Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

Ave-Maria e os dogmas de fé

Océlio de Morais

Vou começar essa crônica com um desafio mnemônico. E com  uma provocação reflexiva ao leitor.

O desafio: a partir de sua percepção consciente sobre a fé cristã, você já se deu conta das vezes que rezou (com fervor ou o automático repetitivo) as orações  Ave Maria e Santa Maria, a partir dos dogmas que elas reafirmam? 

Bom, mas se você sabe quantas vezes reza  por dia  essas orações, basta multiplicá-las pelos dias de sua existência. Parece complicado, mas a provocação reflexiva  é essa;  a partir desse exercício, você terá, por aproximação, uma ideia geral do nível de sua conexão com a Virgem Maria de Nazaré. E também poderá ter a noção  da intensidade de sua fé e devoção à Virgem; portanto, de sua intimidade espiritual com a Virgem.

De meu lado, meu ponto de partida para isso é a primeira comunhão,  ocorrida  quando eu tinha  nove anos de idade. Ali aprendi a noção do pecado contra as coisas de Deus. E o padre, após cada confissão, recomendava como penitência que fossem rezadas três Ave-Maria e três Pai-Nosso. Mas, é claro, isso quando o pecado era leve.  

Por  certo que a fé não é medida pela repetição balbuciada ou pronunciada. Sua intensidade é constatada não pela aparência forçada, mas pela  correspondente coerência prática do que significam  ou possam significar à vida daquele que acredita na força espiritual dessas orações. 

Agora que você já pensou e identificou (mais ou menos) a intensidade de sua fé, tem uma outra questão decorrente:  você sabia que nessas duas orações estão condensados quatro dos oito dogmas de Maria: Anunciação, Maternidade Divina (Mãe de Deus), virgindade perpétua (imaculada) e a Assunção.  Interessa à crônica os quatro dogmas presentes nas orações Ave-Maria e Santa Maria.

Ah, apenas para relembrar: no catolicismo, dogma representa o ponto fundamental, inquestionável, indiscutível e inafastável da doutrina religiosa. Por outras palavras, conforme a Teologia define: dogmas são verdades reveladas sobre a existência de Deus e sobre a fé no Divino. 

Isso está bem claro lá no Cân  246, § 3, e no  Cân 1186 no Código Canônico (sua primeira versão é do ano de 1917, no papado de Bento XV,  e a versão atualizada data de 1983, adotada no pontificado de João Paulo II), quando se referem aos dogmas cristológicos e aos dogmas de Maria. Outra informação relevante: antes do Código de 1917, a Igreja Católica adotava apenas um conjunto esparso de normas jurídicas sobre questões materiais  e sobre dogmas espirituais. 

Dito isso, vamos aos dogmas de Maria.

Talvez muita gente nem perceba, mas quando  faz essas orações diariamente, também está renovando sua convicção nos dogmas marianos.  E isso acontece assim:

1. O primeiro dogma (a Anunciação) representa a fé fundamental de que a jovem Maria de Nazaré foi a escolhida e a ungida dentre todas as mulheres de sua época para ser a Mãe do Filho de Deus, que se chamaria Jesus.

O dogma da Anunciação está logo no início da oração principal: “Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco…”.. 

Essa é  a mensagem de Deus levada pelo Arcanjo Gabriel (na angeologia  católica esse Arcanjo é o mensageiro das boas novas Divinas), que saúda  a jovem Maria de Nazaré:   “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo! (...) ‘Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus”.

Maria ficou assustada com a visita do Arcanjo, mas acreditou e se colocou como serva aos pés do Senhor. Foi esse gesto de fé que deu a possibilidade à concepção do Filho de Deus.

Se Ela não acreditasse, certamente o projeto de Deus “faria água”. Por certo que Deus não precisaria do auxílio humano para mandar o seu Filho querido à terra. Todo seu poder criador (usado para criar  o mundo com Adão e Eva, conforme nos relata o livro de Gênesis), dispensaria perfeitamente a ajuda humana.

Mas, observamos bem: a “utilização” ou “colaboração”  de um ser humano para concretizar o projeto à humanidade representa a clara mensagem de que os planos de Deus são para o bem e evolução da humanidade e, por isso, homens e mulheres devemos ser partícipes indispensáveis à realização desse projeto. 

Ao bem da humanidade, felizmente a jovem Maria de Nazaré teve fé e aceitou o projeto de Deus.

- “Maria, então, disse: ‘Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.. E o anjo retirou-se”, (Lc, 1, 27), disse ela ao Arcanjo Gabriel.

O dogma da Anunciação é o ponto de partida para a crença nos três outros dogmas marianos objetos desta crônica.

2. O dogma da Anunciação também é a origem do segundo dogma (a Maternidade Divina ou Mãe de Deus), que é assim enunciado pelo Arcanjo Gabriel: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo (...)” .  (Lc, 1, 27).

Na oração da Ave-Maria, esse dogma está na frase: “ Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Na oração “Santa Maria”, o  mesmo dogma  está presente na frase: “Santa Maria, Mãe de Deus”,  que sintetiza a saudação de Isabel ao receber a visita da prima, Maria de Nazaré :”Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”. (Lc,1:42).  

E significa que a concepção é espiritual, nutrida  pela fé absoluta de Maria no milagre prodigioso de Deus. 

3. Com o segundo dogma de fé está intrinsecamente vinculado o terceiro dogma (a Virgindade perpétua), equivalente à mulher pura e imaculada; isto é, a humana que não concebeu a maternidade pela relação sexual , por isso, sempre será a Virgem Mãe do Filho de Deus. 

Assim anunciou o Arcanjo Gabriel: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus.” (Lc, 1. 28-29).

Essa é a origem do terceiro dogma, mas apenas com o Papa Pio IX, a Igreja Católica formaliza o dogma da Virgindade perpétua da Imaculada Conceição 

Esse dogma também é fundamental à existência da fé cristã.  Negá-lo  ou questioná-lo, significa também negar ou  eliminar os demais preexistentes e toda a história da fé Cristã. 

Por isso que a misofobia do contra Cristo (tema acerca do qual dedicarei outra crônica), que nos últimos tempos tem crescido mundo afora, no fundo representa a negação aos dogmas marianos; portanto, significa violação à liberdade de religião e à fé cristã. 

4.  Como prêmio ou reconhecimento à vida terrena inteiramente dedicada à fé inabalável  em Deus,  a completude à Virgem  Maria de Nazaré veio com a  Assunção aos Céus, em corpo e alma, sendo este o quatro dogma.

O fundamento bíblico está no Capítulo 12, I, do livro do Apocalipse.: “Viu-se um grande sinal no céu: uma mulher  vestida de sol, e a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.”

Embora presente na Bíblia, a  Assunção  somente foi proclamada como dogma em novembro de 1950 (uma decisão  do nosso tempo moderno), no pontificado do Papa XII, através da Constituição Apostólica  Munificentissimus Deus, que assim decreta  “(..) o dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".

Os dogmas de Maria, embora as coisas da vida sejam dinâmicas e mutáveis,  servem para fortalecer a tradição, a crença e a fé na e da condição Divina de Jesus, que se corporificou homem à construção da fraternidade, através do amor universal - este, o grande desafio que a humanidade ainda não se esforçou  de verdade para compreendê-lo e implementá-lo. 

Os dogmas de Maria são necessários à preservação e evolução do legado de Jesus Cristo à humanidade. 

Agora eu pergunto a você:  a partir de agora, suas orações  Ave-Maria e Santa Maria estarão consciente e mais fervorosamente carregadas  dos dogmas de fé de Maria?

Océlio de Morais
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