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TANTO TUPIASSU

tantotupiassu@gmail.com

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade.

Os reis nunca morrem

Fernando Gurjão Sampaio

 

Apesar de os reis nunca morrerem, castelos seguem sendo derrubados mundo afora, suas pedras que caem nas cabeças do povo que passa, do povo que resta a seus pés sem entender bem como se dará sobrevivência e resistência após a destruição e mudança de mundos.

Vinte anos após a derrubada das Torres Gêmeas, vinte anos após a ocupação do Afeganistão pelos Estados Unidos - em guerra que se prometia “civilizatória’ -  cenas de morte, violência e medo se repetem sem que possamos fazer nada; sentados em nossos sofás, na segurança de nossas próprias incertezas.

Após duas décadas de indefinições, tropas norte-americanas se retiram apressadamente do país em meio ao caos do retorno Talibã ao poder. A volta, como prometeram os norte-americanos, não se deu pela democracia, ou qualquer outra forma de escolha que levasse em consideração vontades, direitos e liberdades. Muito ao contrário, se dá em meio a mortes e ameaças, as armas sempre em punho, engatilhadas, em claro contraste ao discurso vazio de tolerância e respeito a direitos humanos.

Do pavor que se vislumbra nas fotos e filmagens da população que foge, não se tem qualquer ideia de tolerância. Muito ao contrário: há o medo absoluto de pessoas que não sabem seu destino, como joguetes nas mãos dos reis, cabeças constantemente apedrejadas pelo resto dos castelos que tombam.

Há medo absoluto nos homens que se agarram à fuselagem dos aviões que decolam indiferentes, em claro contrassenso a qualquer regra de sobrevivência; e nos homens que despencam das aeronaves rumo à morte impactada no chão; e nos corpos encontrados rijos, vazios de vida, nos trens de pouso, já em terras ditas livres.

Há medo no rosto do povo que se aglomera em busca de uma chance, que se reúne, sem saber, ao redor de bombas que explodem no local distante, dos nomes difíceis de pronunciar, cenas chocantes borradas em vermelho-sangue, que chegam até nós em velocidade estonteante.

Segue-se o terror onde já não há paz, desnecessariamente atacando pessoas já aterrorizadas pela vida que segue em rumo de medo e inconstância. Há covardia onde já não bastasse o nada ter, o nada saber.

No meio disso, o saber existir mulheres que sobreviverão se submissas, cabeças baixas após breve respiro na superfície sempre turbulenta, mulheres sub-raça de interpretação de leis e escrituras. No meio disso, meninas às quais não será dado qualquer direito, por vezes nem da sobrevivência, a vida-mercadoria que depende do interesse dos homens-donos.

Tudo isso, ao menos, até que novos castelos sejam destruídos, com nova chuva de pedras ferindo cabeças, as guerras de interesse dos grandes, protegidos em suas distâncias seguras, somente os pequenos, peças soltas no vai e vem das ondas da história, esperando que se definam seus novos donos, os que decidirão por vida e morte por vontades tortas, por ordens rotas.

Tanto Tupiassu
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