamente a primeira expressão que nos vem à mente quando falamos em Amazônia, a região de maior biodiversidade do planeta e que, volta e meia, ganha repercussão internacional, muito mais por seus conflitos que pela sua beleza e potencial. Estereótipo de região isolada do mundo, contudo, retrata apenas parte da Amazônia real.

Há também uma Amazônia  que produz e usa intensamente tecnologia de ponta e que busca, ainda que com dificuldades, aliar inovação, sustentabilidade e geração de renda para uma população de 25 milhões de habitantes espalhados pelos nove Estados da Amazônia Legal. Desses, 7,5 milhões estão no Pará, a unidade mais populosa da região.      
Veja o vídeo com nossos editores falando sobre os bastidores desta reportagem.    

E é no Pará que fica o Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá (PCT), o único na Amazônia. Às margens do rio de mesmo nome, o parque ocupa 75 mil metros quadrados entre duas universidades, a Federal do Pará e a Rural da Amazônia.

Conheça mais: Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá

O plano era criar outros dois parques, um às margens do Tapajós e outro na região do Tocantins, mas apenas o PCT Guamá saiu do papel. Foi inaugurado em  2010 e reúne laboratórios e empresas buscando estreitar a relação entre desenvolvimento tecnológico e novos negócios. Diferente do que muita gente pensa, o PCT Guamá não é um apêndice das duas universidades que o cercam. É uma instituição autônoma, mas que recebeu aportes dos governos Estadual e Federal, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). É administrado por uma Organização da Sociedade Civil de Interesse público (Oscip). Batizada de Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação e Desenvolvimento Sustentável Guamá, foi criada por um grupo de dez professores da UFPA.     

Hoje, o parque abriga 57 empresas e 15 laboratórios, a maioria, ligados à UFPA.  “O parque é um ambiente para gerar negócios e desenvolver tecnologias. A presença de empresas e laboratórios no mesmo espaço gera um choque de dois mundos: o mundo da academia e o do mercado ”, explica o diretor-presidente da Oscip que administra o parque, Rodrigo Reis.

No PCT Guamá, os laboratórios precisam ser autossustentáveis. Ou seja, podem e devem  buscar clientes no mercado. Os contratos são feitos com a pessoa jurídica da Oscip, o que acelera o processo, diferente do que ocorreria se a negociação precisasse ser feita com a UFPA.   
 
Entre as empresas residentes no PCT Guamá está a Karajaz.  O nome vem da união de "Karat", quilate em inglês, e jaz de jazida.

A empresa desenvolve  joias para produção em escala industrial. Ou seja, não são peças artesanais. A ideia sai da prancheta de um designer, mas os protótipos são feitos em uma impressora 3D. A partir daí podem ser reproduzidos em série. Geólogo formado pela Universidade Federal do Pará e um dos criadores da Karajaz, Maurício Favacho explica que o “ato de ajudar a transformar pedras preciosas de baixo valor comercial através da tecnologia de irradiação, obtendo um produto que outrora era considerado rejeito e agora é de alto valor agregado”o fez perceber o quão importante é a presença de tecnologias no desenvolvimento sustentável e no desenvolvimento. Outra empresa residente no PCT é  a “Execute TI”, criada por um grupo de jovens recém-formados em Computação. Ela desenvolve softwares, especialmente para a área de logística e já tem clientes nacionais. O gerente de projetos, Alexandre Demarim, conta que eles chegaram ao PCT há um ano e meio. Além do ambiente propício para a relação com os potenciais clientes, como a empresa de cosméticos Natura, Demarim diz que a proximidade com a UFPa ajudou a trazer jovens estudantes para a Execute.


 
“Conseguimos, nos últimos anos, um grande avanço no quesito recursos humanos, em especial graças à expansão do sistema de pós-graduação da UFPA. Temos, hoje, centro e trinta e sete cursos de mestrado e doutorado, abrangendo um enorme leque de áreas de conhecimento. Estão, nesses cursos mais de mil e duzentos docentes pesquisadores e cerca de oito mil alunos. O acesso ao financiamento federal para a pesquisa, porém, continua sendo uma limitação, visto que, além dos cortes, há uma acentuada assimetria na distribuição regional”, diz o reitor da UFPA Emanuel Tourinho. Apesar das dificuldades, há tecnologia de ponta em dezenas de outros setores, entre eles, a mineração, a indústria de alimentos e de cosméticos.
 

MINERAÇÃO HIGH TECH
 
No Pará, a indústria da mineração lidera a caminhada rumo à tendência mundial da Quarta Revolução Industrial ou indústria 4.0. Para tentar minimizar os impactos ao meio ambiente e comunidades, algumas mineradoras têm investido em tecnologias mais sustentáveis. A Vale, por exemplo, está em  fase de testes para a implantação de dois caminhões autônomos na mina de Carajás, o que pode resultar em mais segurança nas operações de mina. Os caminhões autônomos são controlados por sistemas de computador, GPS, radares e inteligência artificial e monitorados por operadores em salas de comando a quilômetros de distância das operações. Ao detectar riscos, os equipamentos paralisam suas operações até que o caminho seja liberado. Os sensores do sistema de segurança são capazes de detectar tanto objetos de maior porte como grandes rochas e outros caminhões, bem como pessoas  que estejam próximas da via.

De acordo com o Diretor do Corredor Norte da Vale, Antonio Padovezi, além do fator segurança, o uso de equipamentos autônomos em Carajás, maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, garantirá mais sustentabilidade. É mais um avanço que traz ganhos sociais, ambientais e econômicos, reduz a exposição dos empregados a riscos, aumenta a competividade, reduz a emissão de gases poluentes e ainda impulsiona uma capacitação e evolução das competências profissionais, acompanhando uma tendência natural e vivenciada hoje no mercado em todo o mundo, diz Padovezi.

Todos os profissionais que irão interagir com os equipamentos autônomos estão sendo  treinados. Veja o que diz Julivan dos Santos, funcionário da Vale.

A corrida tecnológica na Amazônia pode, sim, ajudar na difícil arte de equilibrar aumento de produtividade com redução de impactos ambientais. A economia de combustível  e menor volume de emissões de CO2 são exemplos. Muito além disso, no caso do setor mineral, ela também aumenta a competitividade internacional das companhias e faz bem para os cofres. Com seu programa de transformação digital, que abrange os caminhões autônomos de Carajás, a Vale espera conseguir aumento de cerca de 15% na vida útil de seus equipamentos. Há estimativa também de que o consumo de combustível e os custos de manutenção sejam reduzidos em 10%.

 
TECNOLOGIA E SUSTENTABILIDADE


Em Benevides, na Região Metropolitana de Belém, o Ecoparque da Natura produz, todos os meses, 80% do portfólio de sabonetes da marca. No último mês, a fábrica bateu seu próprio recorde: 35 milhões de sabonetes feitos em 30 dias. Dali, eles saem para abastecer mercados no mundo inteiro. Ao final de 2019, a empresa espera alcançar a marca de 310 milhões de pastilhas produzidas.

Para além dos números milionários, outro fator chama atenção. Na área de 173 hectares onde foi construído o Ecoparque, as tecnologias utilizadas para produzir sabonetes, também operam em prol da sustentabilidade. Logo na entrada do moderno sítio construído às margens da Rodovia PA-391, a empresa instalou os jardins filtrantes, um tratamento inovador de efluentes a partir de raízes de plantas. Nos equipamentos da fábrica, foram instalados sistemas de geotermia que captam ar externo e promovem troca térmica no subsolo, diminuindo, assim, a temperatura no interior dos edifícios e economizando energia. A engenharia dos prédios também foi pensada para tornar o negócio mais sustentável com a reutilização da água da chuva e aproveitamento de ventilação e iluminação natural das instalações.

Já dentro da fábrica, impressoras 3D são utilizadas para confecção de peças diversas para equipamentos que, porventura, precisem fazer alguma troca. O que representa, segundo a Natura, redução de custos e tempo para atender determinado problema de máquina. Robôs colaborativos também operam em atividades que não agregam valor ou que podem causar lesão por esforço repetitivo nos funcionários. No Ecoparque, quase 100% dos equipamentos são monitorados, o que permite que problemas sejam resolvidos preventivamente.

Em entrevista ao repórter Gabriel Pinheiro, o Gerente Geral do Ecoparque, Dilson Guerzoni, disse que acredita que a tecnologia está acessível a todos, em toda a Amazônia. “Não acho que exista dificuldade para trazer tecnologias para Amazônia. Hoje, mudou muito. A tecnologia está acessível a qualquer um, em qualquer lugar, né? Semana retrasada eu estava na comunidade de Boa Vista, na Ilha do Combu, e a moça é uma consultora digital da Natura e vende pra toda comunidade pela internet. Isso é fantástico, sem dúvida nenhuma”, conta. “A gente também tem uma preocupação de estar formando as pessoas que trabalham na operação pra essa tecnologia que tá vindo aqui.
Então, a gente tem feito vários investimentos dessa forma para desenvolver e capacitar os nossos funcionários, conclui.

ENTREVISTA

Para saber mais sobre desenvolvimento e uso de tecnologias na Amazônia, ouça entrevista da jornalista Rita Soares com o diretor de Operações do Sesi/Senai do Pará, Raphael Barbosa.


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