Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

Os sete pedidos do Pai-Nosso e a nossa porção carente

Océlio de Morais

Estudiosos da Bíblia, aqui designados todos aqueles que se dedicam à sua compreensão e à sua explicação, identificam que a oração do Pai-Nosso contém sete pedidos.

Quero tratar desse assunto nessa crônica, porque os sete pedidos, além da simbologia numérica, penso que querem nos indicar outras coisas e outros sentidos, por exemplo, a ideia segundo a qual o ato de pedir revela a natureza incompleta da pessoa e que a súplica indica o caminho da humildade que humaniza.

O dicionário define o substantivo feminino “coisa” como sendo “Tudo o que existe ou que pode ter existência (real ou abstrata)”. As coisas existem para nós como um sentido à completude de que tanto necessitamos e buscamos. Mas ninguém é completo sozinho.

Não falo apenas do amor ideal ou da amizade verdadeira indispensáveis, que são (ou deveriam ser) como as quatro forças da natureza que nos servem desde o primeiro ao último dia de nossa existência.

Mas falo também da nossa porção carente, que funciona como relógio avisando que o tempo de nossa construção é uma espécie de súplica permanente por mais tempo e por mais oportunidades à realização dos nossos objetivos.

Por tudo isso, a existência humana é um pedido. É cheia de pedidos. Por todo o tempo. Em todas as suas frações.

Isso é divinamente maravilhoso para mostrar claramente que, para tudo e em tudo, dependemos de algo ou das mãos solidárias que completem o sentido das coisas e nas coisas que fazemos ou procuramos.

Geralmente a gente nem percebe que a existência é um pedido, porque somos envolvidos pelos compromissos que nos arrastam suave ou impetuosamente ao mundo e às coisas das nossas escolhas individuais.

Muitas das vezes, escolhas demasiadamente individualistas levam ao materialismo incontrolável e às falsas aparências nas relações  sociais - falsas aparências que, denominadamente, podem ser definidas como hipocrisias da natureza humana. 

Os sete pedidos do Pai-Nosso foram legados por Jesus Cristo diante da permanente incompletude humana.  Mas também como  recomendação de humildade aos fariseus, identificados como os notórios hipócritas da época de Jesus: 

-> "E, quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros”, disse Jesus, segundo o Evangelho de São Mateus assim complementada:  “Mas, quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.

Em seguida, Jesus legou à humanidade a oração dos sete pedidos, conforme Mateus:

-> “Vocês, orem assim:  Pai Nosso que estais nos Céus,  santificado seja o vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino,  seja feita a vossa vontade. assim na terra como no Céu.  O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas ,  assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,  e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.,  porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém.” (Mateus 6:9-13).

Mateus foi o único apóstolo a fazer a narrativa do Pai-Nosso e exegetas afirmarm que que o Evangelho foi organizado por um judeu na queda de Jerusulém nos anos 70 d. C .

Como oração, a natureza da oração ao Pai-Nosso é, em si mesma, uma imploração, um clamor, um pedido. Enfim, uma reunião de súplicas. 

O 1º pedido é uma  aclamação-pedido, à medida que o homem, dirigindo-se ao Deus-Criador que está nos Céus, roga [que] “santificado seja o vosso Nome”. Ou seja, como súdito, rende honras ao Soberano.

No 2 º pedido (“venha a nós o Vosso Reino”), por certa medida, Jesus quis lembrar que o homem teve o reino de Deus e nele viveu, eis que criado à imagem e  à semelhança, mas o perdeu quando Adão e Eva cometeram o pecado original, e, partir daí, as coisas na Terra ficaram mais complicadas para o homem, tanto que agora precisa  conquistar as boas-aventuranças do Reino de Deus. 

No 3º pedido ( “Seja feita a vossa vontade” ) o homem prostra-se diante de Deus. Mas também significa que nada e ninguém na Terra prevalecerá em detrimento de Deus. O pedido do homem é uma súplica, mas Deus tem soberania para atender ou não. Entretanto, como Ele é boníssimo, sempre atenderá, como garantiu Jesus: “Pedi e recebereis” (Mat. 7, 7-12).

No 4º pedido, é bom não confundir, pois, como ontem e nos tempos atuais, muitos vendem milagres, falsos milagres, ressalte-se.  “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” não se refere à saciedade da forma material, mas espiritual, pois refere-se a Deus como o alimento magno da existência e da alma.  São as necessárias  bênçãos diárias  com forma de ganhar as maravilhas do Reino de Deus e nele viver a partir das experiências terrenas. 

O “pão nosso de cada dia” é o próprio Jesus, reafirmou o Evangelho de João mais tarde (entre os anos 80 a 95 d.C) na perspectiva da afirmação  teológica do cristianismo, 

-> Então Jesus declarou: "Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede. (João, 6:35)  Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo".(João:36)..

Bem antes, no livro de Êxodo (20), o primeiro mandamento já afirmava que Javé era o ‘Deus zeloso”, aquele que tudo provê em bênçãos, por isso, não tolera culto a falsos deuses, 

AH…, o 5º pedido é, assim pode ser dito, uma faca de dois gumes, porque o pedido guarda uma proporção ou reciprocidade: Ao mesmo tempo que a súplica é “perdoai as nossas ofensas”, como uma confissão de arrependimento, de outro lado,  Jesus não deixou de graça e exigiu do requerente a reciprocidade do perdão a quem lhe fizer o mal: “(...) assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. 

Já imaginaram se Deus não vem nos perdoando na totalidade dos nossos pecados porque também nós não estamos perdoando a quem nos tem ofendido? Então, é bom a gente não esquecer: o pedido aqui é de mão dupla…, teremos o perdão na medida do nosso perdão, por isso, devemos perdoar não apenas até 7 vezes (como era na tradição hebraica) mas 70 x 7, como foi aconselhado por Jesus (Mateus 18:21-22. Isto é, perdoar sempre significará obter o perdão permanente de Deus.

E o que nos diz o  6º pedido?, aquele que  pede socorro contra as tentações:“ não nos deixeis cair em tentação”?  Neste pedido da oração, Jesus reafirma preceitos dos 10 mandamentos, onde as “tentações” são classificados como “vícios” ou desvirtudes, por exemplo, o culto aos falsos deuses, por isso devem ser eliminados, assim como usar “o Santo nome de Deus em vã”, é uma perigosa e permanente tentação.

Já bem mais tarde, entre os séculos XIII e XIV,  a  Teologia Católica enumera os sete pecados capitais  como resgate às orientações éticas e religiosas dos 10 Mandamentos.

O 6º pedido é, no fundo, uma imploração  para que se erga uma cortina ou uma muralha espiritual contra os sete pecados capitais (Gula, Avareza, Ganância, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e Soberba) e pecados mortais, que desvirtuam a boa natureza espiritual.

Enquanto no 6º pedido, a súplica há um certo reconhecimento de que a vida em sociedade tem muitas facilitações que potencializam à corrupção da boa e ética natureza humana,  o  7º pedido (“livrai-nos do Mal”)  indica que a pessoa sem equilíbrio espiritual é mais frágil do que o mais fino dos cristais e necessita (e por isso não pode prescindir) do Protetor, aquele que  tem o poder de controlar e eliminar  todo mal capaz de maltratar o espírito. 

Mas por que sete pedidos ?

Por que não 01, que, na numerologia bíblica,  designa o Deus onipotente, o Criador ?

Por que não 3, que representa a Santíssima Trindade, a morte de Jesus às 3 horas da tarde e a ressurreição de Jesus no terceiro dia)?

Por que não 10, que remeteriam ao decálogo (os dez mandamentos) sobre ética religiosa e sobre relação do homem com Deus, revelados a Moisés  ?

Por que não 12, que simbolizariam as 12 tribos de Israel, a pregação de menino Jesus aos 12 anos no templo ou ainda 12 apóstolos?

Por que não 40, que reportaram aos  40 dias e 40 noites do dilúvio,  aos 40 anos de travessia do povo hebreu no deserto, depois da escrevidão de 400 anos no Egito ou ainda aos 40 dias de orações de Jesus no deserto?

A razão dos sete pedidos vincula-se ao fato de Deus ter descansado no 7º dia, após a criação do mundo  (Mateus 18:21). O número sete, então, representa a obra completa de Deus, a partir da reminiscência ao livro de Gênesis (Cap. 2:2) e ao Êxodo (20:4). 

E Jesus, ao introduzir os setes pedidos no Pai-Nosso, muito provavelmente quis dizer que ali estão sete necessidades do nosso dia a dia, que precisam ser atendidas para a vida em harmonia com os semelhantes e estar em sintonia com Deus.

O sete é o número da completude. Os setes pedidos são, desse modo, os setes caminhos que devemos percorrer com fraternidade durante nossa existência para que, depois da partida, sejamos dignos do Reino Espiritual de Deus.

Océlio de Morais
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