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Tanto Tupiassu

tantotupiassu@gmail.com

Fernando Gurjão Sampaio, ou Tanto Tupiassu, é advogado e escritor de Belém. Tem um livro publicado, Ladir Vai ao Parque e Outras Histórias, ganhador do concurso literário da Fundação Cultural do Pará na categoria Contos em 2016. Escreve neste espaço sobre atualidades, regionalismo, reflexões, história e paternidade.

A dor, a força e a resistência do Mola

Fernando Gurjão Sampaio

Quando a Amazônia começou a receber africanos raptados e escravizados, trazidos para serem explorados nos engenhos de cana de açúcar que surgiam em cantos remotos do Pará, também surgiu o Mola, quilombo lembrado por sua organização e poder, luta quase sempre esquecida nas salas de aulas e livros didáticos, mesmo aqui, dentre alunos paraenses, nas terras onde floresceu e ainda respira seu exemplo.

Do Mola, presume-se que foi fundado por volta de 1750, próximo às cabeceiras do igarapé Itapocu, no município de Cametá.

Inicialmente povoado por meras 300 “peças”, tráfico humano sempre obscurecido pela demanda nordestina/sudestina, o Mola cresceu, fruto de dor, mas também de muita força e resistência.

Em tudo que leio e escuto, sei que o Mola foi lindo em seu ato de existir. Imaginem, então, um quilombo, embrenhado nas matas da Amazônia, cercado de verde e medo, que, amparado no desenvolvimento de seus membros, chegou a ser considerado uma verdadeira cidade-estado.

O Mola é exemplo de desenvolvimento sem igual para a época. Constituído como uma república, no Mola existia um senso de organização tão republicano que tinham seu próprio Código Civil, apartado de qualquer legislação de Portugal ou do Império Brasileiro; também tinham sua própria força policial, responsável pela defesa contra ameaças externas e organização interna de seus cidadãos; além de um moderno sistema de representação direta e participação nas decisões coletivas necessárias.

Se não bastasse isso, em uma organização social em que mulheres eram sistematicamente apagadas, o Mola teve, como principais líderes, responsáveis pelos encaminhamentos iniciais que seguiram sua existência, as negras Felipa Maria Aranha e Maria Luiza Piriá.

A força do quilombo era tamanha - nem tanto pelo poderio de suas armas - que ao Mola se juntaram outros quilombos da região próxima a Cametá, como Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre – e isso resultou no surgimento de uma surpreendente Confederação de Quilombos, a Confederação do Itapocu, unidade político-militar que resistiu bravamente durante dezenas de anos, a todas as investidas.

Foram muitos o que tentaram dizimar o Mola, nos moldes do que se fez em Palmares. Senhores de escravo e seus jagunços, tropas portuguesas ou brasileiras, todas sofreram derrotas diante da Confederação liderada pelo Mola, o que foi vital para a organização política da região.

Ao fim, sem conseguir vitória, foi ofertada anistia ampla aos habitantes do Mola, declarados súditos e deixados em paz no meio suas liberdades.

Somente em 2013 foi concedido o título de Domínio Coletivo ao Quilombo do Mola, local que sobrevive como vila, com pouco mais de 100 habitantes que mantêm viva a história surpreendente, surgida aqui, nas terras do Pará, também banhadas de sangue de pretos.

Tanto Tupiassu
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