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TANTO TUPIASSU

tantotupiassu@gmail.com

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade.

O louco da minha infância

Fernando Gurjão Sampaio

Nas noites silenciosas da Apinagés, havia o louco da minha infância, que passava longas horas na janela do seu apartamento, acho que no segundo ou terceiro andar, em conversas intermináveis com os seres noturnos que só ele via.

Ele não falava alto, não fazia escândalos.

Só batia papo com os seres inexistentes num tom cordial e sério. Por vezes, quando a rua se fazia mais silenciosa - quando cessava o ir e vir dos ônibus – quando cessava o futebol dos meninos - era possível escutar com mais clareza o assunto das reuniões que sempre tratavam de negócios intrincados.

Segundo meu pai, que tinha estudado com ele na infância, era das pessoas mais inteligentes do mundo, daqueles estudantes que poderiam projetar foguetes, se assim quisessem. E que, de tanto estudar cálculos, de tanto estudar e revisar a economia dos países, acabou por enlouquecer de forma irremediável.

Não sei se veio daí, das lendas dos grandes estudos terem tornado o inteligente louco, que surgiu meu medo persistente pela Matemática. Pelo sim, pelo não, sempre achei a História e Geografia mais seguras, eis que não enlouqueciam ninguém - mito que desapareceu na Faculdade de Economia e Direito, as duas que cursei.

Mas, apesar do medo da matemática e dos cálculos, ninguém tinha medo do louco da minha infância. Era pessoa terna, sempre carinhosa com as crianças, que passava o dia andando pelas ruas arborizadas de Batista Campos, sem rumo certo, somente pela necessidade de se locomover e conversar com seus amigos, que sabiam-no louco.

O louco da minha infância permaneceu louco, mas eu cresci e aprendi sobre suas loucuras, sobre suas realidades.

Não houve qualquer maldade Matemática de números crudelíssimos que, no meio das madrugadas de estudo, enfiavam pequenas e finas setas no cérebro privilegiado para enlouquecê-lo.

Houve, sim, esquizofrenia, diagnosticada tardiamente, quando ele já trabalhava e ocupava alto cargo numa antiga e importante empresa, que já sumiu no tempo. Foi doença tratada em processo terapêutico nem sempre eficaz, no que hoje percebo momentos diversos. Havia dias bons, havia dias em que vivia uma vida apartada e triste, angustiada e de andanças intermináveis, sempre recapturado ao convívio caseiro pela mãe idosa, só os dois no mundo.

Não direi o nome, vou preservar sua identidade. Mas, quem viveu minha infância, sabe quem é o louco que partilhamos em nossas lembranças.

Faz pouco, soube que morreu.

Após a partida da mãe, idosa, não durou muito. Os diálogos noturnos com seres que entravam cada vez mais na sua cabeça, as andanças cada vez mais pesadas e lentas, foram definhando o homem sempre forte.

Morreu de algo, não sei quê, e espero que não morra nas minhas memórias. Aqui ainda vive tranquilo, mesmo que doente, nas intermináveis reuniões de negócio que, um dia, levarão a algum lugar onde seja feliz.

 

 

Fernando Gurjão Sampaio é advogado e escritor

Tanto Tupiassu
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