Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

O Círio da montanha de fé virtual

Océlio de Morais

Todo cristão tem seu momento de Dídimo ou Tomé, o apóstolo.

Pelo menos nos momentos de fraqueza, incerteza e claudicância. Quer ver para crer. Tomé – consagrado Santo pela igrejas Católica Apostólica Romana – só acreditou na ressurreição de Jesus depois que tocou nas chagas (mãos e costela) do Messias ressuscitado.

→ “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum hei de crer”, disse Tomé aos apóstolos que lhe davam a boa nova da ressurreição. (João, 20, 25).

E Cristo, depois fazê-lo tocar nas suas chagas, disse-lhe: “Creste, porque me viste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (João, 20, 25).

Tomé viu e acreditou. E se transformou num dos mais abnegados apóstolos de Jesus, tanto que, além da Igreja Católica, também é considerado Santo das igrejas Anglicana, Copta e Ortodoxa – o Santo Mártir que foi condenado à morte por evangelizar: conta a tradição católica que, na imagem do Santo, a lança que segura na mão esquerda simboliza foi morto a lançadas.

Eu sempre tive extrema curiosidade religiosa de ver para crer o “rio de fé” da procissão do Círio de Nazaré, com aquele mar de alegria e dor.

Queria ver para crer na “Montanha de fé” (esse é o título de um dos meus poemas sobre o Círio de Nazaré) pulsante que percorria as ruas sinuosas sob copas das mangueiras da tropicália Belém do Pará – verdadeiras catedrais a céu aberto.

Lá do meu interior amazônico, na cidade de Monte Alegre, no início de 1970 – sem jornais e sem televisão, apenas a Rádio Clube do Pará (a PRC-5) chegava lá com bastante ruídos pelas Ondas Tropicais – eu ouvia a transmissão do Círio por essa rádio.

Mas não acreditava muito que as ruas do percurso do Círio reuniam, já àquela época, milhares de peregrinos da fé, considerando que na década de 1970 a capital tinha apenas 642.514 mil e, a minha terra natal, somente 55.462 boa almas, conforme o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – o IBGE.

Por certo que o meu paradigma era despropositado: meu imaginário infantil estava acostumado à procissão do Círio de São Francisco de Assis nas ruas arenosas do entorno da matriz. No bairro da Cidade Alta, também no mês de outubro.

O tempo da crença veio no tempo certo. E passei a acreditar nos “rios e montanhas de fé” aos pés da Virgem de Nazaré, na magnífica procissão do Círio. Isso aconteceu quando, a partir de 1980, cheguei como seminarista à capital e, também como repórter de O Liberal, fazia coberturas jornalísticas do Círio, ora acompanhando “ex-voto suscepto” (o voto realizado) no carro dos milagres, ora no carro das promessas, ora no cordão mágico da Berlinda.

Então acreditei, vendo, vivendo e dando o testemunho dessa história através de minhas matérias e reportagens jornalísticas.

Ora, o primeiro Círio – como o primeiro amor – ninguém nunca esquece. O meu foi cheio de fé porque – embora já não mais existisse o carro de bois puxando a berlinda (uma tradição portuguesa com certeza) – caminhei na corda, suando na corda, sangrando na corda, orando na corda cheias de mãos fiéis calejadas.

A partir de então, ano a ano, ora na translação fluvial, ora na procissão do Círio, ora na trasladação noturna venho me somado aos milhões de fiéis nessa corrente de fé tão diferente tudo o quanto já vi nos dilemas de vidas cruzadas nessa odisseia terrestre.

Agora a minha incredulidade agora é outra, diferente daquele momento de ausência de fé do apóstolo Tomé. Não que eu não esteja acreditando nessa realidade, mas, sim, porque é muito doloroso e difícil aceitá-la: a ausência de fiéis no “Círio de Nazaré 2020”.

É isso mesmo: um Círio sem o choro da emoção lavando cor suor humano as ruas do trajeto, porque a Santinha não terá nas ruas o calor da fé dos filhos amados. Será um Círio sem o choro dos joelhos, mãos e pés com sangue das dores da fé.

Um Círio sem cor e cheio de gente nas ruas, balbuciando a palavra mágica “Feliz Círio”, é o mesmo que ausência de luz na noite sem estrelas, porque é exatamente a corrente de esperança tecida por braços e mãos entrelaçados como elos de fé, que torna essa festa religiosa a mais importante do Brasil e do mundo católico.

É doloroso e triste também porque, desde a realização do primeiro Círio no Século XVIII (outubro de 1793) – e lá se vão quase três séculos de promessas à Virgem e de milagres da Virgem à nossa boa gente – é a primeira vez que essa especial espiritualidade não será expressa com o povo caminhando nas ruas como um “rio de fé” que desliza mansamente aos pés da Virgem.

Tudo por causa da pandemia da COVID-19 – pandemia que um vírus chamado Coronavírus chegou rapidamente no Brasil vindo lá da China, e tantos amigos e tantos conhecidos já levou. Exatamente por mostrar a sua cara – pode estar no aperto de mãos, no abraço, no espirro involuntário – representa um risco iminente de contaminação e disseminação em massa da doença.

Ao vírus somos todos vulneráveis e indefesos, por isso a acertada e responsável, mas igualmente dolorosa decisão da Arquidiocese de Belém em não realizar a procissão do Círio presencial nesse ano de 2020.

Fico imaginando os dias de reflexão e as horas noturnas em claro de Dom Alberto Taveira Corrêa para tomar essa decisão. Mas foi sábia. Seu amor ao povo, inspirado pela Virgem, falou mais alto.

O Círio de Nazaré de 2020 – que já entra para a história pela ausência da procissão presencial e da trasladação noturna, das procissão fluvial e outras homenagens presenciais tradicionais – de outro lado vai entrar em nossos corações e mentes como o Círio da montanha de fé virtual: pelas redes sociais e canais de comunicações todos estaremos irmanados, com o mesmo fervor filial nazareno, à devoção plena, plena de coração, à Virgem Santa Maria de Nazaré – a mãe de nossa fé.

Océlio de Morais
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