Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

Desabafos e aborrecimentos de Deus

Océlio de Morais

Sonhei que Deus estava aborrecido com a humanidade. E, por isso, ele resolveu dar uma tarefa audaciosa e reparatória a todos, homens e mulheres, seus filhos amados.

A tarefa, antes, tinha uma condição resolutiva para que os humanos pudessem voltar a merecer e receber benesses de Deus. 

Deus estava  muito atarefado, cheio de pequenos e grandes problemas para resolver - problemas levados pelos humanos, que mais pediam favores milagrosos  do que agradeceram as  as dádivas recebidas. 

Eram tantos os problemas e tantos os pedidos espalhados num imenso vale, maior que toda a extensão de todos os mares reunidos. 

E o Espírito de Deus (que estava acompanhado de Jesus e da Santíssima Mãe Maia) pairava sobre aquele universo de problemas e pedidos. 

Enquanto eu observava Deus, também pensava: será o universo cheio de problemas e pedidos evitáveis? Como será que fica a paciência de Deus diante dessa multitude de coisas cansativas? 

Aquele imenso vale de problemas e pedidos era o verdadeiro abacaxi amargo do dia a dia para Deus resolver. 

Deus tinha uma tarefa interminável. Não que Ele fosse ou seja incapaz, mas porque os humanos somos pródigos em pisar e repisar na bola e, depois, com a cara deslavada, voltamos a pedir desculpas.

A tarefa de Deus é interminável e contínua:  selecionar os pedidos e problemas mais graves e mais urgentes para conversar com as pessoas diretamente envolvidas.

 Com aquele “Olho que tudo vê”, não importando se o ato ignominioso foi cometido às escuras ou se a bondade é visível a todos, Deus fez um movimento com o dedo indicador da mão direita, separando os problemas dos pedidos. 

Aquela imagem mágica era como se Deus estivesse no Olimpo, ordenando tudo. Mas não era o “Olimpo”, pois este era o "céu" de Zeus.

“Por  Zeus”, diriam os filósofos gregos, agora, faço um parêntesis aqui sobre  esse   “deus”.

Já paramos para imaginar se Deus  (o  verdadeiro e Grande Arquiteto do Universo) fosse igual a Zeus?

Ah! Não sei o que  poderia acontecer nos dias de hoje com tantos problemas que nós humanos criamos desnecessariamente e depois nos deparamos com as enrascadas  para desatar o “nó cego”.

Zeus, o pai dos deuses - conta a mitologia grega - esposava qualquer mulher que  desejasse, gostava de brincar com trovões (Thor ficava chateado com a supressão de seus poderes) para meter medo nos mortais. 

Estimulava briga entre irmãos e fazia uma espécie de jogo de xadrez (para que fossem decifrados seus enigmas) com os homens - eram brigas,  talvez porque já estava acostumado com as brigas familiares, tanto que enfrentou a maldição do avô e do pai (que perderam o trono)  e tornando-se o senhor dos deuses, ficou com o “Céu”, Poseidon com os mares e Hades com o inferno.

Vem daí que os filósofos gregos clássicos, a partir de Sócrates, tinham muito medo de Hades e sempre clamavam “por Zeus!”, quando algo de bom lhes aconteceria. 

A mitologia grega não diz expressamente,  mas Zeus era um deus maligno. E um farrista: gostava de uma farra com Dionísio, o “deus” do vinho. Nas festanças no Olimpo todos os deuses e deusas se rendiam aos caprichos de Zeus.

Mas Deus não é Zeus. Por isso, não faz enigmas, mas distribui desígnios.  Por isso, não castiga e nem amedronta os mortais. Não zomba dos mortais. Mas tem caridade, generosidade e  piedade pelos mortos, porque os ama incondicionalmente, sem joguinhos ou quebra-cabeças como Zeus fazia.

Fecho o parêntesis. E volto ao sonho com Deus.

Vi no semblante de Deus, à medida que ia identificando os problemas, uma expressão de desapontamento. Por isso, Deus não estava apenas aborrecido. Estava seriamente aborrecido:

Noutro  gesto com o dedo indicador direito, Deus num piscar de olhos identificou a raiz dos vários problemas da humanidade: a corrupção - a corrupção que move a ganância, que move o egoísmo, que move o poder, que promove a “Torre de Babel” … A  corrupção que promove destruição das relações humanas e das sociedades. 

Ouvi Deus fazer 10 desabados (sobre seus aborrecimentos com a humanidade)  durante a conversa com Jesus e com a Mãe Santíssima: 

1. Deus está aborrecido com a corrupção, que corrompe; 

2. Deus está aborrecido com a corrupção,  que mata;

3. Deus está aborrecido com a corrupção, que violenta os direitos sociais;

4. Deus está aborrecido com a impunidade da corrupção;

5. Deus está aborrecido com quem ignora a corrupção e dela se aproveita para seus negócios inconfessáveis;

6. Deus está aborrecido com as intolerâncias  religiosas;

7. Deus está aborrecido com as ideologias contra Cristo (cristofóbicas); 

8. Deus está aborrecido com as ideologias extremas que dividem as pessoas e as tornam escravas de “conceitos”  políticos seccionistas;

9. Deus está aborrecido com as discriminações e racismos sociais;

10. Deus está aborrecido com  pessoas (cidadãos ou agentes públicos) que fazem, mas não cumprimos  as boas promessas capazes de produzir  sentidos positivos e edificantes à felicidade humana. 

Por está aborrecido, mas não raivoso, porém cheio de caridade, Deus resolveu, por um dia da existência  de cada mortal, designar cada um de nós  como o gestor dos problemas  da humanidade …

E Deus disse: cada mortal será “deus” por um dia. Todos devem  ter paciência e sabedoria para compreender a falibilidade humana e sempre conceder a segunda chance, perdonado 70 x 7.

De minha parte, lá mesmo no sonho, admite logo, antes que Deus resolvesse começar as designações, que eu não seria digno de tamanha responsabilidade. 

Consideradas as fraquezas humanas num universo das tentações materiais, eu pensei (também lá no sonho) que o mundo ficaria todo enrolado se Deus realmente resolvesse designar um “homem-deus” por dia, porque - mesmo sem poderes de Deus -  muitos de nós, com pouquinho de poder terreno, já se consideram Deus.

Ainda bem que o plano não foi adiante. Mas Deus renovou a tarefa do perdão perpétuo (perdoar 70 x 7) com base na caridade e na generosidade para acordarmos para a realidade tão presente mas tão relegada: nascemos (desnudos) sem nada e morremos (desnudos) sem nada. 

Por nossa  falível condição humana, necessitamos das mãos solidárias para crescermos fraternalmente, donde resultará o respeito especial à dignidade humana.

No canteiro da dignidade humana, não haverá espaço  para a corrupção (que tudo destrói e tudo mata) e, assim, Deus não mais ficará aborrecido.

Océlio de Morais
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ÚLTIMAS EM OCÉLIO DE MORAIS