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TANTO TUPIASSU

Por Fernando Gurjão

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade. | tantotupiassu@gmail.com

O Massacre de Haximu

Tanto Tupiassu

No dia 5 de maio de 2022 foi preso, em Boa Vista, RR, Eliézio Monteiro Neri, 62 anos. Por seu nome, talvez pareça um completo desconhecido. Contudo, ele carrega em sua história um fato peculiar: é um dos únicos cinco brasileiros condenados por crime de genocídio no Brasil. 

E foi assim: 
Em 1993, quando garimpeiros chegaram às proximidades do Rio Demini, na fronteira do Brasil com a Venezuela, os Ianomâmis que lá moravam desde sempre não entenderam bem o que fariam ali. Os garimpeiros chegaram pacíficos e generosos, distribuindo presentes e rancho a todos. Faziam isso porque eram poucos e tinham medo. 

Só que, à medida em que mais e mais garimpeiros chegaram, a ilusória boa convivência se transformou em impaciência. 

Aos Ianomâmis ainda era tudo estranheza. Ainda não sentiam os impactos sanitários e ecológicos do garimpo, e nem entendiam o que queriam os homens que cavavam em busca de algo irrelevante. Entre si, os chamavam de “comedores de terra” ou queixadas, espécie de porco selvagem que chafurda na lama. 

Acontece que logo o rio sujou e a caça fugiu; a gripe chegou matando muitos; a vida desandou. Ao perceber que tudo era risco, os Ianomâmis passaram a fazer exigências, numa clara compensação vital e inquestionável, a seu ver, pela destruição causada. 

As exigências culminaram com agressões mútuas, que resultaram na morte de dois indígenas - que acabaram vingados com a morte de dois garimpeiros, que, por fim, resolveram que os Ianomâmis não mais deviam existir. 

Não se sabe ao certo quando o Massacre de Haximu oconteceu. As primeiras notícias foram repassadas por um antigo tuxua (chefe) da região à uma freira, que, por meio de bilhete, fez a denúncia às autoridades em agosto de 93. 

Números oficiais confirmam 16 Ianomâmis assassinados e retalhados, quase todos idosos, mulheres e crianças. Podiam ser mais: parte dos indígenas estava fora, em uma festividade, ou colhendo ingá. 

O Massacre de Haximu foi manchete nos jornais de todo o mundo, o Brasil novamente noticiado por sua crueldade. 

De todos os garimpeiros investigados e acusados, num processo que se arrastou durante anos, somente 5 foram condenados. Somente agora, quase 30 anos depois, um deles finamente foi preso. 

Foi assim e segue assim, nos mesmos dias em que uma menina Ianomâmi de 12 anos e estuprada e morta por garimpeiros; e outra criança de três anos é jogada em um rio para se afogar; e toda uma comunidade chorosa some e precisa se esconder para sobreviver e velar. 

Ainda somos culpados pela dívida que não some, que cabe a todos como Nação, em clara visão de que, se falharmos em sermos humanos, falharemos em ter futuro.

 

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Tanto Tupiassu
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