Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

O tempo e a liberdade

Océlio de Morais

Raul Seixas,  talvez o "maluco beleza”  mais  roqueiro-filósofo empírico brasileiro, enchia os pulmões ao cantar a música “Metamorfose ambulante”, com aquela voz nem tão grave, nem tão rouca: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

A música, que massificou com uma certa transtemporalidade, lembra que a condição humana vive em transformação ou é ontologicamente inconstante -  fato, aliás, já refletido nas clássicas obras “Física” e “Metafísica”,  de Aristóteles, onde analisa  a estrutura ontológica do Ser, na perspectiva política do “Ser” ou do "não-Ser". 

Jean-Paul Sartre (filósofo, escritor e crítico francês), no livro  “O Ser e o nada”, descreve o incessante conflito humano diante das escolhas de valores que precisa fazer no curso da vida, para o exercício das liberdades, em realidades que ora estão no campo metafísico do pensamento e ora estão no mundo real.

Não sei se Raul Seixas era leitor  de Aristóteles ou de Sartre, mas sei que Sartre admirava Bertrand Russell e Martin Heidegger - este, aliás, bem retratado nos ensaios  literários-filosóficas “Revisitando Heidegger por via  de Benedito Nunes e seguindo suas alterações  ao longo  da filosofia”, do filósofo e escritor paraense,  Octávio Avertano Rocha,  decano da Academia Paraense de Letras., publicadas no seu prestigiado “Vana Verba”.

Já na obra  “A Velhice”, Simone de Beauvoir (a esposa de Sartre) também aborda a condição existencial: “o sentido de nossa vida está em questão no futuro que nos espera; não sabemos quem somos se ignorarmos quem seremos”. Talvez o mais importante livro sobre o tema,  Beauvoir trata do  envelhecimento sob aspectos sociais e abandonos sociais do idoso e ainda sob aspectos filosóficos, na perspectiva da ética, da alteridade irredutível.

Sartre e Seixas - por diferentes vias do pensamento, da reflexão e da criação -  trataram da condição humana e do tempo que a transforma, não apenas nos aspectos do envelhecimento físico, mas,  também no envelhecimento das ideias; estas,  notadamente quando ficam estagnadas no tempo ou quando são  prisioneiras das extremas ideologias políticas seccionistas, cuja característica principal é a intolerância quanto ao diverso. Por outras palavras: ao ideologismo radical  só é válido, só é verdadeiro, só é aceitável e só é tolerável o pensamento ou conceito com o qual se comunga. 

Para esses casos (ideologismo radical), não é que o tempo - que  sempre costuma mudar o rumo e, às vezes, também a natureza das coisas, nos casos do ideologismo radical - não  tenha sido suficiente para mudar o rumo das coisas. 

É possível que isso esteja relacionado à incapacidade da pessoa em compreender sua realidade específica (sua condição existencial) e os fatores da realidade do seu entorno  - fatores intrínseco e extrínsecos que potencializam as escolhas dos valores à vida, os quais irão influenciar no exercício das liberdades individuais e coletivas.

Lá no livro I, das Confissões, Santo Agostinho (teólogo, filósofo patrístico e Santo das igrejas Católica e Anglicana)  definiu o tempo como “o momento próprio das impressões  subjetivas da pessoa”.

Uma das coisas que isso pode nos dizer,  a partir do que escreve Sartre em “O ser e o nada”,  é que é através do pensamento (como exercício da liberdade) que “o ser humano planeja o encontro com o seu próprio futuro”, mas no seu próprio presente, é tomado por receios e angústias quanto às incertezas do futuro.

Por lógica, é o entrelaçamento dos fatos  do presente (pelas escolhas dos valores e princípios à vida) que o indivíduo planeja o seu tempo futuro. E assim constrói sua história pela soma dos fatos  que compõem o tempo de sua existência.

Um pensador anônimo cunhou essa frase: “o tempo é o senhor da razão” e, desde então,  muitos filósofos, poetas, escritores, políticos e pessoas do povo  ainda usam-na em diversos contextos.  A razão, que está relacionada ao iluminismo (este, representa o cientificismo , aqui tomado como doutrina filosófica para  conhecer e compreender a realidade), sendo o berço das novas ideias sobre a liberdade, o progresso, a tolerância e a fraternidade, por exemplo. 

O tempo então é o mestre que conduz a pessoa à compreensão dos sentidos da liberdade, da tolerância, da fraternidade.  Não o tempo mitológico regido por Kairós, o deus do tempo oportuno, nem de Krónos, o deus do tempo fugaz que não dura muito tempo, que domina e pode destruir destinos dos súditos humanos.

Mas o tempo é mesmo “a maneira humana”, para novamente relembrar Santo Agostinho, “de se relacionar com as coisas e de se relacionar com Deus”, aqui, para aquele que  tem fé em Deus. Disso resulta o tempo do pensamento , equivalente ao tempo metafísico ou o tempo da fé subjetiva. 

Por isso, o tempo não é apenas uma doutrina escatológica, que se preocupa apenas com o estudo das coisas que podem acontecer no final dos tempos. Não é nada apocalíptico.  

Consideremos, desse modo, que o tempo maduro nos mostra que o extremismo ideológico, que gera as intolerâncias quanto à diversidade de pensamento, resulta do tempo imaturo daquele que ainda não compreendeu que o tempo da nossa existência oferece a oportunidade às relações humanas  respeitosas, tolerantes e fraternas.  

O tempo que leva à maturidade e ao  envelhecimento, por conseguinte, é uma espécie de chave para o olhar da compreensão  mais serena de como a pessoa precisa se relacionar bem  com outras pessoas, de como se relacionar com as coisas e com Deus.

As intolerâncias  (porque não se concorda com essa ou aquela ideologia política, por exemplo), no sentido deste breve ensaio sobre o tempo e a liberdade,  representa, a negação ao exercício das liberdades humanas. 

E, por lógica, consiste na negação do Ser humano. 

Océlio de Morais
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