Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

O relógio de Deus

Océlio de Morais

Ontem eu sonhei com o relógio de Deus. Aproveitei para bater um papo com Deus e fazer alguns pedidos.

Eu sei! Já estou “pendurado” com Deus. São tantos os pedidos, todos os dias. Ele sempre os atende. Mas no seu tempo. Não no meu. 

Uma das mancadas ou pretensões humanas mais descabidas é pensar e querer que Deus sempre esteja à nossa disposição. O tempo de Deus é o tempo da sabedoria. É o tempo diverso do tempo humano.

O tempo humano está relacionado ao relógio. É bem diferente daquela antiga mitologia grega quanto ao tempo Kairós e ao tempo Chronos, que eram invocados lá pelo século  V antes de Cristo:  aquele significava  a hora certa do “deus do tempo oportuno” e, Chronos, era o “deus do tempo”.

No cristianismo, há o “tempo dos Céus” (o tempo da eternidade) e o “tempo dos homens” (a temporalidade da vida.)

O tempo humano corre na mesma velocidade dos ponteiros do relógio. O relógio de Deus tem outra batida e não funciona de acordo com nossos pedidos. Na melhor das hipóteses, funciona conforme as nossas sinceras manifestações de fraternidade, de caridade de amor devocionais sem olhar a quem.

Dentro do nosso tempo existencial, fazemos muitos planos. E também inúmeras promessas e pedidos. É o que eu chamo de tempo da prostração devocional.

Esse tempo devocional é para corajosos e despojados (isso devemos admitir) porque nossas fraquezas (ora ocultas ora expressas)  tomam muito tempo e, às vezes, enchem a paciência de Deus.  Falo assim porque Deus é meu amigo. 

Como disse lá no início, ontem eu sonhei com o relógio do juízo final. Era o sábio relógio dos justos e mansos de coração, era o relógio de Deus.  Em resumo, o sonho transcorreu num diálogo com Deus, e foi mais ou menos assim: 

Deus ajustava o relógio do fim dos tempos ao dia do  2º domingo do mês de outubro. 

Era um ajuste em contagem regressiva até a meia-noite do 2º domingo de outubro. Meia-noite porque Deus não queria quebrar a magia das promessas e dos arrependimentos desse dia mágico na vida dos devotos marianos. Contagem regressiva  tipo o tempo limite dado  à “Gata Borralheira”, o conto de fadas escrito por Charles Perraut, no século XVII, mas que até hoje encanta todas as idades.

No sonho, Deus estava ajustando o seu relógio ao juízo final coletivo das pessoas. E Deus pedia que todos os humanos também ajustassem seus relógios na mesma contagem regressiva.  Eu estava apavorado, porque, particularmente, achava que o juízo final seria  individual e não coletivo. 

Do sonho à realidade, nos diz o evangelho segundo São Mateus (25,31-46), que haverá o julgamento final de todos as pessoas. No anunciado julgamento definitivo, quando o relógio humano se ajustará em definitivo ao tempo de Deus, será o dia da prestação de contas.

A teologia católica também nos fala em juízo final.  Está na Summa Teológica de Santo Tomás de Aquino, que sacraliza e reforça a ideia do julgamento definitivo. 

Ah…, ia esquecendo:  a belíssima e histórica Catedral de Notre Dame em Paris, do século XII  - por duas ocasiões

tive a felicidade de visitá-la (uma em 2014 e outra em 2018), antes do grande incêndio do mês de abril de 2019 -  tem  logo no portal  de entrada a escultura do  Anjo da Guarda e demônio, uma encenação artística do juízo final. 

É lindo esculturalmente, mas é assustador porque remete ao imaginário do fim da existência humana. 

Voltemos ao sonho: Deus estava programando o seu relógio para parar exatamente na última badalada do sino da eternidade: meia-noite em ponto.

Deus queria aproveitar aquele dia   porque, nós (os devotos de Nossa Senhora de Nazaré), fazemos mil pedidos  em troca de iguais mil promessas de arrependimentos.  Então, na avaliação de Deus, seria um ótimo dia ao ajustes das contas. 

Mas como Deus é bom o tempo todo e o tempo todo Deus é bom - esta é, aliás, a frase tatuada em meu antebraço esquerdo como alerta diário ao tempo de tolerância de Deus às minhas fraquezas - tive a ousadia de fazer um pedido a Deus, visto que  Ele é meu melhor amigo lá nos Céus. 

O meu pedido era descabido. Eu sei!  Mas como se diz  na sabedoria popular: o “não” estava garantido; tentaria obter  o  “sim”.  Era  um pedido descabido,  porque não podia falar a Deus em nome de todos os devotos marianos. 

Segundo, porque  ainda penso que o juízo final não será coletivo; porém, individual mesmo, aquela hora da morte (ou a hora da volta ao lugar de onde viemos, conforme Epicteto, um filósofo da antiguidade romana), quando cada um, um a um, iremos prestar contas das nossas tantas peripécias humanas.

O meu pedido foi seguinte: meu boníssimo amigo Deus,  por favor, não ajuste ainda o seu relógio  do dia final e nos dê  mais um tempinho até que entendamos o sentido fraternal da nossa existência.

- Deus respondeu: mas o tempo dos homens é como uma vela acesa suscetível aos sabores dos ventos; portanto, pode apagar a qualquer momento… e o tempo da eternidade será conhecido com o julgamento final.  

Como vi que Deus estava decidido paralisar coletivamente todos os relógios temporais à meia-noite do 2º domingo de outubro, perguntei:

- Mas Deus, qual a vantagem agora desse julgamento coletivo? Logo nesse dia onde os devotos de Nossa Senhora de Nazaré (a Mãe do nosso irmão Salvador), rendemos  tantas sinceras  homenagens e espalhamos  bondades e renovamos nossa fé....

E Deus respondeu: por isso mesmo, nesse dia, os relógios vão parar, e os  Anjos dos Céus irão tocar suas trombetas em regozijo às centenas de almas arrependidas, convertidas  e caridosas. Os Céus as receberão em festa. 

E Deus ainda acrescentou: É que, no minuto seguinte ao dia do 2º domingo de outubro, começa a  amnésia coletiva e muitos  devotos esquecemos as promessas e os arrependimentos…

Parecia que a paciência de Deus estava  se esgotando. Ele estava mesmo decidido.  Mas voltei a argumentar.

- De fato, os devotos fazem muitas ações de caridade. É lindo de ver!. É mais emocionante fazer! Até parece que a nossa Mãe-Maria pega sua varinha mágica da conversão e espalha o pó do perdão sobre a cidade de Belém do Pará, tamanha a bondade que se encontra em cada rua, em cada esquina e em cada rosto encantado pelas promessas. 

E acrescentei: desculpe Deus, mas pense nisso: Se os relógios temporais pararem em definitivo no 2º domingo de outubro,  o Senhor,  o nosso amigo-irmão Jesus, e Nossa Senhora de Nazaré  não terão mais , aqui na terra, as centenas de milhares de mãos, mentes e corações erguidos aos Céus, rogando bênçãos e dispostas à messe da boa semeadura e perpetuidade da bondade para a  humanidade.

Deus ficou pensativo. E ali tive a esperança de uma segunda oportunidade.

Muita gente sabe, porque muitos assim agem, que sempre há uma segunda chance. No caso dos devotos de Nossa Senhora de nazaré  sempre será  no próximo 2º domingo de outubro do do ano seguinte. E Deus pode aproveitar o tempo para ajustar de novo o relógio da vida.

- Deus pensou mais um pouco e disse: está bem! Mas, saibam todas as pessoas que os seus relógios temporais devem estar ajustados ao meu relógio da vida - vida cheia de simplicidade, cheia de caridade, cheia de bondade, cheia de fraternidade e cheia amor. 

Fiquei aliviado e agradeci ao meu bom amigo Deus pela segunda chance.  O sonho acabou ali, com mais um tempo concedido  aos nosso relógios.

 Mas é melhor que o julgamento final seja  individual  mesmo, porque se for coletivo,  acabará com a  tradição religiosa  mais importante e magnífica do mundo católico: o Círio de Nossa senhor de Nazaré.

Então, este é  último pedido repensado,  que vai à nossa mãezinha da humanidade:  por favor, ajuste também o relógio da fé para que a bateria da devoção nunca acabe porque, no 2º domingo de outubro,  a rádio coletiva da fé sintoniza milhões de corações pelos quatro cantos do mundo, evocando badaladas do tempo da nossa existência.

Océlio de Morais
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