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Tanto Tupiassu

tantotupiassu@gmail.com

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade.

Um coração moído

Tanto Tupiassu

Nesse tempo em que estive sumido, na verdade, fui sumido pela covid.

O vírus chegou e disse, de forma afrontosa, que quem mandava aqui era ele, e eis a reinfecção.  Exames feitos, contágio  comprovado, restava-nos seguir com o ciclo cruel da doença, esperando benevolência e calmaria, como havia sido da primeira vez, mas a doença, amigos, ela tem vontade própria.

A partir do oitavo dia, minhas dores e cansaços começaram a se intensificar de forma estranha, junto com uma incapacidade de respirar ou de fazer qualquer mínimo esforço. Fui jogado no fundo da rede dos desvanecidos. Talvez o momento mais assustador tenha sido durante uma madrugada, quando ao levar minha filha  Íris, de 4 anos,  ao banheiro, vomitei ao tentar carregá-la. A partir daí, todo e qualquer mínimo  passou a me dar ânsia de vômito.

Lembrei  de um amigo que, certa vez, na academia, relatou ter carregado 80 kg no peito e, logo depois, ter vomitado, e era seu corpo dizendo do esforço enorme e pedindo cuidado. No meu caso, comer, andar, mastigar e ir ao banheiro, tudo isso passou a me detonar de forma irremediável.

Um adendo: minha oxigenação, medida sempre regular, jamais esteve abaixo de 97%, condição perfeita de saúde.

Mas, diante de algo que não ia bem, de febres ininterruptas de 39  graus, de calafrios impensáveis nessas plagas nortistas, e de dores e de quase internar - pois as coisas não iam bem, recorri a um médico que, agora, salvou minha vida duas vezes. A primeira, aos 24 anos, quando estive às beiras de uma septicemia. A segunda, agora, aos 42, nos meandros insondáveis da covid.

Ângelo Crescente, infectologista dos melhores, que me pegou pelas tecnologias da telemedicina e, perguntas daqui, exames dali, percebeu o marcador até então escondido dentre os numerozinhos das máquinas que se ligavam ao meu corpo: os benditos batimentos cardíacos.

A covid, deixando meu pulmão limpo, escondeu-se no meu coração e me causou uma miocardite forte, espécie de inflamação na musculatura do coração que, aos poucos, foi apertando, apertando, até a dor ser intensa de a máquina parar.

Não parou, porque olhos atentos vigiavam.

Depois de medicado, de passada a rasteira na rasteira da doença, surgem os questionamentos e mistérios do mundo, além das comemorações por ter me mantido distante de cloroquinas, que certamente teriam prejudicado minha condição cardíaca geral e, talvez, aberto trilha para estar ruim – eis que, comprovado está, o atrapalho de cloroquinas não servem ao covid.

Hoje estou aqui, ainda cansado, abatido, na lenta recuperação da doença cruel que pegou um homem de 42 anos, sem comorbidades ou doenças pré-existentes, e, nos desígnios de suas maldades, quase transforma um coração são em carne moída, dedicado ao choro da saudade, como são tantos os choros nesse Brasil de dor.

Tanto Tupiassu
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