Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

Elegia e Ode (em crônica) ao spiritum lucis, João Carlos Pereira

(Uma magna cum laude à vida de obra completa)

Océlio de Morais

Quando eu ligava para o João Carlos Pereira ou quando ele me ligava, geralmente depois das 22 horas, mas antes da meia-noite, os primeiros cumprimentos eram assim:
 
Bonne nuit.  Comment vas-tu mon ami ?
 
E ele  assim atendia:  “Je vais bien, et avec toi mon ami”?
 
Ca va bien, merci, eu respondia. 
 
Em seguida,  a gente trocava algumas ideias sobre assuntos diversos. Essa intimidade fraternal vinha bem de longe, desde 1985, quando nos conhecemos na redação do jornal O Liberal, quando ainda funcionava na rua Gaspar Viana, ali bem em frente ao que hoje é a Estação das Docas. 
 
Além da assessoria especial à Fundação Romulo Maiorana,  João Carlos editava a página de cultura. Eu, repórter. Foi com o João que publiquei meus primeiros modestos poemas na coluna “Janela da Poesia”, um espaço aos iniciantes, também criado por senso cultural  de João Carlos.
 
João Carlos Pereira tinha os passos curtos e apressados. Pareciam que queriam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. 
 
Não que desejasse a ubiquidade ensimesmada. Mas eram passos que conduziram aos inúmeros compromissos cotidianos, sempre no sentido de atender com pontualidade e qualidade, com  gentileza  e singeleza de espírito indistintamente a todos que em sua inesgotável fonte cultural queriam beber uma gota de sabedoria.
 
João Carlos foi embora; mas, de verdade, não foi.  A matéria se foi, porque tão bela quanto efêmera, representa o destino ao qual dia a dia todos nós nos aproximamos, como as cintilas do tempo.
 
A matéria se foi. Mas enquanto esteve corporificando a condição humana daquele que Deus confiou uma alma essencialmente poética, dourada de um espírito humanista; por isso, sempre foi un bon ami fraternel, como eu costumava chamá-lo. 
 
Certa vez presenteei o João com um relógio. Uma manifestação de gratidão por ter, sem me cobrar absolutamente nada, ensinado as boas técnicas da redação à minha filha, Aline Eddie, que se preparava para o vestibular. Parece que ela incorporou a mágica do João, pois, naquele ano, obteve a melhor nota da redação do vestibular da Universidade da Amazônia. 
 
A sua amada esposa, dra Emília Farinha, me disse certa vez que o João Carlos tinha aquele relógio como uma segunda pele do antebraço esquerdo. João Carlos era assim mesmo: hiper afeiçoado às coisas e às pessoas de quem  tanto  gostava.
 
João Carlos era assim mesmo: um gentlemen, aquele tipo de cavalheiro-amigo que, escavando espaço na sua apertada agenda, compartilhava alegrias, mas também sabia ser solidário na doença com amigos.
 
À  minha posse na Academia Paraense de Letras Jurídicas no mês de agosto de 2018, o convidei. E lá estava o mon bon ami para a completude daquele momento especial de minha vida na Academia, selado por um abraço entre dois amigos a quem Deus permitiu o convívio de almas irmãs enlaçadas pela amizade fraterna. E João me perguntou ao ouvido: “Cadê as tuas poesias e crônicas? Deves publicar e te inscreves na APL.” 
 
E quando no mês de abril de 2020 fui acometida pela  COVID-19, muita gente querida rezou por mim e pela minha recuperação. João Carlos foi um deles. 
 
Telefonou-me. Manifestou sua preocupação com a minha saúde. Disse-me que rogava bênçãos à minha vida. E voltou a incentivar  - gesto gentil que há muito tempo o fazia - a publicação de minhas crônicas e poemas, a fim de me inscrever a uma Cadeira na Academia Paraense de Letras.
 
Prontificou-se,  e fez  com  aquela singeleza de espírito que era peculiar de seu extraordinário caráter humano, a apresentação de meu livro de poemas (Das Coisas Humanas). Foi uma apresentação linda, que, por certo, não seria tanto merecedor de tamanha benignidade: 
 
-  “Sua lírica é uma das poucas que, em terras da Amazônia, discute a poesia e reflete a respeito do fazer poético. (...) Seus versos se ajoelham diante do mistério da fé, como se estivessem no culto, depois de testemunhar a transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue do Senhor. São versos de inquietação e de comovente aceitação daquilo que não se vê, mas que conforta, evangeliza e salva”, escreveu João Carlos. 
 
Deixou-me profundamente emocionado; mas,  também,  com a certeza renovada de que aquele ser humano abençoado, corporificado poeta e cronista, era uma alma benigna, que sabia, como quase ninguém, fazer bem às pessoas como gestos concretos,  com  palavras afetuosas e verdadeiras.
 
A última vez que estive pessoalmente com o João Carlos, no dia 8 de outubro de 2020,  foi lá na Casa das Artes, no lançamento do genial conto  “O pato do círio no ano que não teve Círio”, e do premiado livro  “O pato do Círio”, da extraordinária poetisa, contista e escritora Maria Edy-Lamar, imortal da Academia Paraense de Letras. 
 
Saímos juntos do evento. Com seus típicos passos curtos e apressados, e com a cabeça a mil, já ia se preparando para o próximo compromisso, que seria às 18:00 horas, na Universidade da Amazônia. 
 
Caminhamos até o seu carro estacionado atrás da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, ali na rua 14 de Março, na cidade de Belém do Pará.. Conversamos durante cerca de cinco minutos, ocasião em que falou-me das expectativas das eleições para quatro Cadeiras na APL, designadas para o mês de novembro. 
 
Aqueles passos curtos e apressados pareciam, em direção de cada compromisso, pareciam que queriam dizer que o João Carlos tinha pressa. Uma pressa especial: maximizar o tempo de sua existência com boas ações, todas alimentadas pela extrema devoção e fé em nossa Mãe Santíssima, Nossa Senhora de Nazaré.
 
Seus passos curtos e apressados tinham pressa em bem servir os desígnios de Deus através da sua  incansável e dedicada alma de poeta e cronista  mágico que brincava com as letras e com as palavras,  assim mesmo como uma criança  que descobre a beleza em tudo que vê e toca.
 
João Carlos Pereira, na intimidade eu o chamava de o “mago das letras rimadas", não se foi. Sua história, sua poesia, suas crônicas, sua religiosidade não se foram. Permanecem entre nós as boas e frutíferas sementes do bem, da fina cultura e da amizade fraterna.
 
Ao  spiritum lucis, João Carlos Pereira, receba a magna cum laude por sua vida, obra completa plasmada pelo aroma da poesia abençoada.  
Océlio de Morais
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