Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

O seminarista, diferente do romance...

Océlio de Morais

O livro não era o Leviatã (1651, de Thomas Hobbes), nem o Madame Bovary (1857, de Gustave Flaubert), tampouco era o ‘Discurso sobre o método” (1637, de René Descartes) que, um dia no passado remoto, já estiveram no rol dos proibidos pela Igreja Católica, porque sugerem conteúdos contrários à doutrina da Igreja.

O livro que desencadeia essa crônica não era proibido. E constava na rica biblioteca do seminário São Pio X, em Santarém do Pará. Qualquer seminarista podia lê-lo. Muitos dos meus colegas o leram, eu também. Quero me referir ao romance ‘O seminarista”, de Bernardo Guimarães.

“O seminarista”, tão antigo quanto atual, coloca na berlinda a questão do celibato na Igreja Católica . O romance foi escrito em 1872 ainda na época do Brasil Império, pouco mais de meio século depois da proclamação da Independência de 1822, revolução que rompeu politicamente com o Império português.

Ainda no século XX, aquele romance do século XIX, mexia com os corações juvenis dos seminaristas. Curiosamente, claro, porque também ali o regime era de internato e o celibato era regra a ser obedecida.

Numa visão mais fechada, em tempos bem remotos do século XV ao século XVIII, a crítica ao celebrado (um dos votos sacerdotais na Igreja Católica que Martinho Lutero renegou, embora as duras críticas às vendas de indulgências tenham sido a principal causa à reforma protestante, fato que pode ser visto nas 95 teses, de 1517,) certamente incluiria o romance brasileiro no rol dos livros proibidos aos adeptos do catolicismo.

Bernardo Guimarães, também autor de Escrava Isaura – o romance mais conhecido, porém maiores elogios da crítica literária da época foram para “O Seminarista - o escreveu a partir da história de um fazendeiro de Minas Gerais, que obriga o filho (Eugênio) a ser padre, depois de inventar que Margarida, filha de uma agregada da fazenda (por quem era apaixonado) havia se casado.

Quando, em 1976, li o romance, eu havia acabado de ingressar no regime de internato no seminário São Pio Décimo da então prelazia de Santarém – prelazia canonicamente erigida em 21 de setembro de 1903 pela bula “Territorialis Praelatura Santaremensis”, do Papa que deu o nome ao seminário: Pio X, (09.09.1903 a 20.09.1914), predecessor de Leão XIII, este, o Papa que organizou o Concílio Vaticano I e autor de encíclicas que mudaram definitivamente as relações entre Igreja Católica e Estado, dentre elas, a até hoje famosa encíclica Rerum Novarum (1891).

Aqui abro um parêntesis para outros registros curiosos: o seminário recebeu - depois do lançamento da pedra fundamental em 1955 por Dom Floriano e inaugurado em 1962 por Dom Tiago Ryan - dentre os primeiros seminaristas, meninos a partir de 9  anos e jovens até 20 anos de idade. 

A ênfase na construção seminários à formação de padres da própria região (o denominado padre autóctone) veio com o Concílio Vaticano II, do qual participou dom Ryan já como bispo prelado da Prelazia Territorial de Santarém.

Norte-americano, Dom Tiago Ryan, quando chegou ao Brasil em junho de 1943, eu nem havia nascido. Mas Deus estava cogitando minha vinda ao mundo para mais ou menos duas décadas depois. E as coisas espirituais de Deus cruzaram bondosamente nossos destinos nos últimos cinco anos da década de 1970 e primeiros cinco anos da década de 1980.

Conheci Dom Tiago direta e pessoalmente em 1976 quando ele ia fazer as visitas aos seminaristas e celebrar missa dominical da manhã na capela do seminário, oportunidades que brindava cada seminarista com um sonho de valsa, ao que ele jocosamente dizia ser “ovo de urubu”.

Depois de cada viagem que fazia aos Estados Unidos, atrás de donativos para custear as despesas do seminário, Dom Tiago sempre trazia alguma lembrança aos seminaristas e, numa delas, nos presentou com cordões de prata. Noutra, com dedicatória, me deu uma foto dele com Papa Paulo VI, feita em 1977 por ocasião da visita “ad limina apostolorum”, que é feita a cada 5 anos à Cidade do Vaticano para um encontro com o Papa, quando então visitam os túmulos de são Pedro e são Paulo.

Um pouco mais tarde, já no ano de 1979, seminarista adolescente, tive a felicidade de ter Dom Ryan como meu orientador espiritual na casa de formação “Tiagão”, específica para seminaristas que faziam o ensino médio no Colégio Dom Amando, também em Santarém.

Aqui fecho o parêntesis, pois vou guardar essa rica experiência para a crônica “O bispo e o seminarista”. Retorno ao tema central da crônica, a partir do romance “O seminarista”.

A leitura de ‘O seminarista” implicou em dois desafios, para mim: um, de natureza literária. Outro, de abnegação.

Esses dois desafios também estão estritamente relacionados com a religiosa Angélica Paiva.

No seminário, Angélica Paiva era a professora de português, redação, literatura e língua francesa Religiosa culta, teve aperfeiçoamento de formação na França, ela estimulava ao máximo as leituras dos romances clássicos da literatura brasileira e estrangeira.

Seu método de ensinar e de educar era diferente de tudo o que eu já tinha visto enquanto estudante do colégio Imaculada Conceição (das religiosas clarissas na minha cidade natal, Monte Alegre) e do que já vi até os dias atuais: a cada romance lido, além do tradicional fichamento, professora Angélica pedia que criássemos um novo início ou uma outra conclusão ao romance lido.

O incentivo à leitura era uma forma de promover o desenvolvimento da linguagem, tanto que ela orientava para que cada palavra diferente fosse anotada para, em seguida, irmos ao dicionário tirar as dúvidas.

O estímulo à criação literária também era uma marca registrada do magistério da professora Angélica - sem dúvida a melhor que tive em toda a minha vida de estudante nos ensinos primário e colegial, como se designava à época: nas aulas de redação, ela distribuía os seminaristas pelo pomar do seminário (uma imensa área verde cortada pelo rio Irurá), pedindo que cada um observasse e ouvisse a natureza para, depois, criarmos crônicas, contos e poemas.

Aquela era a forma inteligente - nunca esqueço disso embora na época juvenil fosse um grande desafio às nossas imaginações juvenis - de estimular a leitura e a fixação da leitura.

Hoje penso que, no fundo, a exigente e criativa professora Angélica queria estimular a liberdade da criação e, quem sabe, dali surgiriam padres-poetas, padres-cronistas, padres-escritores. Algo do gênero.

Foi naquele ambiente de liberdade literária a céu aberto e de estímulo à criatividade que me aventurei a fazer um novo final ao romance “O seminarista”, premido pelos sentimentos de abnegação e da criação literária.

Quanto à abnegação, confesso que minha vontade era não deixar transparecer meus naturais desejos anti-celibatários de adolescente curioso pelas descobertas sexuais.

De um lado, o temor reverencial recomendava, por obsequiosidade religiosa, para defender o celibato então atacado no romance. De outro, o ímpeto juvenil - e olhe que é muito difícil segurar ímpeto dessa natureza - ia em sentido contrário. Essa era a minha abnegação.

Naquele conflito, prevaleceu a minha iniciática natureza ou vontade literária, tão livremente estimulada nas aulas de literatura e de português.

Recordo-me que, na minha redação, deixei a paixão adolescente falar mais alto: mudei o enlouquecimento do padre Eugênio que, assim ficou, quando foi celebrar a sua primeira missa na terra natal e descobriu que Margarida, doente, nunca havia casado e que ainda o amava.

A modificação que fiz foi assim, pelo que consigo recordar, pois o tempo leva algumas lembranças da memória remontar: às secretas, dei um mês de convivência íntima aos dois (Eugênio e Margarida) para terem certeza se o amor da juventude ainda era ou não a razão de suas vidas maduras-adultas.

Ao final, descobriram que, sim. Por isso, ao cabo de minha estória “estória” Eugênio deixou o sacerdócio, casou-se com mulher amada, união da qual nasceu um filho, batizado na Igreja Católica com o nome de Eugênio I, que, ao contrário do pai, ingressou no seminário por vontade própria, ordenou-se padre e teve a coincidência de outorgar a extrema unção ao seu avô paterno.

Minha inventividade foi bem recebida pela professora Angélica, que, como ótima gramática, por outro lado, não deixou de apontar meus infantis erros de português.

A partir daquela experiência, adquiri o hábito salutar - que ainda o mantenho nos dias atuais - de fazer leitura acompanhada de uma caneta e uma folha de papel para ir anotando as palavras difíceis e correr ao dicionário para buscar e aprender os seus significados e, assim, alimentando novas ideias.

E Foi desse modo que ‘O seminarista”, de Bernardo Guimarães., contribuiu à minha primeira tentativa de reescrever o final da história de um romance famoso.

Océlio de Morais
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