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TANTO TUPIASSU

tantotupiassu@gmail.com

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade.

A memória turva de dias bons

Fernando Gurjão Sampaio

Em época que vive na memória, estávamos em Mosqueiro e éramos criança, nas férias passadas perto da estrada do Aeroporto. Sempre estávamos correndo e brincando, percorrendo o mato, pegando fruto, deixando os adultos malucos com aquela espécie de inconsequência que só as crianças e os velhos têm.

Depois do almoço, do tempo dado à digestão, saíamos ao campo, torrávamos ao sol, brincando de bola, até que surgiam as nuvens negras, a chuva que, aos poucos, tomavam conta do céu e nos davam a hora certa.

Tenho dois pais, pois meu padrasto é pai que a vida deu, e nem consigo distinguir não termos a mesma genética.

Meu pai, quando via as nuvens, já se arrumava e dava ordens, e logo estávamos prontos, exército de Brancaleone, crianças magras, com seus calções de banho largos e agitação.

Encobertos pelo fim da tarde, percorríamos a estrada do Aeroporto até sair no Caramanchão do Chapéu Virado. De lá, andávamos pouco mais, até perto do Hotel Farol, já no final da praia de mesmo nome, onde, por fim, banharíamos.

Era meu pai e suas crianças (quantidade que variava muito e podíamos ser muitos, banhando nas ondas altas do Mosqueiro, ondas maiores que crianças), e jamais consegui atinar como meu pai conseguia dar conta de tantos, capacidade de organização e salvamento que permite que estejamos todos aqui, vivos.

Nas águas marrons daquele rio, éramos peças insignificantes à natureza, que nos jogava de um lado ao outro, crianças rolando nas águas que levavam longe. Depois do caldo, semiafogados, levantávamos rindo, para dar tranquilidade aos demais, que sempre esperavam o sinal para continuar a brincadeira.

Pegávamos jacaré, flutuávamos em pranchas e virávamos grandes surfistas. Dávamos saltos mortais e, nisso, meu pai permanecia em pé, firme como rochedo, aguentando o baque do rio violento, firme, somente olhando suas crianças, dando conta de todas, visão potente que enxergava mesmo no turvo.

Não poucas vezes, atento a tudo, meu pai catava um provável afogado pelos cabelos, pela nesga do short ou por qualquer ponto possível, pois o importante era tirar o pequeno do afogamento, para novos risos.

São memórias que achava quase apagadas. Agora vejo que seguem firmes, somente escondidas no fundo d’água turva da lembrança.

E ainda há tarde nublada em Mosqueiro, na mesma praia do Farol, mirando o mesmo velho hotel, quando a gente se depara com o filho que rola e dá cambalhota debaixo d’água, as tuas crianças, os netos, que agora correm chutando onda, caçando tralhoto, também sumindo nas brincadeiras nas águas barrentas.

Fincado firme no meio da maré, que a tudo quer levar - feito rocha, feito pai - a gente entende que certas felicidades nunca somem, que somente se transformam, e que o amor recebido, o cuidado do pai, sempre será leme a nos deixar certos da chegada, não importa aonde as ondas nos levem.

Tanto Tupiassu
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