Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

O sorriso mágico de Deus na filosofia e na poesia

Océlio de Morais

A filosofia é uma poesia; a poesia traduz um certo tipo de filosofia. Com história ou estória, a crônica é uma filosofia com poesia.

Filosofia, poesia, crônica - e tudo o mais que a inteligência seja capaz de criar, organizar, traduzir com leveza e colocar no papel - sempre têm uma centralidade: a essência da natureza humana com as satisfações da alma ou com os dilemas que lançam desafios à existência.

Essa comunhão universal da filosofia e da poesia, belíssima por natureza, é bem antiga, aliás, sempre existiu desde que o homem começou a ser capaz de organizar o pensamento.

Olhando e pensando bem no que disseram alguns grandes filósofos, acho que a conjugação num só pensamento da filosofia e

da poesia.

Lucio Amaeo Sêneca, que era magistrado, em seus tratados sobre o estoicismo filosófico (“Consolos” é um deles), recomendava a reflexão sobre a renúncia ao apego excessivo aos bens materiais  como uma das possibilidades da busca da tranquilidade da alma por meio do conhecimento e da contemplação.

Haverá tranquilidade ou paz profunda sem a poesia que deve envolver a alma? Sinceramente, ainda não encontrei isso em nenhum ser vivente, mas é possível ver e identificar, com um simples olhar de compreensão, quando a alma agoniza pela arrogância, às vezes muito em decorrência do apego excessivo aos poderes materiais.

Aqui, então, a tranquilidade que dará leveza à alma repousa na simplicidade, que é a suave poesia que alimenta a vida.

Sócrates, de quem sou fã das ideias, falando com Céfalo (no diálogo sobre “A Justiça”, o livro de abertura de A República, de Platão) sobre valores da vida, numa frase fez uma poesia filosófica: ttal como os poetas amam seus poemas, os pais amam seus filhos”.

Por outras palavras: o pai ama a sua poesia, que é o filho; o poeta ama a poesia, que é a criação da sua alma.

Por isso, o poeta e o pai, o pai e o poeta amam suas criações. Mas como Sócrates - filósofo-poeta ou poeta-filósofo (não importa a ordem, porque as duas artes eram de sua natureza) - como via, fazia e vivia a harmonização da filosofia e da poesia?

Aqui está uma resposta dele que, na minha percepção, diz tudo: :”O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo

fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido.”

O pensamento filosófico, nessa perspectiva, traduz a poesia da vida real e do nosso imaginário de como desejaríamos escrever as páginas de nossas vidas.

Influenciado pelas ideias de Sócrates , mas discípulo direto e de Platão, Aristóteles era o “cara” de sua época - para usar uma expressão popular na atualidade - porque pensava com o coração e razão, por isso ele encontrava estrelas até no fundo do poço: “No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas”.

Agora, pergunto: Era ou não um baita de um poeta-filósofo? Respondo: era e daqueles de mão cheia que escolhia as virtudes humanas(a amizade e a verdade, por exemplo) como seu garimpo

à tradução das coisas humanas: “ O que é um amigo? Uma única alma habitando dois corpos”, perguntou e respondeu ao mesmo

tempo aos seus jovens aprendizes na Escola peripatética, que significa os que passeavam (estudavam) em círculos ao ar livre.

Era ou não um filósofo-poeta? A lição seguinte responde por si: “a felicidade é o único objetivo do homem”. Sim, essa é uma verdade transcendental. Apesar disso, muitas vezes não somos capazes de entender isso e o tempo vai passando como o vento que leva para bem longe as oportunidades que podem nos dar a tranquilidade à alma.

Ainda é preciso trazer ao nosso deleite a filosofia poética de Platão, outro que cultivava a sabedoria com humildade: "Minha Academia se compõe de duas partes: o corpo dos alunos e o cérebro de Aristóteles"., dizia ele.

Platão, o discípulo de Sócrates, em seus inúmeros diálogos e cartas - que os qualifico como verdadeiras crônicas filosóficas sobre a natureza humana - também tinha a filosofia e a poesia em sua alma.

Olhem o que ele disse sobre o poeta e a poesia: ”Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele”.

E arrematou: “Uma vida não questionada não merece ser vivida“. Eis a poesia e filosofia juntas, de mãos dadas, narrando sentimentos da alma.

Inexisitiria tanta verdade no que disse o filósofo-poeta? A vida é, desse modo, uma filosofia que distingue cada indivíduo, à medida que o tempo de sua existência vai escrevendo suas crônicas naturais, compondo o seu livro de vida, com ou sem poesia.

Para mim, a comunhão da filosofia e da poesia e vice-versa numa só alma, só é possível porque o filósofo-poeta ou poeta filósofo guarda em seu coração e alma o sorriso mágico de Deus.

 

Océlio de Morais
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